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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A RÁDIO QUE TOCA O QUE TE CHOCA (PARTE 2)



- N
ão dizem nada?- O gigante polonês pergunta.
- Uhhhhh...- Manolo tenta encontrar as melhores palavras- Klaatu barada nikto*?
- Caraaaaaaca, maluco...- Diz Jakson- Que diabo de cidade é essa?

Bárbara e Alexia fazem mais encomendas no fornecedor do posto e pagam a dívida do dia anterior.
- Aqui os 200 de ontem, mão-de-vaca!- Bárbara bate as notas de cem no balcão- Agora, cadê meu celular?
- Calma, Barbie...
- Vou buscar... Mulher doente...
Furiosa com a provocação, ela o puxa pela gola da camisa para fora do balcão.
- QUE FOI QUE OCÊ DISSE, CARA?!?
- Calma!- Alexia intervém-  Põe o cara no chão, prima! Não precisa matar ninguém, sô!
- Tá bom... Vai pegar meu celular logo. E não esquece de mandar entregar a encomenda AINDA HOJE, compreendido?
- S... Sim, senhora!- Responde o atendente, urinando nas calças de medo.
Lá fora...
- Por Kurt! Não foi ocê que disse ontem que ia tentar segurar esse animal selvagem dentro docê?
- Foram aqueles três que me tiraram do sério hoje, prima.
- E ocê ainda quer prender os cariocas no quarto do hotel até eles consertarem o teto da oficina. Vai entender...
Três jovens vêm correndo na direção das duas.
- Uai... Johann? Cissa? Monique?
- Ainda bem que a gente conseguiu te encontrar. Procuramos na cidade toda!
- Mas o que foi que houve?
- A gente te viu toda tristinha lá no bar do escocês, e não deu pra agüentar te ver daquele jeito!- Diz o rapazinho- Aí a gente foi lá no conservatório e pediu permissão pro diretor procê dar as aulas pra gente lá na quadra da minha casa, enquanto eles reformam o prédio.
- Sério isso? Fizeram isso por minzinha, sô? Pôxa... Fiquei até... Corada, gente! Eu não mereço tanto!
- Claro que merece!
- E aí? A gente pode confirmar pra amanhã com ele?
- Claro que sim, gente! Já tô lá!
Eles a abraçam.
- Tá vendo só, Lex?- Diz Barbara- Isso que é prestígio, hem?
Longe dali, Uli encosta o carro na entrada de um beco escuro. Há dois pequenos edifícios antigos nele, um em cada esquina. Pega uma lanterna e um molho de ferramentas enroladas num pedaço de couro no porta-luvas do carro.
- Oh, Jah... Depois de tantos anos, e eu ainda não decorei onde fica o alçapão...
- Por que é tão secreto assim o prédio de sua rádio?- Pergunta Jakson.
- Que prédio? A emissora fica é no andar de baixo!
- Como assim?- Manolo fica confuso.
- A-HA! Tá aqui o alçapão!- Uli aponta a lanterna para o canto esquerdo do muro e apanha uma chave no bolso para abrir o cadeado- Jô, faça as honras. Minhas costelas tão meio atacadas da artrite hoje...
- Frouxo...
O gigante levanta a tampa enferrujada do alçapão, que deve pesar uns 100 quilos, com uma mão só, voltando a impressionar os forasteiros. A entrada dá para a galeria de esgotos da cidade.
- Cavalheiros, tenham a bondade! Melhor ocêis tampar o nariz.- Explica Uli, descendo na frente com a lanterna.
Eles descem por uma escada de cabos de aço começam a andar por debaixo da terra, tampando os narizes com suas vestes.
-E o engraçado- Manolo comenta- É que eu sempre quis saber como uma tartaruga ninja se sentia...
- Muito engraçado, maluquinho...
- A gente vai ter que andar muito ainda?- Pergunta Jakson- Umidade faz um mal danado pro meu cabelo.
- Ah, dá um tempo, carioca! Ocê acabou de entrar numa galeria de esgoto, sua vaidade acabou de ser anulada!
- Hahahahahaha... Tomou, maninho!
- Dá pra fazer o favor de ficar quieto, ocêis dois? É muito fácil ficar perdido aqui embaixo!
Uli dobra à direita numa galeria e ilumina uma porta de madeira embolorada, cheia de adesivos de bandas de punk rock e Black metal, sem falar em mensagens ofensivas escritas a mão. Eles a abrem.
- Tião, já che... PELA MADRUGADA!!
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* Famosa frase do filme O Dia Em Que a Terra Parou, de 1951. Comando utilizado pelo extraterrestre Klaatu para fazer seu robô guarda-costas Gort parar de atacar os humanos. http://www.youtube.com/watch?v=sIaxSxEqKtA

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A RÁDIO QUE TOCA O QUE TE CHOCA (PARTE 1)

N
o bar, Alexia dedilha num velho piano a música Rearview mirror, do Pearl Jam. Escocês e as amigas de Alexia aplaudem.

- Nossa, Escocês! E não é que ele continua afinadinho mesmo depois das bombas?
- São Patrício é o homem, Alexia...
- Isso aí, Alexia!- Tassiana felicita a amiga- Mesmo trocando os pé, ainda consegue tocar desse jeito!

Bárbara entra no bar, aplaudindo também.

- Caramba, Lex. Tava ótima! E olha que ocê nem é tão boa no piano quanto eu... Oi, garotas!
- Oi, Barbie.- As amigas de Alexia a cumprimentam.
- Meninas!
- Oi, prima!

Alexia se levanta do banquinho do piano para cumprimentar a prima, mas por causa do álcool, ela sai esbarrando nas mesas e com um sorrisinho maroto de bêbada.

- Mas ocê, hem, Lex? Tinha saído de casa tão pra cima...
- Esquece, Barbie, esquece... E aí? Cadê o Uli e os outros dois?
- Parece que deu uma quebra geral lá na Aterro FM, e ele levou os dois junto pra tentar consertar as coisas.
- Sei... Ocê viu como a cidade ficou, né, prima?
- É, vi sim... Ó. Eu ainda tenho que comprar mais comida, dar um jeito de ir em Juiz tentar achar pelo menos um joguinho de copo e prato pro posto e fazer a cobrança lá na prefeitura. Quer ir me dar uma força?
- Tanto faz, já fiquei de bobeira o dia todo mesmo... Eu te ajudo a não bater na cara de ninguém lá. Fica por quanto tudo, escocês?
- Pode ficar por conta. Ainda tô devendo aqueles cachês pras duas, mesmo.
- Valeu então. Tchau, garotas!
- Tchau, Lexi!
Alexia escora no ombro de Bárbara.
- Pôxa, a coisa tá braba, hem, prima?

Uli e os dois forasteiros sobem a ladeira principal da cidade no pré-histórico carro do jamaicano, a passos de tartaruga.

- Como se fosse pouca a pindura que eu vivo- Diz Ulysses- Ainda tenho que arrumar gaita pra re-levantar a Aterro FM, eu mereço...
- Dizaí, truta- Pergunta Manolo, degustando um intragável “podrão”, o popular cachorro-quente de rua- Onde é tua casa?
-Acabou de respingar ketchup na minha sala de estar...
- Ué, como assim? Tu mora nesse carro?
- Desde os 15 anos, maluquinho. Nada de conta pra pagar, nada de imposto, vivendo com um sifão no tanque dos outros aqui, uma chupeta na bateria ali, rum e fumo a hora que dá vontade... Quer coisa melhor que isso?
- Ah, quero sim!- Brinca Jakson.- E como tu vai consertar a rádio pirata?
- Espera que ocêis vão ver, skatista... Ocêis vão ver!

Eles param de frente para a obra da nova prefeitura.

- Numa obra?- Jakson se espanta- Tem algum técnico em eletrônica ali?
- É meu braço-direito aqui na cidade, o Josué. O gringo é tão forte e alto que, mesmo ficando de frente com ele, ocê ia precisar dum binóculo pra enxergar o nariz.
- Exagerado...

No último andar do andaime, Josué carrega um balde imenso, cheio de massa, com as duas mãos. Deixa o balde na tábua do andaime e encosta o cotovelo no cano pra descansar. Uli grita o nome dele, que perde o equilíbrio ao olhar para baixo e cai do andaime, ficando com o pescoço enroscado na corda de uma polia, dependurado no ar. Manolo e Jakson ficam apavorados!

- Caralho!- Diz Jakson.
- Viu o que tu fez, sorrisão?- Diz Manolo- Tu matou o cara enforcado, véio!
- Sem pró, cariocas... Isso acontece com ele quase toda semana!

Josué de repente abre os olhos, como se fosse Jason Voorhees voltando do inferno. Tenta tomar todo o ar que consegue, soltando um grunhido semelhante ao de um jegue. Ele fecha a boca e prende a respiração. De repente, o pescoço dele estufa tanto que arrebenta a corda. E ele cai no chão numa cambalhota, em perfeita segurança, diante de Uli e dos dois forasteiros boquiabertos. Ulysses, que já tem a altura de um jogador de basquete, fica do tamanho de um amendoim ao lado do colega. Diante dele, os forasteiros mais parecem Davis diante do Golias.

- E aí, Ulysses? Qual é o papo?
- Jô, nossos novos comparsas, Mad Manolo e Jakson.

Ele aperta a mão dos dois, que continuam estarrecidos.



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

CHORANDO AS PITANGAS



- I
sso é inacreditável, escocês!- Alexia comenta no bar, tomando um cafezinho- Na cidade toda, janela estourada, parede trincada, carro desmanchado, casa caindo... Mas aqui não quebrou um único copo! Por Kurt!
- Ah, não tem nada que meu venerado São Patrício não consiga segurar... Assim que tudo começou a balançar eu agarrei meu ídolo de São Patrício aqui, fui pro porão, me benzi do fundo da minha alma e quando as explosões pararam, eu saí e o bar tava inteirinho!
- Pôxa... Talvez devessem mudar o nome da cidade pra São Patrício!

Risos. Mas eles escutam um choro vindo de fora. Alexia vai ver. É Tassiana e mais duas amigas.

- Oi, vermelha...
- Tassí? Que foi que aconteceu, menina?
- Tenta adivinhar.

Mais tarde...

- Que desastre, Tassí! – Alexia se espanta- A loja todinha?
- Pois é, vermelha. Quando cheguei pra trabalhar hoje o teto tinha desmoronado. Não sobrou nada em pé! Não sei o que eu vou fazer, meninas! A loja era o xodó de minha mãe, eu não tenho mais onde traba...

Volta a chorar.

- Podia ter sido muito pior, amiga! Pelo menos ocê já tinha encerrado o expediente antes de tudo desabar, uai. Podia ter morrido esmagada dentro do bazar!
- Lex tá certa, Tassiana.- Consola uma das amigas.
- Sabe o que me serve de consolo, cumádi?
- Hum?
- Lembra que o cavalo do Feliciano me deu os gêmeos quando tirô minha virgindade?
- Sei...
- Pois ontem, um tempinho antes da cidade explodir, recebi um e-mail de uma cumádi em Berlândia, falando que ele desvirginou uma por lá e...

Ela começa a rir, mas sem parar de lacrimejar.

- E ela engravidou de gêmeos também na 1ª bimbada!

Alexia chega a engasgar com o absurdo da história.

- Ah, não... Sério isso, Tassí? HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!
- Pelo menos foi o que me disseram.
- O pai dele deve tá muito orgulhoso agora... Bom, não posso nem dizer que tô melhor que ocê hoje, cumádi. As aulas foram suspensas por causa da destruição, e eu tenho de ficar o resto do dia de bobeira aqui na cidade, sem ter o que fazer... Saco...

Vira mais uma dose.

- Vai devagar aí, Alexia.- Alerta o escocês- Beber desse jeito logo de manhã...
- E do jeito que ocê fica flutuante depois de umas a mais...- Completa Tassiana.
- E ocêis têm alguma idéia melhor, por acaso?

Do lado de fora do bar, alguns adolescentes observam Alexia enchendo a cara.

- Coitada da professora...
- Quando professora Moura fica assim, é porque a coisa tá feia, mesmo.
- Até ver alguém torcendo o pescoço de um filhotinho é menos triste...

Bárbara e os outros três vão à loja de material de construção.

-Posso dar um tapa no cachimbo, Ulysses?- Pede Manolo.
- Manda ver.

Basta dar uma baforadinha de leve para ele quase tossir o cérebro pra fora.

- Afff! Pela luva verde de Jello Biafra! Que troço é esse aqui, véio?
- Tradição familiar. Ocê dá ganja misturada com capim pros carneiros e depois torra o esterco. Não dá enjôo e a onda dura o dia quase todo, sô...
- Cacêta! Mais forte que cerveja preta com ovo cru!
- Tu e tua mania de ser fanfarrão, né, maninho?- Jakson provoca lá do balcão da loja.- Nem fumante tu é e fica inventando...
- Forasteiro é outra coisa...- Brinca Uli, enquanto abre uma cabaça que trazia pendurada no elástico da bermuda.
- Xeu tentar lavar essa coisa da boca?- Manolo pede a cabaça.
- Vai fundo...

Basta um golinho do líquido pra ele praticamente morrer sufocado. O produto quase sai de seus dutos lacrimais de tão forte.

- Tá sem sorte, hein, cumpádi?
- Que... Que merda é essa, doente? Parece querosene!
- Rum caseiro. Eu mesmo destilo no motor do meu carro. Hihihihihi...

O jamaicano toma um golão generoso. Lá no balcão...

- Como assim?- Bárbara se impressiona- Não sobrou um único tijolo ou pré-moldado inteiro?!
- Foi isso, princesa.- Responde o vendedor- Com esse chacoalhão que o prefeito deu na cidade, ficou tudo aos pedaços. Acho que até os canos de metal entortaram.
- Bom, então eu acho que isso nos livra do compromisso com...

Assim que Jakson dá as costas pra ir embora, Bárbara lhe passa outra gravata.

- Mas nem pensar! Enquanto ocêis não tamparem aquele rombo no meu teto, eu faço questão que os dois passem uma temporada muito, muito longa na cidade, ou melhor, no nosso hotel! Ninguém tenta passar a perna em Bárbara Yracema Moura Bernardes sem levar seu troco!
- E ela não tá exagerando não, viu?- Uli mostra uma marca de mordida no ombro. Manolo dá um tapinha nas costas do irmão.

- É, véio... Parece que a gente encontrou uma casa nova.
- E o concreto, moço?- Questiona Bárbara- Vai dizer que os sacos de concreto também quebraram!
- Não, não. Com o concreto não aconteceu nada ainda.
- Então, o jeito vai ser improvisar. Põe um saco na conta do vagabundo aqui.
- Peraí!- Uli engasga com a fumaça do cachimbo- Na minha, por quê?
- Porque sim. Vamo logo!

Ele passa o dedo pela gola da camiseta, tentando disfarçar um nervosismo indisfarçável.

- E assim que a gente consertar o teto da lindona aqui... –Jakson intervém- Tu é quem vai pagar o conserto do Pampa, tá ligado?
- É, Ulysses.- O vendedor curte com a cara do caribenho- Parece que ocê dançou de novo...
- Oh, Jah...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

QUALQUER UM PODE SER MECÂNICO?




N
o posto...

- Até que terminaram de montar tudo rapidinho, hem?- Ironiza Bárbara.
- Vamo descer a caranga agora.- Diz Uli.
- Valeu pelas gambiarras, sorrisão.
- Rastafaris sempre alerta, maluquinho!
- Será que vai quebrar tudo de novo?
- Claro que vai, Mad!- Jakson provoca.- Essa merda já tem quase 30 anos, e carro velho só serve pra dar dor de cabeça!
- Aposto 200 como ocêis vão dar com os burros n’água...- Brinca a gerente do posto.

Fazem um sifão no tanque do Fleet pra passar um pouco da gasolina pro Pampa. Põem óleo e água no radiador.

- Cavalheiros e dama... Ou o que quer que a Bárbara seja...- Diz Manolo- Esse é um momento histórico! A descoberta do fogo, a criação da roda e da plástica nasal não-cirúrgica, nada disso pode ser comparado a...
- ANDA LOGO!- Todos gritam!
- Tá bom, tá bom. Nem fazer piadinha eu posso...

Manolo entra no carro e engata a chave na ignição.

- Contemplem... O futuro!

Dá a partida, o motor explode e sai voando como um foguete, arrancando o capô e arrebentando o teto da oficina. Uli não consegue acreditar no estrago que causaram. Manolo ficou em choque atrás do volante. Jakson rola no chão de tanto rir.

- Ââââââhn... Toma seus 200, Barbie.- Entrega Uli, derrotado.
- Sorte que ocêis não chegaram aqui montados numa bomba atômica...

A fila na frente da prefeitura continua fervilhante. Alexia tenta falar no orelhão.

- Recesso?- Bárbara responde no outro lado da linha- Por quanto tempo?
- Ninguém sabe. Pode ser que eles precisem de umas duas semanas para colocar tudo em ordem de novo.
- Que azar, sô...
- A cidade tá um caos, prima! Só vendo pra acreditar! Que horas ocê vem?
- Agorinha. Os três paiaço fizeram uma bagunça dos diabos aqui na oficina e eu forcei eles a irem à cidade comprar material pra consertar tudo.
- Beleza. Esperando lá no escocês, tá? Se é que ele ainda existe...
- Já tô indo, prima. Tchau.- Põe o fone no gancho- E então? Tudo pronto?

Os três, com os rostos inchados de tanto apanhar, estão dentro do Fleet, esperando por ela. Eles pegam a estrada. No meio do caminho, o celular de Uli toca.

- Fala, Tião! Hum. Hum. Sei... COMO É? QUEBROU TUDO?!? NÃO SOBROU UMA ÚNICA MÁQUINA EM PÉ? Ô, Jah... Tá certo. Eu tô chegando, daqui a pouco eu dou as caras por aí. Sua mãe também é! Falou, parceiro.

Manolo e Jakson não entendem nada.

- Quê que o Chorume queria?
- Dar as maravilhosas notícias do front. A rua sacudiu tanto que todas as máquinas da rádio espatifaram no chão. Não sobrou uma única máquina funcionando...-Surra a buzina- PREFEITIM MISERÁVEL, SÔ!!
- Que triste...- Ela responde com indiferença.
- Rádio?- Manolo entra na conversa- Então tu é radialista, também?
- Mais ou menos. Só dono duma estaçãozinha pirata lá na cidade. Pelo menos eu era, né?

Eles logo chegam à cidade. Manolo faz xixi no poste, gemendo muito de alívio.

- Oh, Jah... Isso que é mijar com autoridade!- Brinca o jamaicano- Cinco minuto de pé e ainda sai com força!
- O lepra de óculos comeu uma melancia toda ontem na estrada- Jakson implica com o irmão- É que nem tomar um balde d’água com açúcar, né verdade, maninho?
- Vivendo e aprendendo, né?

Cinco minutos mais tarde, eles andam pela cidade destruída.

- Prontinho.- Diz Uli- Sejam bem-vindos à nossa pequena, humilde e fedida São Modesto...
Só não entendi por que ocê quis tanto trazer esse skate, carioca. Carioca? JAKSON, TÁ ME OUVINDO, CUMPÁDI?

Ele está em estado de choque, com um sorriso enorme no rosto, admirado com a forma que a cidade foi construída: 2 km de ladeira até a avenida principal.

- Vão entender agora... - Responde Manolo, olhando baixo para a enorme descida.
- Meu, isso aqui é a matéria do que são feitos os sonhos!- Jakson sussurra baixinho para si mesmo.
- Liga não, Bárbara.- Continua Manolo- Jakson tem só dois vícios: Mulher e ladeira. Ele não pode ver uma ladeira grande que...
- Negativo, malandrão.- Bárbara dá um puxão na orelha de Jakson pelo brinco- Ocê precisa é de comprar tijolo e massa pra tampar aquele rombo enorme na laje da minha oficina!
- Desiste, índia. - Diz Manolo - Enquanto não descer essa ladeira, ele não vai conseguir pensar em outra coisa.
-HÁ! Esse brinco é de pressão!- Jakson se livra do puxão de orelha e monta no skate, deixando Bárbara só com a arruela de metal na mão- UHUUUUUUUUU!

Mesmo com as ruas sem asfalto e com toda a bagunça das caçambas de entulho, Jakson desce a majestosa ladeira da cidade como um foguete. Os outros três tentam correr atrás dele, em vão. Ele desce tão depressa pelas ruas que mal dá pra ouvi-lo gritando. Ele faz dezenas de manobras, se exibindo para as moças nas calçadas, mas quando aterrissa no último quarteirão, uma das rodinhas se solta e ele é arremessado contra uma placa de PARE, que o acerta bem naquele lugar.

- Ainda tá inteiro, carioca?- Pergunta Ulysses, acendendo o cachimbo.
- Só meio tonto... Já levei tanta cacetada na gaiola andando de skate que até já anestesiou.
- Ótimo...- Bárbara o agarra pelo cabelo- Agora nós vai cuidar daquele outro assunto, que é mais importante que sua vida! Vem, vem e num reclama!
- AI! AI! O cabelo não é anestesiado, não!
- Sorte minha... Agora vem andando, Tony Hawk! Quero começar a consertar o teto da oficina ainda hoje!
- Minha vozinha...- Manolo observa a dor do irmão- Ainda bem que meu cabelo é de escovinha de vaso...
- Podes crer, maluquinho...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A FACE DO DESASTRE



C
hegando  à cidade, Alexia vê pela primeira vez o estrago que as bombas causaram. Alguns postes continuam meio tortos, não há uma só vidraça que tenha escapado inteira. Paredes e muros rachados por toda parte, árvores anciãs tombadas. O padre, ao ver que o sino se soltou da torre e se espatifou no passeio, faz o sinal de cruz e cerra as portas da igrejinha. A boa e velha Kombi do sorvete, campeã em trazer alegria aos pimpolhos modestinenses, simplesmente se desmanchou. Nem mesmo os tradicionais violeiros de alpendre, que começam a tocar modinhas logo de manhãzinha para despertar a cidade, puseram a cara para fora de casa.

- Kurt Cobain, que tragédia...- A ruiva se espanta- Nem podia imaginar que a coisa tinha sido tão feia...

Chega ao conservatório e encontra o portão fechado.

- Uai, mas são quase 8:30!- Bate no portão- Seu Elêu?! Seu Elêêêêêu!

O servente, um esquálido senhor em seus sessenta e poucos anos, abre a portinhola e seus olhos quase cinzas se projetam do outro lado.

- Como assim, recesso?
- Pois é, anjo. - Responde o velhinho- Aquelas bomba fez uma bagunça danada no conservatório, sô. Não sobrou uma sala com o piso inteiro. A parede da cantina rachou no meio. Só deus sabe quando vai poder ter aula de novo.
- Não é justo, seu Elêu. Andei quase uma hora a pé com o violão nas costas e fiquei toda suada pra chegar aqui e encontrar o conservatório fechado?!
- A culpa num é nossa, anjo. A cidade toda tá parada, ocê ta vendo, né?
- E agora, eu passo o dia todo aqui sem ter nada pra fazer?
- Vai lá pra avenida. Foi todo mundo pra lá rancar fora a cabeça do prefeito.

Ela suspira, inconformada.

- Paciência, né? Deixa que eu me viro então, seu Elêu. ‘Té mais ver!

Seu Elêu aproveita pra dar uma espiadinha na bunda dela enquanto vai embora.

- Não fosse a patroa ainda tá viva...

AVENIDA GUNTHER ROTSCHEIDER

Assim que as portas da prefeitura são abertas, o enxame de pessoas indignadas invade o hall de entrada. Computadores, impressoras e carimbos pegam fogo com a quantidade monstruosa de pedidos de indenização. Ao prefeito, o que resta é sorrir amarelo e apertar as mãos do povo inconformado. Alexia vem chegando cabisbaixa à avenida e se espanta com a multidão.
 
- Pôxa! E não é que a cidade inteira veio mesmo pra cá? Nem nos comícios de Chicão já vi tanta gente junta, sô!

Vai entrando no meio do povaréu bem à paisana, esbarrando em várias pessoas e acaba tropeçando no pé de uma mulher, que a ajuda a se levantar.

- Mil perdões, moça. Ocê se machu... Alexia?
- Tia Flor? Quê que... Ah, esquece. Já ia perguntando o que a senhora veio fazer aqui...
- Nem te conto, sobrinha... Um desastre só! Aquelas explosão fez a terra chocalhar tanto que as oito varanda do meu prédio despencaram igual um dominó, sô. Sem falar nas vidraça e no Sabata, que acabou quebrando a perna. E, pra variar, sobrou pra síndica aqui resolver tudo.
- Kurt Cobain... Olha, queria muito te pedir desculpas por ontem, tia.
- Desculpas por quê? Até parece que eu não conheço minha filha! Ela só faz o tipo coração de pedra, mas sempre volta pedindo perdão, com aquele olhar de bezerrinha desmamada.
- Ah, mas eu morri de vergonha mesmo assim. A gente já tinha ficado tanto tempo sem aparecer em sua casa, e ela já veio de mão fechada pra cima da senhora...
- Pode escrever, Alexia. Um dia ela ainda encontra um marido que consiga amansar a leoa, e ocê vai ser a madrinha do casamento.
- É, e Kurt Cobain vai voltar...

Risos.

- Eu queria mesmo falar concê de novo. É claro que Bárbara não vai querer ir, mas depois de amanhã eu vou à capital buscar Clarissa pro aniversário dela. Quer ir comigo?
- Opa, claro que sim, tia! Fiquei de férias forçadas no conservatório mesmo...
- Depois nóis aproveita e começa a gastar a grana da indenização em todos aqueles shoppings da capital. Suas roupas tão de dar vergonha, olha só pra esse saco de batata, menina...
- Pôxa, comprei essa ontem, tia!
- Sério? De que mendiga?
- Tia Floooooor...