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segunda-feira, 1 de abril de 2013

ROCK N' ROLL! (PARTE 1)



MAIS TARDE, ALEXIA vai entrando no quarto e escuta uma discussão vinda do quarto ao lado. É Jakson, exibindo uma imensa tatuagem dos touros do Red Bull no peitoral e uma cruz de Malta em cada bíceps, aloprando com o irmão. Ele possui um contrabaixo azul todo coberto com adesivos, ao passo que o irmão caçula tem algo que, num passado distante, foi uma guitarra Jennifer modelo Magnus, uma marca de péssima reputação, que nem mesmo músicos amadores têm coragem de comprar. Pode-se dizer que ela costumava ser preta, mas de tão desgastada e corroída, parece que passou a última década nos intestinos de um dragão. As cordas estão todas enferrujadas e seu braço empenado tem um remendo no meio.

- Tu me deixa doido, sua anta! Não dá pra entender como teu cérebro funciona!- Ele pragueja, andando em círculos pelo quarto e apontando o dedo para o irmão mais novo, com raiva- Quando tu voltou lá pra casa, em um ano te ensinei tudo que sabia de teoria musical. No ano seguinte, tu fez aquele recital solo da Sonata ao Luar de Beethoven, lembra? Então... Então me explica por que eu não consigo te ensinar a tocar três acordes na guitarra, caralho? Me explica!
- Violino e violoncelo não é a mesma coisa que guitarra, né?
- Mas é muito mais fácil, pô! É só me acompanhar sem errar! Vá lá, doido... Mais uma vez, e se tu sair do compasso de novo, vai tomar tanta piaba que vai parecer que tua nuca tem um tumor, tá ligado?
- Vai, vai, vai...
- Então te cuida, hem? Vamo nessa... Six Pack, do Black Flag, 5, 4, 3, 2...

Jakson aperta o play no aparelho de som e logo dá início à lancinante introdução de contrabaixo da música Six Pack, da banda punk californiana, acompanhando com perfeição a velocidade sobrehumana de Chuck Dukowski.

- Começa, Manolo! Começa!

O irmão entra lentamente em ação, abafando as cordas em que palheta passa, acompanhando os pequenos arranjos de Greg Ginn. Logo ele começa a martelar os mesmos acordes do irmão mais velho, acompanhando-o quase perfeitamente, ainda que o som extraído de sua “guitarra” mais lembre os trinados e rangidos de um bando de morcegos. Mas ao sair da introdução e entrar de verdade na música ele se atrapalha todo. Jakson, irritado, solta o baixo do cabo e dá com ele nas costas do irmão, que voa em estado de semiconsciência até a porta do apartamento como um aviãozinho de papel.

- Desisto! Tu não tem salvação na guitarra! Vai procurar tua turma e me deixa em paz!

Alexia assistia a tudo pela fechadura, quando, de repente, a porta se abre e ela cai de cara no carpete imundo. Jakson e Manolo tomam um tremendo susto.

- Ruiva? Tá tudo bem?
- Hihihihi... Âhn... Posso entrar?
- Ah, sim, sim. Peraí, deixa eu te levantar...

Ele se atrapalha todo com os cabos no chão e abre a porta.

- Dizaí, princesa! Qualé a boa?
- Nada, nada. Só tava passando e ouvi ocêis tocando. Toca bem, hem?
- Não dá pra dizer o mesmo do lagartixa ali no chão...
- É, também vi a cacetada que ocê deu no seu irmão... Será que ele tá bem?
- Não... Consigo... Respiraaaaaaa...- Manolo tenta sussurrar debruçado nas sobras do tapete pré-histórico do quarto.
- Ah, ele vai viver...
- Ocê tinha falado que era do metal, né?
- Só é. Curto muito Rob Trujillo, Cliff Burton, Steve Harris, Tim Commenford, Alex Camargo, Dick Siebert, Tom Araya, Les Claypool, e é claro...

Aponta pra um pôster do Flea, dos Red Hot Chili Peppers, na parede.

- Sei... Ser baixista e não ser fã do Flea é como...
- Curtir grunge e nunca ter ouvido falar em Kurt Cobain?
- Por Kurt! Como ocê adivinhou que eu tinha pensado em dizer isso?
- Sou perito em ler os pensamentos das mulheres através do olhar... Por falar nisso, que olhos, gata!-A segura pelo queixo, quase sussurrando- Se eles fossem o oceano, faria questão de morrer afogado neles.

Os lábios dela ficam trêmulos de desejo por ele, mas ela tenta se conter e se afasta dele.

- Âhn... De que marca é esse baixo?
- Jackson.
- Nem me pergunto por que ocê escolheu logo essa marca...
- Só dois seres podem ficar com o corpo colado ao meu. Eu mesmo...- Dá um grude na moça- E as mulheres!
- Ih, tá muito malandrinho ocê, hem? Dá um tempo!

Foge dele de novo, deixando-o meio sem graça. Ela repara num nome pichado na madeira do baixo com spray verde fluorescente.

- “Carmem”? Nome de sua namorada?
- Não, do baixo mesmo. Eu não abraço homem nenhum, nem objetos no masculino. Então, o nome dele ficou Carmem Jackson.
- Sei... Continua tocando! Me deixa ouvir o que ocê consegue fazer!
- Então tá... Sente essa.

Ele toca o movimento final da Tocata e Fuga de Bach, e ela arregala os olhos de admiração.

- E aí? Mandei bem?
- Óia, eu não acredito em blasfêmia, mas JESUS CRISTO! Palmas procê!
- Curtiu mesmo? Sente só agora!

Ele toca o mesmo arranjo ao contrário, sem perder o ritmo, e para coroar o exibicionismo, ainda joga o baixo pro alto e o equilibra na ponta dos dedos.

- Menino!- Uma boquiaberta Alexia enfim consegue balbuciar alguma coisa- Tirando a macaquice, esse solo foi um arraso! Até agora, eu era a única que eu conheço que sabe solar ao contrário, sô!
-Valeu... E aí? Quer dar um rolé no acostamento?

2 comentários:

  1. Muito gostoso esse diálogo dos dois, Aléxia e Manolo. Muito próximo do real. Só não gostei do excesso de violência dos dois irmãos. Maneira um pouco aí, por favor!

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