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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PAZ E AMOR, BICHO!(PARTE 1)



N
a Aterro FM, Manolo e Jakson organizam o estúdio e ajudam Josué a tentar consertar o maquinário.

- Eu conheci o Tião há uns doze anos em Juiz de Fora. - Conta Ulysses- Ele tava ali, bêbado, dormindo na sarjeta, e eu acabei atropelando a perna dele sem querer. Passei a financiar a rádio pirata dele desde então, pra aliviar a culpa. Acreditem se quiserem, mas ele era esquelético que nem o Manolo quando o conheci.
- Cacête! Sério isso?  
- Tu deprimiu o cara pra valer, hem?- Diz Jakson.
- Se tão achando isso triste, não sabem de nada ainda... Quer saber como faz pra deixar o gordão fulo da vida?

Chama os dois de lado e mostra um Xérox da carteira de identidade de Tião.

- SEBASTIÃO COLIMÉRIO MATIAS??- Os irmãos ficam atordoados.
- SHHHHHHH!- O caribenho tenta contê-los- Fala baixo, ô! Ele morre de ódio do Colimério. Toda vez que eu ameaço chamar ele assim, ele tenta me bater e rola no chão.

Risos.

- Ocêis vieram aqui pra sujar a mão de graxa ou curtir com a minha cara?- Tião, se arrastando para o estúdio sobre uma cadeira de rodinhas com um rodo, os provoca.- Vamo trabalhar logo, pôrra! A gente ainda tem até meia-noite pra tentar consertar as parada!
- Tá bom, já vamo...- Diz Uli, limpando as cinzas do cachimbo- Colimério!
- DE QUÊ OCÊ ME CHAMOU, ULYSSES?!?

Ele perde o equilíbrio e acaba capotando de barriga no chão com cadeira e tudo. Todo mundo desaba de rir.

- Seu viado! Assim que eu conseguir levantar, vou te enforcar nos seus dreads e te meter seu cachimbo no...

Tarde da noite eles voltam ao posto de gasolina, mais precisamente para o hotel.

- Valeu mesmo por deixar a gente ficar aqui, indiazinha.- Agradece Jakson, arrastando uma pilha de caixas de papelão amarradas ao skate escada acima.
- Eu não falei nada de deixar ocêis ficar aqui de graça, super-galã.- Retruca Bárbara- A casa é docêis, mas só até remendarem o teto da minha oficina, depois disso é 30 por dia, tá entendendo?
- Perfeitamente! Agora, quando é que tua prima ruiva vai...

Ela o agarra forte pelo queixo como se amassasse uma latinha de refrigerante e o encara nos olhos de maneira ameaçadora.

- O que dizia, Mister Mais de Cem Vagabundas?
- Uuuuuhhh.. Nnnnnnhada?
- Melhor assim.- O larga sobre as caixas.- Agora deixa eu ver se a fechadura ainda abre...

Ela enfia uma caneta no buraco da fechadura e tenta forçar a trava com ela. Com alguma habilidade a porta se abre e ela acende a luz, revelando um cenário de filme de terror. Teias de aranha e lixo por toda parte, o espelho quebrado, tacos soltos no piso, uma infiltração na parede, o colchão da cama de casal rasgado e uma antiga televisão Telefunken de madeira toda roída de cupins sobre uma geladeirinha de frigobar enferrujada até a alma.

- Reparem na bagunça não, forasteiros, mas é que a última vez que hospedou alguém aqui faz mais de ano. Fiquei com preguiça de limpar...
- Tô vendo...- Manolo abre espaço para arrastar seu baú para dentro do quarto- A gente já ficou a tarde toda limpando e consertando aquela rádia do Tião, limpar mais um quartinho de hotel nem vai fazer suar.
- Caraaaaca, maluco...- Jakson se espanta com o estado do quarto- O sujeito que ficou aqui por último era mais porco que tu, Manolo!
- Na verdade era um casal em lua-de-mel...- Diz Ulysses.
- QUÊ?
- Brincadeirinha, gente!
- Sei, sei... Essa TV pelo menos é a cores?
- Aí já tão querendo mordomia demais, né? Internet discada só chegou em São Modesto ano passado!
- A gente vai dormir que nem reis, né não, Jakson?
- Ô... Mas desde que tenha uma tomada pra gente ligar o som e as guitas, o resto é o de menos.
-... Guitas?- Bárbara se preocupa.

Os irmãos passam o resto da noite tentando ajeitar decentemente o quarto e batendo cabeça ao som de heavy metal no último furo... E incomodando a gerente do posto no andar de baixo.

- Nossa senhora, vagabundo!- Ela comenta- Dá pra acreditar que tem gente que ouve esse tipo de música numa boa? Parece que tão torcendo o pescoço do capeta!
- Ocê mora com Alexia, ela é fã de Nirvana...
- Ah, mas é diferente, né? Pelo menos dá pra entender mais ou menos o que o Cobain fala.
- É, bem mais ou menos... E ela vai voltar pra casa só de manhãzinha?
- Vai saber. Ela disse que ia caçar algum parceiro de cama lá em Juiz, não deu notícia até agora...
- Falando em parceiro de cama, Barbie... que ocê diz da gente lembrar os bons tempo ali no lavabo?
- Éééééé, bebé? Os bons tempos que ocê me encachaçou, traiu minha prima comigo e ela ficou quase um ano sem pisar na cidade com raiva da gente? Dispenso.
- Ainda lembra disso? 


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

UMA TARDE NA VIDA DO PREFEITO(PARTE 3)


J
 á são quase cinco da tarde, e o ambiente nos bastidores do programa Diário de Chicão é apocalíptico. A assistente ajuda a pendurar o microfone na cabeça dele e escovar a poeira de seu Armani verde- bandeira.

- O senhor tem certeza que quer voltar ao ar depois da confusão de ontem, Francisco?- Pergunta a produtora do programa, uma loira alta e magra, muito parecida com Vera Fischer- Isso não vai dar ibope nenhum! O povo quer mais é te ver pelas costas!
- Exatamente por isso nós temos de dar a eles alguma distração, Meibilene! Tentar tirar o foco do Estado de nossas trapalhadas pode fazer toda a diferença nesse momento. Ô, mocinha? Me dá meu gargarejo aí?
- Bom, o senhor quem sabe...

O prefeito termina de preparar sua garganta enquanto a assistente termina de ajeitar sua maquiagem à caminho da bancada do programa. O diretor dá o sinal para começar a gravação. O narrador inicia o programa.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos. Chicão saúda a audiência de braços abertos, com um sorriso mais falso que lesbianismo de filme pornô. Passam-se as horas...

- Para encerrar o programa dessa noite...- Ele continua, com um semblante intimidador- Vocês não vão acreditar no que aconteceu noite passada lá na capital! Um massacre, uma atrocidade da pior espécie...
- Pior que suas bombas?- Um gozador grita lá do backstage, provocando gargalhadas em toda a cidade. Chicão, irritado, aponta para trás e faz um sinal com o indicador contra o pescoço, mandando que a produção se livre do engraçadinho.
- Sim, muito pior, muito pior... Com a palavra, nosso repórter mais corajoso, Fabinho do Sufoco. Vai lá, Fábio!

Entra o VT da reportagem. O repórter, um cara sem a menor aparência de repórter, com seus 30 e poucos anos, enfiado numa camisa social listrada toda amarrotada com uma gravata estampada com patinhos voando, está diante de uma imensa parede tombada, com um carro virado de ponta-cabeça dentro do estabelecimento e o chão todo lavado com sangue.

- Tudo aconteceu ontem, por volta das dez da noite, Francisco. Um sujeito, completamente transtornado, desceu a Afonso Pena num Ford Galaxie desgovernado, bateu em dez carros estacionados, atropelou seis pedestres e invadiu aquela loja ali, olha lá! Pensam que acabou? Quando a polícia, os bombeiros e a ambulância chegaram, o motorista acordou, apanhou uma escopeta e simplesmente saiu atirando em todo mundo, sem mais nem menos, não é isso, sargento?
- Precisamente.- Responde o oficial da polícia.- Esse sujeito, de nome Jurandir Medeiros, escapou do hospital psiquiátrico noite passada. Um homem absolutamente descontrolado, dado a repentinos acessos de fúria. Nessa chacina ele matou seis atropelados, feriu cinco e matou mais oito a tiros, três das vítimas eram do nosso batalhão. Um verdadeiro massacre.
- Impressionante mesmo, sargento. Como foi que conseguiram deter o cara?
- A gente nem precisou fazer nada. Assim que acabaram as balas, Jurandir simplesmente desmaiou na frente dos policiais, espumando pela boca.
- Ele tava dopado?
- Positivo. Encontramos no porta-luvas do carro, roubado, inúmeras caixas e potes de psicotrópicos, todos vazios, e uma garrafa de vodca quase no fim. Os seguranças do hospital contaram que todos os remédios foram saqueados do almoxarifado da instituição. O meliante ingeriu quase um quilo de remédios de tarja preta antes de conseguir escapar.
- Muito obrigado, sargento. Viu só que absurdo, Francisco? A cidade certamente levará muitos dias para se recuperar desse massacre. Fabinho do Sufoco, o repórter que trabalha mais duro no Estado, para o Diário do Chicão.

Fecha o VT. Lá está Chicão, suando de medo da reportagem, de braços cruzados, quase em choque. A câmera dá um close dramático no rosto dele, esperando que diga alguma coisa. Mas passa-se quase um minuto sem que diga nada.

- Sr. Prefeito?- Diz o diretor do programa- Sr. Prefeito, tudo bem? CHICO?!? Mas que... Ficou catatônico diante da câmera de novo! Corta pro comercial e tira ele de cima da mesa, gente!






quarta-feira, 19 de setembro de 2012

UMA TARDE NA VIDA DO PREFEITO(PARTE 2)


D
na. Abelzinha invade o gabinete algum tempo depois, aflita.

- Credo em cruz, Abelzinha! Que vontade de entrar é essa, mulher?
- Mil perdões, Patrão. É que tá acontecendo uma coisa lá fora que o senhor precisa ver pra acreditar!
- Tá bem, tá bem... Só não entendo o que pode ter acontecido pra deixar o dia pior...

Ele sai para a varanda e seu queixo desaba: Há uma enorme manifestação no meio da fila na avenida. Um grupo de mais de 200 manifestantes, todos usando camisetas e bonés azuis, abre caminho na multidão até ficar de frente para a varanda da prefeitura, tocando catracas, apitos, vuvuzelas e sprays de buzina, carregando faixas de protesto.

CHICÃO DEVE MORRER!
SÃO MODESTO PERTENCE AOS MODESTINENSES!
DEVOLVA NOSSA CIDADE!
LIBERDADE E DEMOCRACIA!
O LOUCO DEVE SAIR!

Liderando o grupo, um saltitante e enérgico senhor alto e magro, sua careca lustrosa e suarenta refletindo a luz do sol e barba grisalha quase alcançando o peito, vestido com uma roupa florida havaiana bem cafona, com um megafone numa mão e uma vassoura na outra, discursa para os rebeldes.

- SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO!
- Pára tudo! Pára tudo!- O barbudo ordena que cessem os cânticos- Eu, Eduardo Vaz, líder da Frente Libertária Modestinense, creio falar em nome de todos nós. Não podemos mais aceitar esses caprichos delirantes de nosso prefeito, que não quer saber de nada a não ser espetáculo e obras faraônicas erguidas com o dinheiro do povo! Temos de varrer definitivamente Chico e toda sua corja pra fora da cidade, antes que ele transforme em areia o que restou em pé de nossos humildes casebres!

A população aplaude em massa. Logo, Seu Edy da Marcenaria e Dona Abelzinha, mais meia dúzia de seguranças armados comandados pelo Sargento Tijolada vão à varanda, para dar apoio ao prefeito. Os olhos de Chicão se encontram com os dardejantes e sanguinolentos olhos de Eduardo.

- Tinha que ser coisa sua, não é, Eduardo?
- Hoje e sempre, Chico.
- Qual é a história dessa vez, Seu Eduardo Vassourada? Acabou o dinheiro da tua televisão pirata, e resolveu vir aqui me apoquentar pessoalmente?
- VAZ! VAZ! EU JÁ DISSE MILHÕES DE VEZES QUE MEU SOBRENOME É VAZ!- Ele berra ao megafone, fazendo todo mundo tapar os ouvidos.
- Tá certo... Mas fale logo! Qual é a sua hoje?
- A ‘minha’ é a mesma de qualquer cidadão modestinense, Chico. Queremos sua renúncia imediata e a dissolução de seu império de 16 anos, para que essa gente humilde que você adora torturar possa voltar a respirar aliviada! Nós não precisamos de suas indenizações, nem de seu precioso asfalto ou de uma nova prefeitura enorme no meio da cidade, precisamos ser tratados com humanidade, compreensão e justiça! Vamo berrar, meu povo!
- SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO! SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO! SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO!

Toda a população começa a gritar o slogan junto com os manifestantes. O prefeito faz o sinal com o indicador contra o pescoço para os seguranças começarem a agir. Todos sacam seus três-oitões e atiram para o alto, pondo os manifestantes e mais um monte de gente pra correr. Só ficam o prefeito e sua comitiva na varanda e Eduardo, sólido como uma rocha, olhando para ele.

- Escuta aqui, Eduardo. - O prefeito escora o braço na beira da varanda, aparentando cansaço, falando mais baixo- Já não engulo essa sua imagem de grande libertador há muito tempo. Caramba, já faz três anos que eu te destituí de sua função de vice-prefeito. Essa dor-de-cotovelo não vai passar nunca?

Eduardo fica sem palavras, entortando o megafone com as mãos e trincando os dentes.

- Olha- Tijolada intervém- Ainda bem que seus companheirinhos saíram correndo, senão eles iam ver como o prefeito te deixou com cara de bosta no sereno, Vassourada!

Todos gargalham.

- Nunca irá ficar livre de mim, Chico. Jamais. Enquanto eu não fizer minha justiça... Quer dizer, a justiça do povo, eu serei aquela sarna em seus colhões que não vai sarar nem com castração! Me aguarde.

Um dos seguranças joga um aviãozinho de papel, que espeta na enorme barba de Eduardo. Ele dá as costas pra prefeitura e sai andando com o rabo entre as pernas, humilhado e cabisbaixo. O prefeito e sua comissão voltam para o hall da prefeitura.

- Precisava achincalhar o Eduardo desse jeito, patrão?- Abelzinha repreende Chicão- Deu até pena...
- Dona Abelzinha, quem quer espantar galinha não joga milho. A propósito, se ele aparecer de novo, nem me chame mais, compreendido?
- Sim, patrão.
- Seguindo com os ‘a propósitos’, sobre aquela ‘umazinha’ em nosso gabinete particular que fiquei lhe devendo... Ainda tá a fim?
- Me chama às oito da noite que eu te respondo...- Ela se aproxima do ouvido dele e sussurra de maneira sensual- Sr. Prefeito!




sexta-feira, 14 de setembro de 2012

UMA TARDE NA VIDA DO PREFEITO(PARTE 1)


O
s braços do prefeito já estão tremendo de tanto dar tchauzinho pros cidadãos e fazer sorriso amarelo.

- Ora, Chico...- Edy põe a mão no ombro do colega de trabalho- Pensa no lado positivo da situação... Não era ocê que vivia dizendo que ia transformar a cidade num canteiro de obras? 

Todo mundo começa a rir da cara do prefeito.

- Héhéhéhé...- Chicão ri com ironia- Ele não é espirituoso, gente?
- Mas tenho de reconhecer uma coisa. Não fosse o plano genial do Marreta de moer o asfalto antigo pra reaproveitar e economizar 70% da verba da obra, a cidade terminaria de falir numas duas semanas.
- Abençoado, ele seja.

Dna. Abelzinha aparece no hall carregando um telefone sem fio.

- Patrãozinho? Minha irmã no telefone.- Graças a Deus, um alívio nesse dia horrível... Alô? Verônica?
- Oi, darling!- Do outro lado da linha, uma socialite nos seus 50 e tantos anos, com o rosto todo esticado com plásticas, cabelos loiros oxigenados penteados como um bolo de noiva, com brincos de ametista que mais parecem dois castiçais e usando rosa dos pés à cabeça, fala pelo celular de um bistrô parisiense- Teve notícias minhas?
- Não, não... Qual é a história nova? Comprou mais uma limusine rosa?
- Seu tolo... Na verdade, comprei uma, sim, mas acontece que eu vi você e a cidade aqui num noticiário francês! Quer dizer que, enfim, meu maridinho megalomaníaco conseguiu cumprir uma promessa de campanha, não foi? Bravo!

Ele escuta a mulher batendo palmas com sarcasmo e fica envergonhado, pois todos ao seu redor ouviram a provocação.

- Ehr... Não é motivo nenhum pra piada, Verônica... Tô pagando indenizações pra cidade todinha, por muito pouco não precisaremos começar com racionamentos. Tô morrendo de vergonha!
- Com razão, Francisco! Nesse caso, não vai dar pra comprar o Arco do Triunfo e colocar na entrada de São Modesto, como eu tinha pedido no aniversário de casamento, vai?
- Ehr... Depois a gente assunta sobre isso. E como anda Paris?
- Tudo as mil maravilhas... Marisi tem dado um duro danado aqui, pra entrar no mundo da alta-costura.
- Nem sei como. Ela só usa as mesmas roupas que você...
- Não fala assim da sua filha, darling! E como anda o Stanley?
- Sei lá, e nem quero saber... Desde que o ano começou eu não vejo aquele traste inútil sair do quarto, nem pra ir ao banheiro.
- DOBRA A LÍNGUA PRA FALAR DO MEU MENINO!
- Menino?- Chicão se exalta- Verônica, ele tem 30 anos! Olha, Verônica. Agora o céu tá caindo em cima de mim. Quando tudo acabar, eu te ligo de novo, tá legal?
- Tá bem...
- Foi muito bom te ouvir de novo, meu amor. Beijão!
- Outro, darling! Adieu!

Chicão desliga o telefone e o devolve para sua secretária.

- Bendita hora que eu entrei naquele prostíbulo...  Dá pra acreditar, seu Edy da marcenaria? A besteira que eu fiz apareceu num noticiário lá na Europa!
- Viu só? Ocê sempre disse que colocaria São Modesto na boca do mundo...
- Ah, deixa eu voltar a fazer sorriso amarelo em paz!

Tempos depois, Chicão dá uma pausa em suas formalidades.

- Como é difícil a vida de um homem do povo...

Já afrouxando a gravata e desabotoando o terno, ele abre a porta do gabinete e toma um tremendo susto ao se deparar com um sujeito gordão de cabelos loiros desmazelados, usando uma camisa velha do Atlético Mineiro, shorts de lavar carro no fim de semana e óculos fundo-de-garrafa, deitado no sofá e fumando charuto.

- Puxa, ocê tá com os nervos abalados hem, Chico? Adorei esse charuto hondurenho, coisa fina!
- Que diabos, Ronald! Como é que você conseguiu entrar aqui?
- Irmão de Verônica e Abel, né, Chico? Tudo que eu peço, ela faz.
- E a que devo essa, por assim dizer, tão desejada companhia? Qual é a rotina do pidão dessa vez?
- Ora...- O enorme encostado se levanta do sofá e caminha lentamente em direção ao prefeito, com cara de sério- A mesma coisa que eu sempre peço quando te vejo, Chico...

De repente, ele se atira aos pés do prefeito e começa a espernear.

- ME ARRUMA UMA BOQUINHA AQUI NA PREFEITURA, PELO AMOR DE DEUS! EU TÔ DESEMPREGADO FAZ UM ANO, A CAMBADA DE COBRADOR E AGIOTA DO MEU PÉ! OCÊ PRECISA ME DAR UMA FORÇA, SÔ! ATÉ PRA LIMPAR SEU SAPATO COM A LÍNGUA EU ACEITO, POR FAVOR, POR FAVOR, POR FAVOR, POR FAVOR!!
- Ainda desempregado, Ronald? Que vergonha... Levanta daí, homem!

Dá um chute na cara dele, que cai sentado no chão.

- As coisas que eu tenho que suportar... Se você não fosse o irmão caçula da minha mulher, eu juro que te jogava pela varanda sem nem piscar! Por acaso não viu a merda que eu fiz com a cidade, seu idiota? E você ainda invade meu gabinete só pra me aporrinhar e pedir dinheiro? Tenha dó!
- E que culpa eu tenho se ocê explodiu a cidade? Por favor, Chico, me dá só uma chance! Eu topo qualquer parada!

O cunhado do prefeito torna a se ajoelhar diante dele e começa a lamber seus sapatos.

- Terminou?- Chico pega o telefone, enojado- Tijolada? No meu gabinete, por favor.
- Só uma chancezinha de nada, pelo amor de Deus, Chicão!
- Sai do meu couro, carrapato! Levanta daí!

O segurança, um tremendo negão de terno e gravata, com um cassetete na mão, entra no gabinete.

- Pois não, prefeito?
- Arrasta esse batráquio pra fora da prefeitura, e se ele tentar entrar de novo...

Ronald se apavora com a altura e os braços enormes do segurança.

-... Seja criativo.

Ele o arrasta pra fora da sala pelo pé, e Ronald sai berrando e choramingando.

- Sujeitinho imprestável...


sábado, 8 de setembro de 2012

A RÁDIO QUE TOCA O QUE TE CHOCA (PARTE 3)


A
 sala de luz esverdeada com paredes mofadas está simplesmente uma zona. Não tem uma única coisa em pé nas prateleiras ou mesas, tudo está entulhado num enorme monte no meio da sala.
- Tião não tava falando da boca pra fora quando falou da bagunça...

- Isso é uma emissora de rádio?- Questiona Manolo- Mais parece um fim de guerra!
- Tião? Cadê ocê, criatura? TIÃÃÃO!!

Ele percebe alguma coisa tentando sair do monte de lixo. Um braço muito gordo, com um bracelete de espetos, sai de lá.

- Alguém me tira daqui!!- Ouve-se um grunhido gutural vindo da montanha.
- Jah, dê-me forças... Tira o cara dali, Jô?

Josué puxa o ser mais monstruoso do universo de dentro do entulho. Ninguém é capaz de disfarçar o nojo causado pela sua presença. Um sujeito baixinho e gordão todo encardido com olheiras enormes. Apesar de careca, tem o pouco cabelo que lhe resta pintado de azul e “arrumado” como o do Keith Flint, da banda Prodigy. Não tem um único orifício no rosto dele sem um piercing. Usa um colete feito com um carpete velho, uma camiseta, minúscula para o tamanho da pança dele, toda puída, bermudão e está descalço.

- Valeu pela força, brucutu. Opa! Carne fresca!- Ele se apresenta- Saudações, gente. Sou o primeiro e único Tião Chorume!
- Sorte que é o único...- Jakson comenta pelos cotovelos, provocando risos no irmão caçula.

Eles começam a arrumar a bagunça na emissora de rádio. Uli, Tião e Josué conversam na sala ao lado.

- Então, chefe. Da hora que eu te liguei até uma horinha, fiquei tentando sair daqui, mas tropecei naquele fio que passa na frente da porta, caí de cabeça dentro do entulho e apaguei. Não fosse ocêis ter chegado, o lixo tinha me matado afogado!
- Conta outra...- Uli acende o cachimbo- Com esse bafo horroroso de cerveja e sopa de cebola, já saquei em que fio que ocê tropicou. Custava o quê falar que só desmaiou de bebum?
- Fica na sua, chefinho.- Ele arrota e solta um pum.
- Indecoroso. Sua mão não te deu educação?- Uli assoa o nariz na barra da camisa- Duvido que todo esse lixo tenha despencado no chão por causa do balancê de ontem. As máquina ter caído eu até acredito, mas esse entulho?
- Tamém, quando foi a última vez que ocê entrou aqui? No natal do ano passado?
- Melhor nem tentar lembrar... Como tá a situação dos apareio, Jô?
- Adonai que me perdoe, Ulysses, mas parece até que o Muro das Lamentações desmoronou... Escuta só.

 Ele apanha um transmissor e o chacoalha nos ouvidos do amigo. A máquina parece um cofrinho por dentro, de tantas peças soltas balançando. Uli abana a cabeça, incrédulo.

- Desse jeito, talvez amanhã, pra ser feliz, dê pra pegar carona nalguma onda AM. Mas não dou nenhuma garantia.

Manolo e Jakson tentam varrer a lixarada da emissora.

- Logo eu que amo fazer faxina...- Manolo reclama.- Essa tal de Aterro FM faz justiça ao próprio nome.
- Mas ainda é melhor que encarar os sermões de mamãe, concorda?- Retruca o irmão mais velho.
- Nem me lembre dela, Jakson. Se a gente conhece a véia, agora ela deve ter feito todo mundo no prédio de refém, pra tentar descobrir onde a gente foi parar...

De fato, é exatamente isso que a Srª. Ventania está fazendo agora. Com a entrada do prédio fechada a cadeado e acorrentada, ela mantém todos os moradores, apavorados, amarrados no hall de entrada e os sabatina como um juiz.

- Um de vocês há de saber a resposta, e enquanto ela não vier, não deixo ninguém sair daqui... ONDE ESTÃO MEUS FILHOS?!?
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Aí, galera. A partir de agora, pra dar uma acelerada na narrativa, vou voltar a postar capítulos três vezes por semana, tendo ilustrações ou não.