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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SONHANDO ACORDADA(PARTE 2)



M
ais tarde, na enorme quadra da mansão dos pais de Johann, vários cavaletes para partituras e cadeiras foram posicionados em círculo, para Alexia dar a aula improvisada. Ela termina de ajeitar o microfone e a caixa de som. A imagem dos longos cabelos loiros e da barba pontuda de Jakson não para de flutuar em sua mente, como se fosse um espírito desencarnado que havia baixado em seu cérebro. Ela olha para as árvores, lá está ele. Olha para o reflexo na piscina, ele de novo. Olha para os pássaros no jardim, adivinha quem está lá? Mesmo assim, ela tenta manter o pouco de profissionalismo que ainda lhe resta.

- Som? Som? Um, dois. Batatinha, 1, 2 ,3 , testando?

As palavras ecoam pelo lugar. Por um instante, ela se esquece que não está em casa e dispara um psicótico rugido digno de Iggy Pop.

- LLLLLLOOOOOORRRRRRD!! WHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOW!!

Os cachorros da família começam a latir como loucos, a garrafa d’água em cima da mesinha dela trinca, os passarinhos saem voando.

- Me amarrei na acústica dessa quadra...

Os serviçais da mansão ficam espantados. Alexia percebe a platéia desavisada e fica toda sem graça.

- Ehr... Desculpa aí, me empolguei um pouquinho... De vez em quando eu esqueço que não to em casa, ehr... Kurt, meu Kurt, que vergonha...

Os serviçais se entreolham e se perguntam se aquela maluca é mesmo professora de música.

Mais tarde, com todos os alunos já acomodados...

- Boa tarde, galerinha!
- Boa tarde, Professora Moura!
- Hoje, eu não vou tentar adivinhar qual de vocês está desafinado.
- Aaaaaaaaaahhhh...
- Em vez disso, eu vou começar a aula ensinando um macete muito bacana, que meu último namorado me ensinou.

A classe zune com ironia.

- Não é nada disso não, gente! Mente suja a de vocês, hem?

Todos riem. Ela pega um diapasão e um garfo na mesa.

- Eu sei que quase todos ocêis têm um diapasão em casa, tanto desse como daquele eletrônico. Mas o que fazer quando a gente tá num acampamento, por exemplo, e por um acaso esqueceu o diapasão em casa?
- Bom- Uma aluna responde- Eu te ligava pelo celular e perguntava se tá afinado, fessora!

Mais gargalhadas.

- É mole, gente? Bom tem um jeito mais fácil...

Todos atentos. Ela se aproxima do microfone, com o volume da caixa de som no talo.

- Ele me disse que qualquer objeto de prata tem uma afinação natural em Mi. Então, é tudo questão de chegar um garfo ou colher de prata o mais próximo possível do ouvido, e...

Dá um peteleco no garfo. A vibração, apesar de fraquinha, ecoa por toda a quadra. Todos ficam se entreolhando, espantados.  Ela apanha um molho de colheres dentro da capa do violão e as distribui pela classe.

- Quero ouvir todo mundo afinando os violões com a colher e abrindo o livro de partituras de onde a gente parou na última aula, compreendido?
- Sim, Professora!

Ela prossegue com a aula de maneira magistral, como de costume. Os serviçais da família de Johann ficam muito tocados pelo talento dela, que conduz sua classe como um Leopold Swokowsky com um violão no lugar da batuta. Não importa o que ela peça, seus alunos a acompanham à risca, sem um único erro, como se estivessem em transe. Ao fim da aula, uma hora mais tarde, ela espia de relance para as frestas das portas que dão para o quintal da mansão e percebe que a platéia de serviçais continua lá, impressionados com ela.

- Ganhei minha tarde...- Pensa a Profª. Moura, ao dar uma piscadela triunfante para eles- Bom, é só isso, turminha. Inté semana que vem! 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SONHANDO ACORDADA(PARTE 1)

Foi mal a demora, gente!



A
lexia, com a cabeça nas estrelas, dá uns retoques em sua nova música, tocando sentada no balcão da lanchonete, mas sem um pingo de concentração. A juba loira e o traseiro de Jakson não saem de sua mente. Bárbara volta pra casa, toda sorridente.

- Prima? VOLTEEEEEEI!
- Bárbara! Nossa, prima! Ocê voltou com uma cara tão boa!
- Não tem fossa que os incensos do Xamã e o chazinho de tia Ganesha não consigam curar.
- O que rolou lá? Absinto? Yoga? Meditação?
- E ‘algunas cositas más’. Vamo trocar de roupa, que eu te conto tudo lá em cima.

Na cidade, a música Herdeiro de uma pampa pobre, do Gaúcho da Fronteira, explode nos auto-falantes do Fleet, com os três loucos berrando a letra. Manolo e Jakson estão boquiabertos com a quantidade de dinheiro que Uli conseguiu pros dois.
- Caraaaaaaca, maluco... 100, 200, 300, 400, 500 CONTO?!- Diz Manolo, impressionado- Sorrisão, sou teu parceiro pro resto da vida!
- Eu também, véio!- Complementa Jakson- Garfou o velhote na moral! Dez vezes o preço que Manolo pagou pelo carro! Como tu conseguiu esse milagre?
- Sou caixeiro viajante faz 15 anos. Mentira e vigarice são meu negócio.
- E agora, o que a gente faz com esse calhau todo?

Manolo abre a boca, Jakson tampa na hora.

- Não dá idéia, lepra de óculos. Não dá idéia...
- Bom, a gente já um jeito na lata velha docêis, agora vamo dar um jeito é lá na emissora.

Os três entram no bar Pés Juntos.

- Dizaí, Ulysses! Tudo em cima?
- Fala, Escocês! Meus novos comparsas, Manolo e Jakson.
- Beleza, gente?
- Sussa!
- Vai fazer fiado em que hoje, Ulysses?
- Hum, por enquanto nada. A gente veio aqui pra sair pela porta dos fundos, se é que ocê me entende...
- Porta dos fundos?- Jakson estranha- Como assim?
- Calma, cariocas. O melhor da festa é esperar por ela. Dá aí a chave, Escocês?
- Tá na mão...

Ele passa para o caribenho uma chave enferrujada com a cabeça em forma de coroa e Uli pede para os dois o seguirem até a cozinha. Ele abre uma porta corta-fogo nos fundos do bar, revelando uma longa escadaria rumo ao subsolo.

- Então, galera. Seguindo reto, essa escada dá direto na porta dos fundos da Aterro FM. Mas não contem nada pra ninguém, tá ligado?

Os dois ficam boquiabertos.

- Co... Como assim, seu filha-da-mãe?- Manolo se irrita e agarra Uli pelo colarinho- Sempre teve essa passagem rápida e tu fez a gente pagar aquele micão respirando aquele vapor de esterco lá no esgoto? Eu tenho asma, seu pilantra!
- E ocêis acham que eu ia perder a chance de ver os playboyzinhos da cidade grande enfiando a cara no bueiro ?- Dá uma piscadela para os dois.
- Ah, seu...!

Os dois dão um empurrão em Ulysses, que despenca rolando escada abaixo.

-... Eu ainda to viiiiivooooooo!

Alexia experimenta uma jaqueta de couro justíssima na frente do espelho, ouvindo New York Dolls na vitrola. Dá uma bagunçada no cabelo, passa um batom bem vermelho na boca e muito delineador nos olhos. Bárbara sai do banheiro de uniforme.

- Uau! Sua velha jaquetinha de caveira! Ela ainda serve nocê?
- Oi, Bárbara. Tô pensando em causar lá na aula hoje. Que ocê acha de eu ir dar a aula na casa do Johann... Vestida de Johnny Thunders?
- Eu acho que a noitada ontem foi das brabas! Que foi que te aconteceu, menina?
- Ah, nem sei explicar direito, prima. Enquanto ocê tava de folga, um daqueles carinhas que vieram do Rio entrou aqui na lanchonete.
- Até imagino quem...
- Ele passou mó tempão de papo comigo, me passou mó mel e me lançou uma piscadela marota antes de ir embora. Não sei por que, mas, mas isso mexeu muito comigo, entende?
- Tá a fim de ir trabalhar vestida assim só porque aquele ali te deu bola? Fala sério, menina!
- Ah, nem sei! Só sei que eu tô com a florestinha em chamas! Mas e então? Como eu fiquei vestida assim?
- Olha, não vão nem te deixar cruzar a entrada da cidade com essa fantasia de travesti...
- Barbie!

Joga o batom nela.

- Pôxa, eu tava tão animada...
- Conselho de melhor amiga, Lex. Aquele galãzinho lá...
- Jakson...- Ela suspira de paixão.
- Não é flor que se cheire, não. Ouvi uma conversa dos dois com o vagabundo, o cara disse que tem mais de 100 rameiras lá no Rio que iam pra cama com ele!

Ela se espanta.

- 100?
- Foi o que o irmão dele disse, prima.
- Hum... 100 mulheres, hem?
- Leeeeex... O que se passa pela sua cabecinha?
- Âhn.. Nada. Por enquanto, nada...
- Tô sabendo. Olha, veste logo seu tailleurzinho de sempre, que do jeito que os mais velhos da cidade já não vão muito com a sua cara, é capaz até de mandarem o mordomo te tacar pedra vestida assim.