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terça-feira, 12 de março de 2013

QUANDO O GALO CANTA (PARTE 2)


NO QUARTO DO HOTEL, Alexia passa um pito na prima...

- Por Kurt, Barbie! Dá pra apagar esses incensos pelo menos enquanto a gente conversa? Parece palha pegando fogo!
- Tá, peraí... Voltou estressadinha da capital, hem?
- Ocê prometeu que não ia sacanear sua irmãzinha no aniversário dela! Aí vem entrando na lanchonete carregando ela como se fosse um garrafão de água mineral? Quando vi, achei que tia Flor fosse te esganar na minha frente!
- Eu tento, prima.- Bárbara suspira- Ocê sabe que eu tento. Passei a noite inteira meditando, respirando fumaça de incenso, tentando aprender a me controlar pra quando as duas chegassem. Mas só de olhar pra cara de Clarissa, meu sangue ferve!

Ela se senta na cama para chorar. Alexia vai até ela.

- Eu nunca vou aceitar aquela pirralha como minha irmã. Nunca!
- Por favor, Barbie. É só hoje. Amanhã ela volta pra capital e ocê pode ficar livre dela por mais um ano, OK?
- Hmpf... Tá bom...- Ela faz bico.
- Agora, vamo descer e tomar café, que eu mal comi ontem na capital.

Clarissa ainda dorme numa cadeira da lanchonete. Tia Flor lhe cochicha ao pé do ouvido pra tentar despertá-la.

- Clarissa? Clariiiiiiissaaaaa?
- Mãe nunca me acordou cantando meu nome...- Bárbara, enciumada, cochicha no ouvido da prima.
- Fica quieta, Barbie!

O sono pesado de Clarissa impressiona todo mundo.

- Cláááááááá... Acorda, filha.
- Ssssó maissss 10 minutossss, treinadora...- A menina balbucia enquanto dorme.
- Deixa eu usar nela o spray de buzina, vai, mãe? Deixa?
- Bom, quando todo o resto falha...

Alexia apanha um cornetão, tia Flor um apito, Bárbara mal consegue se conter com o spray de buzina na mão. Ela acorda num salto com a barulheira que sua família faz.

- AAAAAAAAAI!! Que é isso, gente? Não sabe respeitar o sono dos outros?
- Parabéns pra você... Nesta data querida... Muitas felicidades... Muitos anos de vida...

Clarissa se emociona.

- Meus parabéns, minha filha!
- Muitas felicidades, prima!

- Sobreviveu a mais um ano, hem, pirralha?- A irmã mais velha segura friamente a mão dela, lhe dando 50 reais de presente e dando uma piscadela. A menina sorri. Uli conta os segundos no relógio do celular. A voz de Tião Chorume explode no rádio da lanchonete.

- E esse foi o som de The Trashmen, encerrando o bloco Dentadura Rachada, 6 horas sem parar de músicas do tempo que vovó trepava! Eu sou Tião Chorume, o pior locutor do mundo!
- Dá pra desligar esse sujeito, Barbie?- Pede Alexia- Ainda tô meio zonza de tanto dirigir...

Uli entra na lanchonete e dá um pisão no chão.

- ESPERA, BARBIE!
- Que é isso, vagabundo? Quem te convidou pra festa?

Eis que Chorume volta a falar.

- Antes de eu desligar tudo pelas próximas quatro horas... Cacete, tô até com vergonha... Meu projeto de chefe me acordou às sete da matina e mandou procurar uma música urubuzenta na internet pra comemorar o aniversário de uma amiga dele, pode? Falou que se eu não encontrasse a música, ele ia matar minha mãe! Então, recado dado, muitas felicidades, ââââhn... Começa com C... Cláááááá... Clóóóóó... Ih, cacete! Clúúúúú... Quem quer que seja. Me despeço da cidade ao som de In the cold cold night, dos White Stripes. Força aí, galera!

Clarissa fica surpresa, chega a lacrimejar. As mulheres ficam sem o que dizer.

- Nem acredito, gente. Meu nome quase anunciado no rádio no dia do meu níver, emendado com minha música favorita... Muito obrigada a todo mundo!
- Pôxa, fiquei impressionada, Uli!- Comenta a ruiva, enquanto abraça o amigo caribenho- Como conseguiu lembrar que essa era a música favorita de Clarissa?
- Ocê me contou ano passado, lembra? Escrevi na memória do celular.
- É, vagabundo, ocê não vale nada, mas até que tem coração.
Clarissa abraça Uli num salto e um beijinho na bochecha.

- Sabe que nem eu nem ninguém dos Mouras ou dos Bernardes, a gente nunca foi com sua cara, né,Ulysses? – Diz tia Flor- Mas muito obrigada por ter deixado minha filha tão feliz.

Lhe dá um aperto de mão, fazendo cara de nojo.

- Rastafaris sempre alerta, Dona Florisneyde.

Ela fica surpresa ao ouvir seu nome completo. As meninas tentam segurar a gargalhada, mas não conseguem. Flor cobre o rosto de vergonha.

- Caramba! Há quantos anos eu não ouvia seu nome verdadeiro, hem, mãe?- Brinca Bárbara.
- E eu que nem conhecia.- Afirma a irmã mais nova.
- Só Ulysses mesmo pra se lembrar dessas coisas...- Comenta Alexia.

Do andar de cima do bar do Escocês, ouvem- se estranhos, porém familiares ruídos saindo pela janela. É quase como se estivesse caindo um temporal dentro do alojamento, com sons de água caindo e trovoadas. Tudo o que se vê são dedos enormes e alvos passeando por sinos tubulares, a sombra de uma baqueta dançando sobre pratos de percussão e pesados coturnos militares pisoteando pedais, acompanhando uma suave melodia de piano de Rachmaninoff. De repente, o bumbo é atacado com violência, e é iniciado um solo supersônico de bateria, que mais parece uma escola de samba inteira atravessando as paredes. Os bêbados que dormiam debruçados sobre o balcão do bar saem correndo com o tremendo susto que levaram, e o marrento barman corre atrás deles, para cobrar as contas. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Seu Edy, vice- prefeito da cidade, e Dona Abelzinha recebem o prefeito em seu heliporto particular.

- Bem- vindo de volta, patrão. Seu café e suas pílulas.
- Obrigado, Abelzinha.

Toma ambos de um trago só.
- Toda aquela questão delicada já foi resolvida também. Eles sumiram com os corpos e foram subornar a polícia do estado pra não virem incomodar a gente.
- Ótimo, ótimo...
- Trouxe a reportagem?- Pergunta o vice-prefeito.
- Claro. Tá aqui na maleta, editada e pronta pra ser exibida. Modéstia à parte, foi meu melhor trabalho jornalístico até hoje! Mas, a respeito da fábrica de compota... Eles disseram mesmo tudo aquilo?
- Sim, Chico. O Sr. Colombo, dono da Doce Vita, pretende transformar sua compota de cajá-manga em produto nacional, talvez até de exportação.
- Pediram para confirmar um encontro com o senhor ainda hoje, patrãozinho.
- Maravilha. Uma notícia e tanto! Depois do surgimento do Assassino da Caixa de Pizza, a melhor notícia que eu tive no ano!
- A gente podia pagar as indenizações, conseguir um asfalto de verdade, reformar a cidade toda... Já pensou nos lucros se o negócio for fechado, patrão? No progresso que vai chegar à cidade?

Ele tem um sorriso ligeiramente maníaco no rosto.

- Sim... Progresso...

No gabinete, o prefeito se assegura de que não tem ninguém além dele na sala e aperta um botão na parede. O imenso quadro com as fotos de todos os prefeitos de São Modesto se move para baixo, ficando perpendicular à parede, revelando na parte de trás uma maquete do estado de Minas Gerais moldada em alto-relevo, com uma cerca enorme ao redor. São Modesto foi pintada de azul, com o prédio da nova prefeitura ao centro. Pode-se ler ao topo da maquete a frase “ESTADO UNIDO DO CHICÃO”, esculpida em gesso. O prefeito olha para o mapa, com um sorriso apaixonado.

- O estado ainda será meu... Do jeito como o senhor previu, vô Franz...

Ele olha para o quadro do avô dele, vestido como militar, sobre a mesa do gabinete.

Um comentário:

  1. Mas como fala esse pessoal! Você está bom nos diálogos, coisa difícil de fazer.

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