Total de visualizações de página

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

QUANDO O GALO CANTA (PARTE 1)

E aí, gente? Tudo em cima?

Antes de começar a aventura da semana, devo informar que, nas próximas duas semanas, o blog não será atualizado, isso porque, como alguns devem se lembrar, a bucólica São Modesto e seus habitantes desocupados foram apresentados ao mundo dia 4 de Março do ano passado. Logo, estou ocupado durante todo o mês preparando algo especial para meus pacientes e desocupados fãs... Sem mais delongas, lá vem a turminha sinistra!

Até dia 4, galera! Pode ser que tenha bolo :P





7:30 DA MATINA. Manolo “canta” e “dança” no banheiro ao som dos Dead kennedys no último furo, imitando os esgares perversos de Jello Biafra, com a vassourinha de vaso fazendo vezes de microfone. Esganiça tão alto que todos os passarinhos saem voando assustados. Uli acorda coberto de orvalho no capô do Fleet com a ladainha de Manolo.

- Credo! Durma-se com um esturro desses!

Jakson treina com o skate no chão de terra batida. Uli o vê.

- Jah ajuda quem cedo madruga, hem, carioca? Acordar cedo desse jeito num sabadão, e ainda pra andar de skate?
- Acordar? Eu sou um insone convicto, Uli. Sempre que acordo no meio da noite vou correndo praticar.
- Cada doido com seu vício...

Bárbara termina de coar o café e colocar os quitutes no forno. Toca Since I’ve been loving you, do Led Zeppelin, no radio, música que ela acompanha o ritmo aos sussurros.  Assim que ela tenta enfiar a mão no pote da irresistível compota de cajá-manga pra lamber, avista a Parati verde entrando na estrada de chão.

- Elas tão chegando!
- Parece que um turista perdido vem aí.- Comenta Jakson. Ele repara em Alexia dirigindo, de olhos quase fechados, e sorri. - E o café da manhã tá servido!
- Melhor ocê e o maluquinho ficarem no quarto hoje de manhã, Jakson.
- Como assim?
- Reunião de família com Bárbara e a irmã caçula nunca termina bem. E por falar nisso...

Ele pega o celular no bolso e vai telefonar dentro do carro, agachado no banco de trás.

- Depois o doido sou eu...- Brinca o skatista.

Bárbara tira o avental e vai receber as visitas.

- Me ajuda a sair aqui, Barbie?
- Ué, foi ocê que veio dirigindo?
- A gente ainda ficou na capital até tarde, assistindo o time de Clarissa treinar. Tia Flor passou mal no caminho e me pediu pra dirigir. Fazia quase dois anos que eu não pegava num volante, tô morta...

Escora a prima sobre o ombro e a tira do carro.

- Bárbara.
- Oi, mãe.

Mãe e filha mal se olham nos olhos, e se beijam com frieza.

- Espera só até ver o que eu comprei na capital, prima!
- Não estourou nosso orçamento, né?
- Claro que não, né, unha de fome!
- Clarissa veio dormindo desde BH no meu colo.- Diz tia Flor- Acredita que ela tá dormindo desde as 7 da noite? Olha só pra ela no banco de trás!

Ela está embrulhada num cobertor minúsculo igual um filhotinho. Tia Flor suspira de orgulho. Bárbara tenta se segurar para não falar palavrão.

- Pode não ter nosso sangue, mas é minha cara!
- Se a senhora diz... Opa!

Alexia escorrega do ombro da prima e cai no chão.

- Isso é que são boas-vindas, hem? Falei que dirigi a noite toda, pôxa!
- Foi mal, Lex. Deixa eu te levantar.
- Não carece, não!
- Pode pegar sua irmã e trazer pra dentro do posto, filha? Quero acordar Clá de um jeito bem festivo!

A palavra ‘irmã’ faz Bárbara rilhar os dentes uns contra os outros. Alexia abre a mala do carro e pega suas sacolas.

- Controle-se, Barbie...
- Queria tanto que minha filha aceitasse a Clarissa como membro da família, Alexia...
- Ah, tia Flor, ocê sabe que ela sempre achou que a senhora só quis se vingar dela quando adotou Clá.
E, pra ser sincera, é exatamente isso que eu também acho, tia. Desculpa pela franqueza.
- Então, tá...

Ela faz cara de lamento. Manolo berra, pula e ‘bate-cabeça’ de cueca no quarto, enquanto ouve Respect, do Korzus, num volume capaz de superar os decibéis de uma turbina de jato. No andar de baixo, todo mundo se incomoda com aquela pauleira.

- Credo e cruz, Alexia! Agora ocêis têm um matadouro no andar de cima?

Alexia ri.

- Não, tia, são uns aventureiros meio doidos do Rio de Janeiro que hospedaram aqui.
- Ah, então o hotel voltou a ter outro morador além docêis duas?
- Só até os caras se mudarem pra cidade.
- Tomara que eu nunca os conheça...

Flor olha pra fora da lanchonete e vê Bárbara carregando Clarissa, ainda dormindo, dobrada sob o ombro direito como um porco de feira. Ao ver isso, tia Flor engasga com o café, possessa com o desleixo da filha.

- Bárbara Yracema  Moura Bernardes! Isso é jeito de tratar sua irmãzinha?!?
- Ué, não foi a senhora que falou que queria um despertar bem festivo? É assim que se festeja em São Modesto!

Alexia balança a cabeça, decepcionada.

- Barbie, a gente tem que subir pra conversar. Agora! E não larga ela no chão!
- Tá bom, tá bom...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

THIS MEANS WAR! (PARTE 2)




É TARDE DA NOITE. Toca I’m going home, do Ten Years After, no rádio da Parati verde-musgo de tia Flor, que começa a devorar o asfalto de volta à São Modesto. Numa emissora de TV em BH, o prefeito conversa com um jornalista na sala de edição.

- Tem certeza que quer levar essa reportagem ao ar, Sr. Rotscheider? Não sei, mas ela me parece... Desumana em excesso, até mesmo para padrões de programas policiais.
- Tá de sacanagem comigo, Sr. Altamiro? Por mais de um ano eu inventei reportagens sobre o Assassino da Caixa de Pizza sem nem saber se ele era real, e, de repente me aparece essa mulher sem uma gota de sangue dentro do corpo e uma caixa de pizza com a mão dela dentro é enviada para a delegacia da cidade? Não pode ser só coincidência!
- Mas tem certeza que quer levar uma coisa dessas ao ar sem o sol nem ter se posto ainda? Vai traumatizar as criancinhas do estado inteiro!

O prefeito limpa a testa com uma toalhinha de papel, enquanto acaricia sua medalhinha na mão esquerda.

- Sr. Altamiro. Não é nenhuma novidade que as coisas na minha cidade não vão nada bem. Primeiro eu destruí tudo com minha idéia tola de explodir o asfalto.
- Eu sei...
- E hoje de manhã me apareceram dois corpos de desavenças minhas afogados em meu canteiro de obras. Compreende minha situação? Eu PRECISO arranjar qualquer coisa, QUALQUER COISA que faça a cidade e o estado esquecerem, pelo menos por um tempo, dos meus tropeços! Essa notícia do assassino me serviu feito anel no dedo, Sr. Altamiro!
- Se o senhor diz...

O celular do prefeito toca, com “A cavalgada das Valquírias”, de Wagner, como ringtone.

- Com licença. Pois não, seu Edy da Marcenaria? Hum. Sério? Mas... Isso é sensacional! Voltarei à cidade assim que possível. Obrigado, seu Edy da Marcenaria.

Desliga o telefone, se senta numa cadeira da sala de edição e começa a esfregar a medalhinha nas palmas das mãos, conforme seu sorriso cresce. Sr. Altamiro vai até ele.

- Aconteceu algo, Sr. prefeito?
- Nada de mais, apenas as coisas voltando a funcionar do jeito que eu gosto.

Enquanto isso, em alguma ponte da capital, um vulto estaciona uma moto, solta dos braços as alças de uma mochila térmica, das que se usa para entregar comida, e a atira nas águas do esgoto e vai embora escondido nas sombras da rua sem iluminação. O impacto com a água infecta faz com que o zíper mal-fechado da mochila termine de abrir, e ao tombar para a esquerda, uma perna de mulher sem vida escapa para fora, cortando as águas com o calcanhar correnteza abaixo.