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sábado, 27 de abril de 2013

O LEGADO DOS ROTSCHEIDER


O PREFEITO RECEBE EM SEU gabinete um entrevistador e um senhor calvo de bigode grisalho, usando terno cinza-escuro e gravata azul.

- É claro que estou interessado em fazer sociedade com o senhor. É uma oferta que eu seria maluco se recusasse! Sempre sonhei com o dia em que uma receita tão tradicional como a da minha família pudesse ser apreciada em todo o país!
- E talvez em todo o mundo, Sr. Rotscheider.

Ele lambuza uma bolacha de água e sal numa colherada do doce de cajá-manga e tenta não parecer guloso ao esfregar o manjar divino nos lábios.

- Eu havia encomendado muitas pesquisas a respeito dessa compota, mas nunca imaginei que pudesse ser tão deliciosa!
- Até me encabula com seus elogios, Sr. Colombo. Nada faço além de continuar com uma tradição familiar.
- Poderia contar-nos mais a respeito da compota, Sr. Rotscheider?- Pede o jornalista que os acompanha.
- Basta ligar o gravador, tenho a resposta na ponta da língua.
- Com sua licença.

- Bom... Tudo começou por volta de 1873. Neste ano, meu bisavô, Otto Rotscheider, fez sua primeira viagem de navio para a América do Sul, e regressou para a Bavária trazendo mudas de inúmeras frutas tropicais, especialmente de cajá-manga, que ele adorou conhecer. E, por incrível que pareça, todas as mudas conseguiram crescer em solo bávaro. Naquela época minha bisavó, Brunilda, era uma famosa doceira da região. Ela tentava na época vender uma nova compota a base de batata-doce para passar no pão, mas todos achavam a criação muito estranha e ninguém queria experimentá-la. Então ela teve uma idéia insólita: Substituir as batatas pelo cajá, que ela também havia apreciado, acrescentando o toque especial da família Rotscheider. Ainda desacreditada, ela começou a vender a nova receita, e em poucas semanas, cavaleiros e carroceiros faziam fila em frente à sua doçaria, apenas para comprar a compota.

Termina de comer a bolacha e prepara mais uma.

- E a receita secreta da bisa Rotscheider foi passando de pai para filho, até chegar em minhas mãos há 30 anos, quando resolvi fabricá-la e vender em todo o Estado. E, como podem ver...

Todas as bolachas do pratinho e o doce acabaram.

- Sempre faz sucesso. Tanto que, pelo menos aqui na cidade, é um hábito comum enfiar a mão no pote e se lambuzar todo enquanto come o doce.
- Tenho de reconhecer, Sr. Rotscheider.- Intervém o Sr. Colombo. Manter essa delícia conhecida somente em Minas é um pecado! Por mim, começava a exportá-la para o exterior imediatamente! Então? Podemos ir á fábrica esta tarde?
- Claro que sim, Sr. Colombo. A hora que preferir.

Os dois apertam as mãos.

Enquanto isso, Alexia volta para casa, fula da vida por ter sido largada na estrada.

- Ué, o que aconteceu, Alexia?- Pergunta Tia Flor.
- Parece até que viu um cadáver na estrada, priminha.
- Antes fosse... Só fui vítima da estupidez masculina de novo. Eu e Jakson vínhamos caminhando pelo acostamento, aí Ulysses e o irmão caçula de Jakson vieram encher nosso saco. O moleque tomou o skate de Jakson e foi embora. Ele saiu correndo atrás deles e me deixou sozinha na estrada, pode?
- Coitada...- Bárbara serve um café pra a prima.
- Valeu, prima.
- Homem nenhum presta, sobrinha. Mas sem eles, o que seria de nós?
- Provavelmente... Menos preocupadas com a magreza.
- Deixa estar, Alexia. Se eu conheço homens, logo esse aí vai voltar, pedindo perdão de joelhos, como todos eles.
- E eu vou acabar aceitando, né, tia? Apesar de parecer um cafajeste... Reconheço que ele é um mago do abraço! Só de ele me tocar, já senti a espinha arrepiar toda!
- É impressionante. Ocêis duas têm uma facilidade tão grande de se relacionar com garotões que não têm onde cair mortos...
- A gente não pode fazer nada, tia. Mulher nenhuma se imagina transando com um nerd gordinho que coleciona selos.
- É... Com o nerd a gente não transa, a gente se casa com ele!- As três gargalham com a brilhante conclusão de Bárbara.












terça-feira, 16 de abril de 2013

ROCK N' ROLL! (PARTE 2)


JAKSON E SUA POSSÍVEL FICANTE PASSEIAM pela estrada, ela vem tentando acompanhar o ritmo dele no skate a pé.

- Desde que eu nasci, sinto um... Um ritmo, uma energia dentro de mim, sabe?- Ela conta- Quando era recém-nascida, ficava batucando com os calcanhares no berço da maternidade no ritmo da música de ninar. Sabe com que idade tirei a primeira música de ouvido?
- Hum... Sei lá. Uns sete anos?
- Prepara a cara de espanto. Com dez meses!

Dito e feito. Seus olhos esbugalharam, e seu queixo caiu.

- COMO É QUE É?!? SÓ DEZ MESES?!?
- Não sei como, mas simplesmente aconteceu. Mãe tava ouvindo rádio na cozinha, simplesmente peguei um violão velho que tinha lá em casa e... A bala bateu.
- Tô bolado, mina. Eu já tinha manjado que tu era esperta, mas nesse nível?
- E sabe qual foi a música? Brasileirinho.

Ele quase fica catatônico.

- Te contaram depois que cresceu?
- Não. Cada passo que eu dei desde que nasci continua registrado em minha cabeça até hoje.
- Caraaaaaaca, maluco!
- Quer dizer, menos quando eu tomo todas.
- Claro, ninguém é de ferro.
- Ninguém nunca entendeu como eu consigo ter essa memória toda. Na escola peguei fama de caxias, mas nunca dei muita bola pra estudos. Só lia tudo uma hora antes das provas, e sempre fechava.
- Éééééé, tu não é nada fácil, ruiva...

Sem querer, ele a ultrapassa no skate, enquanto tentava maquinar tudo o que ouviu.

- Espera aí, pôxa! Tô em desvantagem aqui atrás!
- Foi mal, gata.

Ele dá uma paradinha para esperar, e percebe o Fleet vem acelerando a toda atrás dos dois.

- Saudações, peregrinos!- Cumprimenta Ulysses.
- Caramba, Uli! Que susto é esse?- Alexia o repreende- Tá querendo me matar do coração, é?
- Desculpa o mal jeito, gente. Nóis tá indo fazer uns consertos lá no Decreptus e viemos atrás de vocês pra conseguir mão-de-obra grátis.
- Ah não, Manolo!- Reclama Jakson- Eu disse que a gente ia conversar sobre essa história ainda, pô!
- E eu tenho culpa se teu ronco soa como um ‘sim’? Anda, sobe logo aqui com a ruivinha.
- E se a gente não quiser ir?
- Ah, não querem ir, né? Então acelera, jamaicano! Senta a pua!

Assim que ele religa o carro, Manolo abre a porta e puxa o skate das mãos de Jakson pra dentro, mostrando o dedo do meio enquanto somem na estrada.

- ÔU! VOLTA AQUI, CARALHO!! MANOLO, EU VOU TE MATAR, MANOLO!!!- Jakson sai correndo atrás do carro, deixando Alexia sozinha.

- Ô! Ô, e eu aqui, Jak... Jakson! Me espera, cara! JAKSOOOOOON!!!

Sai correndo atrás dele.

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Desculpa a demora pra atualizar, gente! Agora tô fazendo um curso de AutoCAD pra ver se paro de ser um encostado, e o FDP tá tomando td meu tempo pra desenhar e escrever. Até por volta do meio do Mês que vem, vai ser bem mais difícil aparecerem atualizações por aqui. Mas continuem visitando!  ;)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

ROCK N' ROLL! (PARTE 1)



MAIS TARDE, ALEXIA vai entrando no quarto e escuta uma discussão vinda do quarto ao lado. É Jakson, exibindo uma imensa tatuagem dos touros do Red Bull no peitoral e uma cruz de Malta em cada bíceps, aloprando com o irmão. Ele possui um contrabaixo azul todo coberto com adesivos, ao passo que o irmão caçula tem algo que, num passado distante, foi uma guitarra Jennifer modelo Magnus, uma marca de péssima reputação, que nem mesmo músicos amadores têm coragem de comprar. Pode-se dizer que ela costumava ser preta, mas de tão desgastada e corroída, parece que passou a última década nos intestinos de um dragão. As cordas estão todas enferrujadas e seu braço empenado tem um remendo no meio.

- Tu me deixa doido, sua anta! Não dá pra entender como teu cérebro funciona!- Ele pragueja, andando em círculos pelo quarto e apontando o dedo para o irmão mais novo, com raiva- Quando tu voltou lá pra casa, em um ano te ensinei tudo que sabia de teoria musical. No ano seguinte, tu fez aquele recital solo da Sonata ao Luar de Beethoven, lembra? Então... Então me explica por que eu não consigo te ensinar a tocar três acordes na guitarra, caralho? Me explica!
- Violino e violoncelo não é a mesma coisa que guitarra, né?
- Mas é muito mais fácil, pô! É só me acompanhar sem errar! Vá lá, doido... Mais uma vez, e se tu sair do compasso de novo, vai tomar tanta piaba que vai parecer que tua nuca tem um tumor, tá ligado?
- Vai, vai, vai...
- Então te cuida, hem? Vamo nessa... Six Pack, do Black Flag, 5, 4, 3, 2...

Jakson aperta o play no aparelho de som e logo dá início à lancinante introdução de contrabaixo da música Six Pack, da banda punk californiana, acompanhando com perfeição a velocidade sobrehumana de Chuck Dukowski.

- Começa, Manolo! Começa!

O irmão entra lentamente em ação, abafando as cordas em que palheta passa, acompanhando os pequenos arranjos de Greg Ginn. Logo ele começa a martelar os mesmos acordes do irmão mais velho, acompanhando-o quase perfeitamente, ainda que o som extraído de sua “guitarra” mais lembre os trinados e rangidos de um bando de morcegos. Mas ao sair da introdução e entrar de verdade na música ele se atrapalha todo. Jakson, irritado, solta o baixo do cabo e dá com ele nas costas do irmão, que voa em estado de semiconsciência até a porta do apartamento como um aviãozinho de papel.

- Desisto! Tu não tem salvação na guitarra! Vai procurar tua turma e me deixa em paz!

Alexia assistia a tudo pela fechadura, quando, de repente, a porta se abre e ela cai de cara no carpete imundo. Jakson e Manolo tomam um tremendo susto.

- Ruiva? Tá tudo bem?
- Hihihihi... Âhn... Posso entrar?
- Ah, sim, sim. Peraí, deixa eu te levantar...

Ele se atrapalha todo com os cabos no chão e abre a porta.

- Dizaí, princesa! Qualé a boa?
- Nada, nada. Só tava passando e ouvi ocêis tocando. Toca bem, hem?
- Não dá pra dizer o mesmo do lagartixa ali no chão...
- É, também vi a cacetada que ocê deu no seu irmão... Será que ele tá bem?
- Não... Consigo... Respiraaaaaaa...- Manolo tenta sussurrar debruçado nas sobras do tapete pré-histórico do quarto.
- Ah, ele vai viver...
- Ocê tinha falado que era do metal, né?
- Só é. Curto muito Rob Trujillo, Cliff Burton, Steve Harris, Tim Commenford, Alex Camargo, Dick Siebert, Tom Araya, Les Claypool, e é claro...

Aponta pra um pôster do Flea, dos Red Hot Chili Peppers, na parede.

- Sei... Ser baixista e não ser fã do Flea é como...
- Curtir grunge e nunca ter ouvido falar em Kurt Cobain?
- Por Kurt! Como ocê adivinhou que eu tinha pensado em dizer isso?
- Sou perito em ler os pensamentos das mulheres através do olhar... Por falar nisso, que olhos, gata!-A segura pelo queixo, quase sussurrando- Se eles fossem o oceano, faria questão de morrer afogado neles.

Os lábios dela ficam trêmulos de desejo por ele, mas ela tenta se conter e se afasta dele.

- Âhn... De que marca é esse baixo?
- Jackson.
- Nem me pergunto por que ocê escolheu logo essa marca...
- Só dois seres podem ficar com o corpo colado ao meu. Eu mesmo...- Dá um grude na moça- E as mulheres!
- Ih, tá muito malandrinho ocê, hem? Dá um tempo!

Foge dele de novo, deixando-o meio sem graça. Ela repara num nome pichado na madeira do baixo com spray verde fluorescente.

- “Carmem”? Nome de sua namorada?
- Não, do baixo mesmo. Eu não abraço homem nenhum, nem objetos no masculino. Então, o nome dele ficou Carmem Jackson.
- Sei... Continua tocando! Me deixa ouvir o que ocê consegue fazer!
- Então tá... Sente essa.

Ele toca o movimento final da Tocata e Fuga de Bach, e ela arregala os olhos de admiração.

- E aí? Mandei bem?
- Óia, eu não acredito em blasfêmia, mas JESUS CRISTO! Palmas procê!
- Curtiu mesmo? Sente só agora!

Ele toca o mesmo arranjo ao contrário, sem perder o ritmo, e para coroar o exibicionismo, ainda joga o baixo pro alto e o equilibra na ponta dos dedos.

- Menino!- Uma boquiaberta Alexia enfim consegue balbuciar alguma coisa- Tirando a macaquice, esse solo foi um arraso! Até agora, eu era a única que eu conheço que sabe solar ao contrário, sô!
-Valeu... E aí? Quer dar um rolé no acostamento?