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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A REBOQUE



A
pesar de já não ter mais engarrafamento, o guincho vai arrastando os restos mortais da Pampa numa lerdeza irritante, com Uli, Manolo e Jakson vindo atrás dele no Fleet. Até caracóis e tartarugas na estrada conseguem ultrapassá-los.

- E tu nem pra dizer que o guincho da cidade era uma Rural, né, sorrisão?- Reclama Manolo, dando um tapa na nuca de Ulysses.
- AI! Cidade atrasada, né? O que ocê esperava, maluquinho?
- E então?- Pergunta Jakson- O que tu sugere da gente fazer com o Pampa?
- Sinceramente? Talvez desse mais lucro colocar fogo nessa joça.
- Foi o que eu disse pro leproso aí quando ele comprou.
- Comprou?- Uli se espanta- Achei que o maluquinho tinha achado essa coisa encostada na estrada...
- Tenta adivinhar quanto eu dei nele?
- Quando muito, uns cinco real...
- Quase, Jamaica. Cinquenta!

Uli engasga com o gole de seu rum destilado no motor do carro.

- Êpa, cuidado aí, Jamaica! Presta atenção na estrada!
- Isso tudo? M-m-m-mas de que jeito?!
- Comprei de 19ª mão de um traficante.- Explica Manolo.
- Oh, Jah...

Na oficina da cidade...

- Tem certeza que ocêis não preferem vender essa quizumba prum ferro-velho?- Sugere o caribenho- Se quiser, até ajudo a conseguir um troco invocado nela... Prometi pro Chorume que a emissora voltava a funcionar ainda hoje.
- Nem vem.- Retruca Manolo- Tô seco pra voltar logo pra estrada e ir embora do posto sem consertar nada praquela sargenta de cabelo trançado...

O mecânico pé-rapado, todo sujo de graxa e com a camisa desabotoada, revelando uma cicatriz de ponte de safena, faz a vistoria no que sobrou do Pampa.

- Óia, só tenho que perguntá uma coisica procêis dois... QUE FOI QUE DEU NA CABEÇA DOCÊIS PRA METÊ ESSE MONTE DE BOSTA NUMA ESTRADA DE CHÃO, CUMPÁDI?
- Tudo culpa desse zé graça aqui.- Jakson dá um tapa no irmão caçula.

- AI! Pára, Jakson! Mas olha, a coisa tá tão feia assim? Não tem jeito de montar tudo de volta no lugar e ver se pega?
- Desse jeito que tá? A bestage qui ocêis fizero istragô tudo as manguêra, u tanque di óio, u radiadô rachô no meio...
- É MESMO, RAPÁ!- Manolo dá um tapa na testa- Como a gente foi esquecer do rombo no radiador, véio?
- Pra sê muito honesto cocêis, se inventá de trocá tudo as peça, vai saí umas vinte veiz mais caro qui o próprio carro!
- Putz...- O  baixinho magricela se desespera- Reunião lá fora, galera!

Os três se reúnem do lado de fora da oficina.

- E agora? O que a gente faz?- Questiona Jakson- Nenhum de nós tem dinheiro que baste pra consertar a lata!
- Hum...- Uli acaricia a barbicha e reacende o cachimbo- A menos que...

Eles cochicham um plano. Se cumprimentam e Uli vai tratar com o mecânico.

- O barato é o seguinte. Esses dois malucos fugiram de casa lá do Rio de Janeiro e a mãe deles pode encontrar os dois a qualquer momento. Sente só nossa proposta. A gente penhora o Pampa pro senhor, e com o dinheiro eles vão viver aqui. Assim que eles tiverem como pegar o.. Âhn... Carro de volta, a gente volta e devolve a gaita pro senhor. Topa?
- Hummmmm... Parece inté razuávi... E em quanto ocêis tão pensando?
- Deixa a gente pensar aqui...

Na pousada, ao som de cítaras indianas e saltérios, Xamã acende 30 incensos ao redor de Bárbara, que medita enquanto os velhos hippies fazem uma dança ritualística ao redor dela com outros hóspedes, semelhante à dos extraterrestres do filme Avatar, guarnecidos por luzes psicodélicas. Mais tarde, os três passeiam pelo casarão. White Rabbit, do Jefferson Airplane, toca na antiga vitrola.

- A coisa tá feia por aqui, anjo...- Diz o dono da pousada, com a voz molenga e borbulhante de quem esteve sob influência de drogas por boa parte da vida- Ocê viu como tão as vaquinhas e a horta lá fora, não foi? Não dá mais pra viver de artesanato e terapias orientais como há vinte anos, aí. Desde os anos 70, todo dinheiro que eu conseguia guardava debaixo do nosso colchão. Mas ano passado o casarão pegou fogo e aí já viu.
- Com muito custo a gente conseguiu apagar antes que tudo desmoronasse.- Tia Ganesha intervém, trazendo uma chávena e copinhos de porcelana oriental numa bandeja.- A gente teve de viver de pão e chá por cinco meses enquanto reconstruía o casarão.
- Poxa, tia, e nem contaram nada pra gente?
- De que jeito, Bárbara? O fogo cortou a linha de telefone.
- Que tragédia, sô... Mas e o disco? Ele derreteu no incêndio?
- Disco?_ Xamã estranha- Que disco, aí?
- Ocê sabe, tio... ‘O’ disco.
- Aaaaah, o disco. Podiscrê, aí...

Eles entram no quarto do casal e ele puxa uma mala vermelha de plástico duro do fundo do closet. Ele a abre e dentro dela está um exemplar praticamente novo em LP do histórico Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta: Sessão das 10, de Raul Seixas, acomodado num travesseiro com uma estampa em tie-dye.

- A maior sorte da minha vida foi que o fogo não conseguiu achar a mala. Minha vida é esse disco, anjo...- Diz o velho hippie- Eu me atiraria a chacais famintos por ele, aí! Vale mais que o casarão inteiro.
- Eu sei, tio. O famoso disco confiscado de Raulzito...
- Acredito agora que só exista esse exemplar no mundo todo, aí.
- E então?- Ganesha intervém- Quem quer esquecer esse barato deprê, tomar um Santinho Daime e praticar um Kaminha Sutra, hem?
- Só se Tio Xamã puser o Raulzito pra tocar!


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

J & A?


A
lexia desce para a lanchonete, vestindo seu uniforme de frentista e carregando sua fiel guitarra Schecter verde-oliva. Jakson dá uma espiadinha na bunda dela com a porta entreaberta e dá sinal de positivo com a cabeça. Olha pro relógio, como se estivesse cronometrando os passos dela.

- Tá fazendo o que, Jakson?- Interompe o irmão caçula.
- Não é da tua conta, cabeção! Vai tomar banho!
- Mais um? Tomei ontem, tá lembrado? Sem querer, mas tomei.
- Ah, vai te catar, véi!

A ruiva apanha um matinho de capim-limão no matagal seco que adorna as laterais malcuidadas do prédio do hotel e o espeta entre os dentes. Ajeita os salgados pra assar e fritar e põe a água do café para ferver. No andar de cima, Jakson se prepara pra se aproximar dela pela primeira vez.

- Hoje a ruivinha entra no meu bolso!

Alexia anota uma letra de música no caderninho de notas enquanto aquece os quitutes, ensaiando algumas notas na guitarra enquanto anda pela cozinha. Jakson chega de fininho e encosta na porta da lanchonete para admirar a carne mais de 1ª que já havia visto em seus quase trinta anos.

- A música é sua?- Ele pergunta, dando um tremendo susto em Alexia, que quase derruba a água fervente e uma frigideira cheia de óleo no chão.
- AH! Pôxa, Ocê me assustou, cara!
- Ââââhn... Uhum... Foi mal, moça, eu não...

Aparentemente, a primeira impressão de Jakson estava mais que sepultada, mas assim que Alexia olha melhor para os olhos castanhos dele, sua juba loira e sua barbicha...

- Kurt Cobain...- Ela pensou- Mas esse carinha é... É o cuspe de meu Kurt!
- Quer ajuda, ruivinha?- Ele fala, tentando acordá-la de seu transe.
- Âhn?- Ela se levanta, meio envergonhada- Carece não, gato.
- Se tu diz...

Ela pega um café com leite e um pão de queijo pra ele, tentando controlar a paixonite.

- Por minha conta.
- Valeu, gata. Ainda não disse se aquela música era sua.
- Aquilo? Ah, né nada sério, não. Tive uma transa mais ou menos lá em Juiz hoje à noite e acordei com um caquinho na cabeça... Tá a fim de ouvir?
- Manda ver!
- Então tá... A coisa vai mais ou menos desse jeito...

Ela começa uma batida bem blueseira na guitarra e começa a sussurrar algo que só de muito longe lembra uma letra de música.

“Tento puxar um papo após a
Transa, mas o cara desmaiou
O sol do meio-dia me acorda
E o safado já me largou

Caminho pela estrada
Triste e desimpedida
O deserto me compreende
A solidão é minha amiga

Assim prossigo
Assim prossigo
Meu dado é viciado e meu
Destino quer acabar comigo”
Ele mal presta atenção à letra da música, pois os olhos dele não saem do discreto, porém convidativo, decote dela. Mas pelo bem do cavalheirismo ela começa a assobiar e bater palmas assim que ela acaba de tocar.

- Tem talento pra dar com pau, hem, ruiva?
- Gadinha... Ocê é aquele que ficou babando por mim no orelhão ontem, né não?
- Como? Reparou em mim?
- Claro, sô. Não faz idéia de quantos homens já me fizeram aquela mesma cara quando me viram pela primeira vez. Desde que eu era menina é a mesma coisa... Tem mulher bonita que acha que ser bonita é um saco, mas eu gosto de mim do jeito que sou.

Ele beija a palma da mão dela, deixando-a sacudida.

- Não os culpo. Até seu feto devia ser show de bola.
- Homens... Sempre com as mesmas cantadinhas fajutas...
- Por que mexer em time que sempre ganha?
- Meu nome é... Alexia.
- Ventania. Jakson Ventania. Jakson sem o ‘C’. Foi meu presente de 15 anos, omitir o ‘C’ no cartório. Ninguém pronuncia aquela letra mesmo...

Alexia ri e olha para ele com ternura.

- Aliás, que prima a tua, hem? A mão dela parece até um tijolo! Tem um cola-brinco de direita que é coisa de louco!
- É uma figura e tanto, a Barbie... Ela me falou da aventura que ocê e seu irmão caçula tiveram pra chegar aqui. Precisa ter muita coragem pra encarar uma estrada de chão naquela lata de goiabada, hem?
- Já dizia algum sábio, a linha que separa a coragem da estupidez é grossa como um fio de cabelo.

Eles riem.

- Gostei da sua camiseta. Krisiun... Ocê é metaleiro, pelo visto.
- Se sou! Adoro death metal, speed metal, thrash metal, doom metal, nu metal, power metal, HC, grindcore, ska-core...
- Também amo rock, mas sou mais da turma dos anos 60, 70 e do grunge, saca? Sou doida por Iggy Pop, Stooges, MC5, Music Machine, Sonics, Monks, Kinks, Slade, New York Dolls, Fuzztones, Soundgarden, Pumpkins, Pearl Jam, e é claro...

Ela mostra o enorme N de Nirvana tatuado no braço esquerdo.

- Só... Kurt Cobain, né?
- Meu Cristo, único e inimitável!
- A gente te ouviu tocando ontem de manhã. Tu é uma maestrina e tanto, hem?
- Valeu... Não é pra me gabar não, mas, além de minha prima, eu sou a melhor música que eu conheço. Dou aulas no conservatório da cidade.
- Sei...

Um sorri pro outro. Uli chega no Fleet, acompanhado de um reboque.

- Opa, a condução chegou. A gente vai levar nossa lata velha lá na oficina da cidade. Ou pro ferro velho, vai saber... Tchau, princesa do rock.
- Tchau, Jakson sem o C!- Ela volta para a pia e suspira- Tchau... Epa! Ah, não! Alexia, sua imbecil... Ficou lá, descascando o carinha com os olhos e deixou tudo queimar! Burra!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

PAZ E AMOR, BICHO!(PARTE 2)




O
 sol da manhã começa a invadir as janelas do posto Mato Seco. Os vaqueiros seguem tocando o gado pela estrada e tocando o berrante.

- Móóóóó! Móóóóó! Quem precisa de rádio-relógio aqui em São Modesto?- Comenta Alexia, bocejando com uma tremenda cara de sono e ainda com as roupas do dia anterior. Apanha um montinho de água mineral numa garrafinha perto do fim e esfrega no rosto diante do espelho, para tentar acordar e lavar a maquiagem borrada. Bárbara sai do banho, cabisbaixa e suspirando de desânimo.

- Ah, e aí, Lex? Chegou tarde da noite, hem?
- Sabe que nem me vi chegando, sô? Era que hora?
- Umas três da manhã, eu acordei lá na lanchonete e te achei apagada, largada no banco lá fora. - Bárbara conversa enquanto procura seu uniforme na cômoda antiga e devorada pelos cupins.
- Bom, pelo menos eles foram gentis e num tive que pedir carona na beira da estrada...
- “Eles”? A noite foi com quantos?
- Hum... Sabe que eu esqueci?
- Bom, pelo menos uma de nós duas se divertiu.

Bárbara senta-se à beira da cama, olhando para o boné verde nas mãos, tentando segurar as lágrimas.

- Qual é o problema, prima?- Pergunta Alexia- Já levantou com essa cara de quem matou a mãe por engano!
- O mesmo de sempre, Lex. O posto, o posto, o posto, o posto...  Ali, dormindo debruçada no balcão, tive aquele sonho de novo. O posto, a lanchonete, o hotel, tudo pegando fogo e desmoronando... E eu aqui fora, assistindo tudo em transe, com... Com o sorriso de satanás no rosto... Amando cada segundo, vibrando...

Alexia encosta no ombro da prima para reconfortá-la.

- Relaxa, Barbie... Sabe de uma coisa? Ocê andou passando raiva demais esses dias. Pode tirar o dia de folga hoje. Veste aquelas roupas de hippie, vai passar a manhã lá na pousada, meditando com tio Xamã e tia Ganesha, curtindo aquele som psicodélico... E talvez ‘algunas cositas más’, e volta pra trabalhar à tarde. Eu assumo a lanchonete até minha hora de trabalho.
- Faz isso por mim, prima?
- Claro, podexá! Mas vê se não exagera muito na ‘fadinha verde’ por lá. Além do que, ainda são oito da manhã...
- Valeu, prima!
As duas se abraçam.

- Agora, se me dá licença...- Vai correndo pro banheiro, carregando a guitarra e um bloquinho de papel- Apertada desde ontem. - Fecha a porta.

Bárbara põe na vitrola o disco A saucerful of secrets, do Pink Floyd e acende um incenso.

- Set the controls... Faixa 3.

Assim que o baixo de Roger Waters começa a moer as caixas de som, ela muda instantaneamente de humor e se arruma enquanto dança com a música cheia de ruídos agudos e dissonâncias. Veste um vestido florido bem folgado, colar indiano, óculos escuros, um velho alforje de couro desbotado, tamancos de madeira, faz uma trança gigante com seus longos cabelos negros e põe um chapéu cloche. No quarto ao lado, Manolo e Jakson tentam suportar a barulheira psicodélica.

- Detesto essas músicas...- Reclama Manolo - Nem tomando ácido dá pra aturar esses barulhinhos de teclado que eles enfiavam ao acaso...
- E eu achando que nem o rock progressivo tinha conseguido chegar aqui em São Modesto ainda...- Brinca Jakson, passando desodorante.

Mais tarde, Bárbara vai embora do posto e tenta conseguir uma carona na beira da estrada. Ninguém se habilita. Segue a pé mesmo. Anda uns dois quilômetros no acostamento e dobra à esquerda numa estrada de chão. Conversa com o vigia da divisa e ele abre o portão de madeira para ela passar. Anda mais alguns metros no chão de terra até avistar uma placa velha, parecida com coisa do velho Oeste.

POUSADA DA PAZ 500 m ->
Liberte-se de seu corpo.
Aulas de ioga, meditação, filosofia e sexo tântrico.

Ela logo chega a um enorme e velho casarão de madeira, de quatro andares e telhado de palha, no meio de uma humilde e colorida fazenda.

- Parece até que foi ontem...

Ela vai até a varanda e toca um pequeno gongo-campainha.

- Xamã? Ô, Xamãããããã!?

Lá dentro, em profundo transe num imenso tapete indiano, estão um senhor idoso, cabeludo e barbado, vestindo roxo dos pés à cabeça e uma senhora de cabelos grisalhos usando trajes típicos da Índia, sob luzes psicodélicas ao som de Aquarius, do musical Hair. Bárbara continua soando o gongo.

- Ô Xamãããããããã!?

Ele se levanta num salto, com olhos loucos.

- Horror! Sangue! Dor! Pandemônio! Por favor, levem meu corpo, mas deixem meu espírito em paz!?
- A guerra já acabou, meu amor...- A senhora tenta contê-lo.
- Reynaldooooooo!- Bárbara insiste- Ocê tá aí, tio?

Enfim atendem a porta.

- Bárbara! Que saudades!
- Barbie, minha filha! Vem dá um abraço na tia!

Eles se abraçam.

- Há quanto tempo não aparecia aqui, meu anjo?- Diz Xamã- Achei até que tinha virado fumaça!
- Ainda não, Xamã. Não antes docêis.