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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

THIS MEANS WAR! (PARTE 1)



MAIS CEDO NAQUELE MESMO DIA, o helicóptero particular do prefeito deixou o heliporto particular de sua mansão, ao passo que um enorme carro preto, quase tão grande quanto a limusine Ford Fusion do prefeito, chega o mais disfarçadamente possível pelos fundos da prefeitura. O vice-prefeito Seu Edy, Abelzinha e Sargento Tijolada recebem o matador desastrado de Don Giovanni Pasolini. Que chega com mais meia dúzia de jagunços.

- Perdão pela ausência do prefeito, senhores.- Anuncia a secretária de Chicão- Precisou tomar um vôo urgente.

Chama o matador de lado e cochicha em seu ouvido.

- E, perdão pela franqueza, ele não tá a fim de ver nem sua cara, nem a do seu patrão.
- Entendo.
- Ocê meteu o prefeito numa tremenda saia justa.
- A cidade toda tá comentando os corpos afogados no asfalto.- Comenta Tijolada.
- Qual é a situação?
- A Polícia do Estado tá pra chegar. Não se fala de outro assunto nas ruas.
- E o concorrente do programa do prefeito tá lá, fazendo uma matéria sobre o ocorrido.- Complementa o vice-prefeito.
- Então, tudo trabalha contra nós na situação. Vamos logo, pessoal. Temos só 15 minutos pra resolver essa situação!

Todo mundo entra num carro fúnebre preto. Na cena do crime, Eduardo Vassourada e sua equipe começam a gravar sua reportagem. Ele tenta pendurar o microfone na lapela da camisa florida e dá uns tapinhas nele pra testar.

- Dá pra ouvir minha voz, Bira?

O técnico de som dá sinal de positivo. A mocinha traz a claquete pra frente de Eduardo.

- Em três, dois, um...

Fecha a claquete, a câmera roda. Eduardo faz uma cara que mais lembra Hitler.

- Esta manhã, São Modesto foi palco da morte no asfalto mais estranha, para não dizer suspeita, da história da cidade, e quiçá de todo o estado...

Passam-se as horas...

Hospital de São Modesto. De repente, um zonzo e debilitado Eduardo Vassourada abre os olhos com o sol entrando pela janelinha do corredor e se encontra deitado numa maca.

- O que... Que foi que aconteceu? O que eu tô fazendo numa... AI!

A cabeça dele está enfaixada, cobrindo o olho direito, tem uma coleira ortopédica no pescoço e seu braço direito deslocado, preso numa tipoia. Um homem negro de cabelos curtos e bigode, usando roupa social, vai até a maca.

- Até que enfim acordou, hem, Vaz?
- Dr. Sandro Caveira? Que foi que aconteceu comigo?
- Tenho más notícias.
- Piores do que ter acordado aqui no hospital, todo arrebentado?
- Temo que sim, companheiro. Chicão foi mais rápido que a gente mais uma vez. Assim que o senhor começou a gravar a reportagem, um carrão preto apareceu por detrás da multidão. Saíram vários homens de terno preto, ameaçaram as pessoas, baixaram o sarrafo em toda nossa equipe e arrastaram os defuntos pra dentro do carro.
- Diante da câmera?
- Essa é a outra má notícia... Um deles tinha uma daquelas pistolas automáticas com um silenciador e triturou a câmera.
- Minha Santa Nastácia! Que confusão...
- E, pra piorar... Te caparam na frente de todo mundo. Seu pingolim tá ali dentro, num freezer...
- O QUÊÊÊÊÊÊ?
- Hehehehehe... Desculpa, Vaz. Passei a noite pensando nessa piada, não resisti...
- Sem- vergonha... Brincadeira tem hora, sabia?

Ele enterra a cabeça entre os ombros e acena negativamente com a cabeça, tentando se lembrar do que houve. A última coisa de que se lembra é de apontar o indicador para os corpos no chão, para que o cameraman os filmasse. Sorte dele não se lembrar dos três gângsteres que abriram caminho na multidão e se atiraram em cima dele, como num jogo de futebol americano, apagando-o instantaneamente. Os outros três sacaram suas Glocks semiautomáticas e as apontaram para a multidão.

- Nenhuma palavra. Nenhuma palavra de nenhum de vocês. Contem para qualquer pessoa o que viram aqui, contem pra polícia, e todos vão sumir também. Esses corpos no chão NÃO EXISTEM, entenderam? NÃO. EXISTEM. Nem tentem nos seguir.

Eduardo muda completamente o semblante, ficando com os olhos sedentos por sangue e arfando pelo nariz.

- Sabe o que isso quer dizer, não sabe, Dr. Sandro?
- O quê?
- Que, assim que eu tiver alta... Haverá guerra em São Modesto, AI! E o império de Chicão Rotscheider será o troféu!
- Fala sério, Vaz?
- Tão sério como sempre falei, meu caro.

Ele se levanta da maca e começa a se arrastar em círculos, enquanto matura sórdidas idéias em sua mente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

DECREPTUS



O FLEET ESTACIONA EM FRENTE A UM EDIFÍCIO VELHO de três andares, com cara de abandonado, repleto de tábuas pregadas nas janelas. Toca Bad boys, do Inner Circle, no rádio. Apenas Uli e Manolo estão no carro.

- Sinceramente, eu não sei porque ocê quer ir embora lá do posto. Bárbara reclama tanto de falta de dinheiro, de falta de freguês. Aquele quarto do hotel é até bonzinho procêis dois...
- Sabe o que é ser acordado com o som de Pink Floyd e Yes às 6:30 da matina pra um punk? Prefiro entrar num latão e deixar uns guris baterem nele com porretes o dia inteiro!
- Exagerado... Olha só. Aqui é o bom e velho Edifício Decreptus... Esse prédio aí foi abandonado quando eu cheguei à cidade. Se seu plano for viver clandestinamente, sem pagar nenhum imposto, aqui é sua nova casa, moleque... E o melhor de tudo, é o único prédio da cidade que não leva o sobrenome do prefeito, hehe.

Ele apanha um pé-de-cabra na mala do carro e arranca fora o cadeado do portão de grade, sendo pego de surpresa por um quase literal tsunami de ratos, baratas e morcegos, saindo apavorados de dentro do prédio.

- Socooooooorrooooooo...!
- Gente, isso sim que é comitê de boas vindas!!- Brinca Manolo- Quase tanto rato e barata como lá em casa...

Eles continuam explorando o ambiente com lanternas. As paredes internas do prédio estão com a tinta azul descascada, embolorada e gasta. Há garrafas de bebida, sangue seco e pontas de cigarro por todos os lados. Sai um rato de dentro do bolso do paletó vinho de Uli. Depois ele ira o gorro da cabeça, e tem dois ratos agarrados nos dreads dele.

- Eu não dou bola pra limpeza, mas bem que um desinfetante e umas escovadas não fariam mal a esse puteiro!- Comenta Manolo, tampando o nariz com a manga de sua inseparável jaqueta rasgada.
- Na verdade, maluquinho, tem uma história a respeito desse prédio.
- Hum.
- Reza a lenda que ninguém conseguia morar no apartamento 202 por uma semana completa, porque quando chegava o domingo, os moradores simplesmente deixavam de existir.
- Como assim?
- Vai saber... É como se o apartamento engolisse eles, sem deixar nada pra trás, senão roupas e móveis.
- Animal, cara. Animal...
- O prefeito resolveu interditar a parada quando assumiu o cargo, para que ninguém mais tentasse viver aqui.

Eles chegam ao famigerado apartamento 202. Uli aponta o pé-de-cabra pra maçaneta.

- Quer arriscar?

Mad atravessa a antiga e mofada porta com o calcanhar, como se fosse de isopor.

- Tranqüilo, jamaicano..Se nem os 36 quartos do hospício conseguiram acabar comigo, quem dirá um apartamentozinho mal-assombrado?

Todos os móveis do último morador continuam em seus lugares originais, inclusive o porta-retratos do casal com os três filhos sobre a mesinha de centro. Nem mesmo a tinta das paredes desbotou. Manolo adentra o apartamento.

- ...Hospício?- Uli fica pensativo.- Olha, melhor tomar cuidado onde ocê pisa, Vai saber a quanto tempo ninguém anda...

Distraído, o garoto rebelde acaba pisando em falso no tapete da sala e atravessa o assoalho podre como numa cena de desenho animado, indo parar no hall de entrada do prédio.

- Nesse lugar...- Uli acende o cachimbo- E aí, maluquinho? Morreu?
- Aaaaaai... Nada não, Ulysses. Aterrissei de cabeça!

Mais tarde, no posto, Mad, Jakson e Ulysses enfim consertam o rombo que abriram no teto da oficina, com ajuda de Josué.

- Não dá pra acreditar que a índia quer mesmo remendar essa laje velha...- Reclama Manolo- Se liga só, mano! Esse negócio tá tão ruim que dá pra atravessar o forro com um lápis!
- Óia, então é melhor ocê sair daí de cima, Manolo.- Alerta Ulysses.- Lembra o que aconteceu lá no Decreptus, lembra não?
- Ah, aquilo foi bobagem, véio! Acha que eu fico caindo em tudo que é buraaaaaaaaaaa... !

O desastrado atravessa um piso pela segunda vez na mesma tarde.Os três vão olhar pelo buraco o que houve com ele.

- Aaaaaaai, merda...
- Caiu de cabeça de novo, maluquinho?
 - Bom trabalho, lepra de óculos! Agora a gente tem que tapar dois rombos na laje!- Jakson joga a ponta do cigarro que fumava nas costas do irmão.

Enquanto isso, Bárbara dança e canta na lanchonete ao som de Aquarius no rádio, estranhamente à vontade e alheia a tudo. Uli se impressiona.

- Vou te dizer uma coisa, Barbie. Não conheço o tal Xamã, mas ele faz verdadeiros milagres!  Sua testa nem tá mais franzida de raiva!
- É, são os incensos que ele faz. Nem quero saber qual é o ingrediente, mas dá até pra sentir a raiva fugindo pela pele.
- Tenho cá minhas teorias...
- Escuta, ocê não devia tá lá em cima, colocando os tijolos com os cariocas?
- Dever eu devia mesmo, mas sabe como é, né? Ficar todo suado contraria os ensinamentos de Jah.
- Tô sabendo... Vem logo!

Ela lhe puxa para fora da lanchonete pela orelha e sobe a escada ao lado da oficina.

- Ai! Ai! Essa é a Bárbara que eu conheço e adoro!

Logo anoitece. Uli, Manolo e Jakson estão ao balcão, comendo e vendo TV. Bárbara se apressa para atender o orelhão do posto de gasolina, que já estava em sua 6ª badalada.

- Abaixa a porcaria do volume aí, Ulysses!- Berra Bárbara lá de fora, tirando o fone do gancho.- Isso... Posto Mato Seco, pois não? Oi, Lex! Como tá aí em BH? Legal. Amanhã de manhã? Quer que eu faço um café da manhã procêis? Ok então, prima. Tô no aguardo! Beijo.

Põe o telefone no gancho, levando a mão à testa para lamentar.

- Ah, meu saco... Mãe e Alexia vêm chegando pela manhã com Clarissa...
- Quem?- Pergunta Manolo.
- Clarissa, irmã mais nova de Bárbara.
- Aquela intrusa NÃO É MINHA IRMÃ!!- Bárbara soca a mesa- Foi muita audácia da mamãe... Como eu não conseguia ser a filha dos sonhos dela, resolveu adotar um nenê na cara dura, só pra me provocar!
Ela apanha um pequeno arranjo de flores de plástico numa mesa e o esmaga de raiva. Jakson tenta conter a raiva dela, mesmo estando a ponto de urinar nas calças de medo.

- Fica tranquila, Bárbara! Não pode ser tão ruim assim!
- É mesmo.- Intervém Manolo- Até ano passado, Jakson ainda me chamava de adotado!
- Voltem pro Rio, ocêis dois! Ai, meus nervos... Preciso... Preciso duma tela azul da morte cerebral...

Tira uma dúzia de incensos “mágicos” do bolso, coloca dentro do vasinho de flores e acende, colocando o nariz bem em cima da fumaça e respirando fundo. A testa dela perde o franzido quase instantaneamente e ela entra em transe.

- Eu, hem? Tão gostosinha e tão doida...
-Ainda bem que ela apagou, Jakson, senão ocê ia ver o lixo em que ela ia te transformar depois dessa...- Brinca Uli- E, já que ela viajou pra Malucolândia...

O caribenho aproveita para esvaziar o caixa da lanchonete e deixar um bilhete de EU TE DEVO no lugar.
Mais tarde, no quarto do hotel, Manolo e Jakson discutem. Toca I don’t wanna hear it, do Minor Threat, no som deles.

- Como assim, sair daqui, mano? Um teto, comida, a bunda da Bárbara, os peitos da Alexia... Quer ir embora por quê, doido?
- Acordar todo dia ouvindo rock progressivo é pior que acordar ouvindo mamãe implicando com a gente, Jakson! Mais uma do Rick Wakeman e eu me jogo da janela!
- E eu até abro pra tu pular!
- Jaaaaaaakson... Ah, já caiu a ficha, malandrão... Tu quer é ficar aqui pra pegar aquela ruivinha linda, né? Vi vocês dois ontem lá embaixo no maior papo. Quase que tua língua caiu no decote dela.

Põe a língua pra fora pra zoar.

- E quê que tu tem a ver com isso, cabeção?

Dá um tapa na nuca do irmão, que morde a língua.

- AI! Caralho!
- E, depois, sair daqui e ir viver onde? Se nem carro a gente tem mais.
- Se liga, véio. Eu e o jamaicano fomo ver um prédio abandonado na cidade, que dizem que é assombrado. Pelo sim, pelo não, até que o ambiente era agradável... Pros meus padrões.
- Com alguns consertos, a gente podia se esconder lá e viver sem pagar nada. Quê que tu acha, mano? Uma casa diferente toda noite, uma cama diferente pra cada mina que a gente pegar...
- Sinceramente, eu não sei. Vamo puxar uma palha, e amanhã eu te digo.

Se deita na cama de panos listrados encardidos, virando as costas pra Manolo.

- Amanhã, uma conversa! Tu vai responder é agora!

Põe uma música de Agnaldo Timóteo no máximo, colando o aparelho de som nos ouvidos do irmão.

- AAAAAAAAAH! CHEGA! CHEGA! CHEGA!
- Então responde, Mr. Galã! Responde! Responde! Responde!!

Começa a pular em cima de Jakson como um sapo alegre. No andar de baixo, Bárbara e Uli escutam a briga dos dois.

- Ooooooh, Jah...
- Será que São Modesto tá pronta pra receber esses dois?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A PEQUENA ATLETA (PARTE 2)


NUMA COBERTURA EM PLENA AVENIDA PAULISTA, Don Giovanni passa um esporro em seus quase 20 jagunços.

- STRONZI! STRONZI! Que diabos foram facere em San Modesto enquanto io estava na casa de mámma, em Parma? Estragaram Tutti, idiotas! Quiero saber che de voi teve la maledetta idéia de afogar los cadáveres nas obras de prefecto Don Franchesco! La reputazione dele, que djá no era gran cosa, agora foi arruinatta!

Ele apanha uma colherinha de café na mesa e se aproxima de um deles.

- Mia pacienzia acabou! Se no mi parlarem che autoridzou este dedzastre, io mato a todos com esta colhere qui! Quiene foi? QUIENE?

Eles permanecem imóveis. Giovanni simplesmente pega a colher e atravessa o peito de um dos capangas com ela, que cai duro no chão. Os matadores ficam apavorados, e o italiano apanha outra colherinha ainda menor na mesa e olha para sua tropa parecendo um tigre.

- Quiene foi?
- Fui eu, Don Pasolini! EU!- Um dos gãngsteres se ajoelha no chão, se benzendo diante do chefe.
-Tu... Posso sabere per che?
- Bom... As obras do Chicão são famosas por nunca começarem, então achei que ninguém nunca encontraria os corpos ali...

Giovanni o nocauteia com um soco no queixo, e saca uma pistola.

- Um avidzo, uomo... Si vai à San Modesto imediatamente, contzertare la merda que há fatto, lo más discretamente possibile, e quando voltar...- Aponta a arma para a testa dele- Capisce? Sai de qui djá! Farabuto!

Dá um tiro pro alto, e todos saem correndo.

Alexia, Clarissa e tia Flor estão na praça de alimentação do shopping. Compram uns hambúrgueres.

- Que é isso, minha filha? Com tanta comida boa por aí, e pega logo um sanduíche natural?
- Não posso fazer nada, mãe. Eu como o mesmo que ocêis duas, e se a treinadora descobre que eu furei a dieta, eu tô perdida!
- Mas como é que ela saberia?
- Ela sabe... Consegue te pesar com os olhos!
- Sei... E ocê, Alexia?
-... Âhn?
- Tô te achando muito ‘não-Alexia’ hoje. Quase não falou durante a viagem, tocou aquela guitarra como se tivesse em casa, e logo ocê, que comeu parecendo um retirante naquele dia lá em casa, nem abriu ainda seu lanche. Qual seu problema?
- Nem sei dizer, tia...

Ela volta a olhar pra cima e se lembra da conversa do dia anterior com Jakson. Logo, Alexia e Clarissa vão retocar a maquiagem no banheiro.

- Porcaria de batom barato, parece um giz!
- Ocê tá muito esquisita hoje, Alexia.- Diz Clarissa- A gente deu duas voltas no shopping todo, olhou centenas de vitrines e lojas de roupas e não comprou quase nada.
- Barbie pega muito no meu pé quando eu brinco de rica. Início de ano, caixa baixo...
- E, na escada rolante, aquele lá te deu um tapinha na bunda, falou sacanagem no seu ouvido e ocê nem puxou papo com ele. Logo ocê, que todo mundo diz que é a assanhada da família...
- Clá! Tem gente ouvindo!
- Foi mal.
- Sabe que nem eu sei explicar, qual é meu problema, priminha? Tô assim, aérea, desde ontem de manhã... Mas e então? Como é o treinamento de ginasta?
- É dose!- A menina suspira de exaustão- Todo dia, a treinadora puxa a gente pra fora da cama pelo dedão do pé às 5:30 da manhã pra tomar nossa dieta de shakes de proteína, mingau, fruta batida no liquidificador, iogurte de soja, um monte de complexos vitamínicos...
- Só líquidos?
- Só líquidos, nove porções todo dia. Fazemos uma hora de ioga ainda caindo de sono, corremos ao redor da Pampulha até a gente se afogar no próprio suor, emendando com duas horas de musculação... E tudo isso antes do treino de verdade começar!

Alexia até engasga de espanto. Elas saem do banheiro.

- Que fôlego, hem? E parece que tem valido à pena. Ocê pode até não ter o sangue das Mouras, mas tá virando um mulherão e tanto!
- Que é isso, Lex... Mulherão de 1 metro e 53?
- Mas, e com tudo isso, sobra tempo pra estudar?
- Mais ou menos... Tenho escondido o boletim desde o começo do ano. Não contei pra mamãe ainda, mas minhas notas tão de chorar. Só 25 pontos em geografia, 28 em história e 22 em ciências. Só consigo me dar bem em português e matemática. A treinadora esfola a gente viva o dia quase todo. Mal dá pra ver a cor da lousa!
- Mas em compensação, ocê brilha em educação física, né?

Um malandro passa correndo pelas duas e toma a bolsinha de Clarissa.

- Epa! MINHA BOLSA! VOLTA AQUI!
- Vem cá, Clarissa!

Ela nem dá ouvidos. Sai correndo feito uma maratonista atrás do bandido, com todo mundo olhando. Quanto mais ele corre, mais perto dele ela fica.

- De que essa menina é feita, pelo amor de deus?

Ela consegue alcançá-lo três vezes, antes de ele desmaiar de cansaço. Ela dá um salto em parafuso, caindo nas costas do meliante. Todos ficam espantados com a habilidade de Clarissa.

- Vai roubar da mãe!

Uma chuva de aplausos toma o shopping de assalto. Ela olha ao seu redor, sem entender nada. Alexia e Flor enfim a alcançam.

- O que aconteceu? Por que tá todo mundo me olhando assim?
- Filhinha... Acabou de deixar sua mãe derretida de orgulho de novo!
- ...Eu?
- Como eu disse, Clá... Pode até não ter nosso sangue, mas pode apostar que ‘cê é uma Moura!- Dá um tapinha nas costas da prima- Ai! Parece até pedra!

Todos riem.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A PEQUENA ATLETA (PARTE 1)


BELO HORIZONTE. COLÉGIO INTERNO JOHN CALVIN. No vestiário do ginásio, cinco garotas vestem suas malhas de ginástica e arrumam os cabelos. Uma negra, loura alta de cabelos cacheados, duas gêmeas orientais e uma morena baixinha e acanhada, de corte Joãozinho. Dentro do vestiário há alto-falantes espalhados por toda parte, repetindo com uma voz feminina monocórdia “Vocês são únicas, vocês são as melhores, vocês são extraordinárias, vocês são vencedoras”. Elas olham umas para as outras, com ar enfadado. Entram no ginásio de mãos dadas e são ovacionadas pela torcida. Todas levantam os braços e agradecem com sincronia total, e sentando-se em cadeiras no centro do ginásio. Um mulherão de uniforme, com físico de estivador e cabelos curtos pretos amarrados num pequeno coque, apanha o microfone.

- Boa tarde para todos vocês! Meu nome é Falésia Trucão, e sou a responsável pelo treinamento de nossas ginastas. É com imenso prazer que anuncio agora as atletas que irão integrar a delegação mineira de ginástica artística no campeonato nacional! De Belo Horizonte, Brígida Costa e Silva!

A loira se levanta e agradece aos aplausos.

- De Montes Claros, Aldênia Cândido!

A mulatinha se levanta e agradece os aplausos.

- De Juiz de Fora, Rita e Eliana Ozunu!

As gêmeas se levantam e se abraçam.

- E por último, mas não menos importante... De São Modesto...

Toda a platéia fica se perguntando “De onde?”, sem entender nada.

- Clarissa Bernardes!

Ela fica na dela.

- Clarissa Bernardes... Clarissa Bernardes?

Continua na dela. Brígida a puxa pra fora do banco à força.

- Levanta logo, Clá! Já vi sua família daqui!
- Não, não, eu não...

Assim que ela se levanta, lá estão tia Flor e Alexia, no topo da arquibancada, fazendo mais barulho que todo o público junto. Todo mundo olha pras duas. Clarissa fica vermelha de vergonha.

- Tá vendo porque eu não queria levantar?
- Relaxa, Clá!- Aldênia a acalma- Faz parte da festa!

Mais tarde, Alexia, tia Flor e Clarissa entram no estacionamento de um shopping. Clarissa parece morta de cansaço. Apesar de também não estar em seus melhores dias, Alexia tenta levantar o moral da prima.

- Qualé, Clarissa? Por que essa cara? Amanhã ocê faz 13 anos, pôxa!
- Não acredito que a Bárbara furou comigo de novo...
- Sua irmã é sua irmã, né, filha? Eu sei que é um sonho seu que ela se acerte contigo, Clá. Mas...
- Já sei o que ‘cê vai dizer, mãe... Aconteceram uns probleminhas no posto, alguém morreu, a cidade foi inundada, têtêtê, têtêtê, têtêtê...
- Birra hoje não dá, né, filha? Nada vai me tirar o orgulho que ocê me deu hoje! E então? Vamos começar a comprar?

Elas saem correndo na frente de tia Flor. Logo, as três ficam vidradas com todas as vitrines majestosas e as últimas tendências da moda. Alexia entra numa loja de instrumentos musicais e aponta para uma estranha guitarra Danelectro Dano Pro lilás na vitrine. Clarissa e Flor a observam do lado de fora.

- Posso testar aquela ali?
- Claro, moça. Só um momento.

Ele pega a guitarra e a liga num cubo de distorção.

- Nananananá! Só eu escolho o volume do meu som!
- Xi. Lá vai ela de novo...- Resmunga tia Flor.

Ela começa a tocar a introdução de Nitro, de Dick Dale, de olhos fechados. Em cinco segundos, o shopping inteiro vai correndo pra vitrine da loja assistir o show acidental de Alexia. Ela permanece alheia a tudo.

- Por Kurt! A primeira Dan que eu toco que não tem som de guitarra pra principiante! Põe aí na quentinha, que mês que vem eu volto pra buscar essa, OK?

Dá a guitarra para o atendente embasbacado com a habilidade dela. Ela sai da loja e fica espantada com toda aquela gente assistindo ela tocar.

- Ih, foi mal, gente. Acabei me empolgando um tiquinho...

Todos acham graça da modéstia dela.