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segunda-feira, 27 de maio de 2013

OCULTAÇÃO DE CADÁVER

NO PORÃO DO EDIFÍCIO DECREPTUS, os três tentam fazer a instalação elétrica voltar a funcionar. No maior breu, Uli e Jakson seguram as lanternas e Manolo tenta operar a caixa de fusíveis com ajuda de um manual.

- Valeu pelo telefone da ruivinha, Uli.
- Rastafaris sempre alerta, carioca. Mas e então? Ocê tá mesmo a fim de Lexi?
- Bom... É impossível pra qualquer macho ficar indiferente àquele monumento, né?
- Assino embaixo!
- Gostosa pra cacete! Que olho verde é aquele, Jamaica? E, principalmente...-Faz o gesto de circunferência ao redor do peitoral.- Caralho! Que comissão de frente é é aquela? Portar aquilo tudo devia ser crime!
- E sabe do que mais? Nenhum milímetro dela nunca recebeu ajuda do bisturi, rapaz. Conheci a gata em seus 17 anos, e ela continua com a mesma cara até hoje!
- Linda de matar, talentosa... Só tem um probleminha. Parece que é inteligente demais. Ela me contou de onde vem o talento dela, cheguei a ficar meio apavorado!
- ÔU! DÁ PRA TU PARAR DE BALANÇAR A PORRA DA LANTERNA, JAKSON?- Manolo briga com o irmão- A PARADA AQUI É PERIGOSA!
- Opa, foi mal. Como é que tá aí?
- Ninguém mexe nessa fiação há muito tempo... Só dá cabo roído de rato e ligação podre. A gente vai ter que refazer a fiação todinha antes de pensar em puxar o gato.
- Ocê deve entender de eletrônica pra cacete, hem, maluquinho?- Uli se interessa.
- Dou minhas quebradas por aí... Lá no hospício, já dei muito curto-circuito nos portões elétricos pros internos fugirem.
- Dizaí, que papo é esse de hospício?
- Nem queira saber, Jamaica.- Responde Jakson.
 Bom...- Manolo corta uns fios com um alicate, limpa a ferrugem com um pedaço de lixa e os emenda de volta com fita silver e uns band-aids usados do próprio corpo- Até a gente voltar com os cabos novos, deve quebrar o galho essa amarração. Alguém quer ter a honra de ligar a chave?
- Jah não permite!
- Sai fora, véio! Quer me matar?
- Cambada de frescos..

Ele liga a chave e os circuitos explodem na cara dele com tanta energia que voa arrastando pelo chão e dá de cabeça na parede. As lâmpadas dos postes ao redor do velho prédio até dão pique com o curto-circuito. Manolo, totalmente grogue, abre  os olhos e a boca, seus dentes ficaram cobertos de cinzas com o choque. Mas a luz do prédio de algum jeito volta a acender!

- UHUUUUUU! Caralho, isso sim que é onda! Ai, mnha vozinha...
- É, parece que ocê leva jeito mesmo pra esse tipo de coisa, hem, maluquinho?- Uli limpa as cinzas do cachimbo.

No seu gabinete em casa, o prefeito está ao telefone.

- Alô? Dona Valquíria? Pode me passar para o supervisor-chefe da empresa, por favor?

Aguarda, batucando o ritmo da musiquinha de espera na mesa.

- Sr. Edelberto? Sou eu, Chico.Hoje às 14:30 eu agendei uma inspeção com o dono de uma doceria às instalações da fábrica. Quero que seus homens escondam qualquer coisa que possa me incriminar aos olhos dele, OK? Dá um banho de rodo aí em tudo que logo logo a gente vai chegar. Compreendido? Ótimo. Nos veremos em breve.

Do outro lado da linha, o supervisor, chocado, desliga o telefone com as mãos trêmulas.

- Nossa Senhora!

Ele sai correndo da sala e gritando feito louco.

- PAREM TUDO! PAREM TUDO!
- O que aconteceu, patrão?
- A fábrica vai passar por uma inspeção hoje à tarde, temos que limpar tudo o mais rápido possível!
- Como assim ‘tudo’?- Pergunta um empregado.
- Quando eu digo TUDO, quero dizer TUDO! 100%!- Edelberto pega um megafone- Atenção, equipe! Queremos todos os animais mortos, insetos, mendigos, cigarros, garrafas de cana e qualquer outra atividade ilícita fora da fábrica em uma hora! Inegóciável! Mãos à obra!

Todo mundo sai correndo desesperado.

Chicão sai de casa, entra na limusine e fala com o motorista pela janelinha divisória.

- Leve-me à fábrica, por favor, seu Fitipaldi.
- Pois não, sr. prefeito.

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