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sexta-feira, 29 de junho de 2012

CONTATOS IMEDIATOS(PARTE 1)


- A
h, não, Jakson!- Manolo discute com o irmão, suando em bicas de tanto arrastar o carro pela estrada- Tu não fez uma coisa dessas, véio! Com a Lili? Aquela mina... E ela ainda é de menor, seu nojento!
- De menor, não. Ela só é baixinha. Tem uns 29 anos, mas o pai força ela a dizer que ainda é pré- adolescente pra tentar conservar a pureza dela. EPIC FAIL!

Os dois gargalham.

- Ela até faz o buço, sabia?
- Credo, Jakson! Informação demais... Mas jura que ela não é de menor? Véio, faz um ano que eles moram lá no prédio e ninguém desconfiava...
- E ela tava com uma fome que eu nem te conto... A Lili não mede nem um metro e meio, mas cavalga melhor que muito boiadeiro... Suei feito um exorcista embaixo dela! No fim ela até me pagou pela transa, acredita?

No balcão da lanchonete, os três cantam animados seu blues recém- reencontrado, revezando as estrofes. Bárbara canta com uma voz aveludada e angelical, lembrando a Fernanda Takai, enquanto Alexia canta de um jeito mais rasgado e debochado.

“Não podiam entrar ou sair
Havia cercas na fronteira
Acreditem, Não podiam entrar ou sair
Havia fiscais na fronteira
Todas as ruas interditadas
Ninguém sabia o que fazer

Mandaram
Ligar a Tv ás 5 da tarde
O prefeito veio nos falar
Ligamos todas as TVs às 5 da tarde
O lorde da guerra veio nos falar
Que São Modesto mudaria para a melhor
Mas para isso
Tudo deveria desmoronar ”

- Arregaça no solo, Lexi!- Ulysses pede e a ruiva obedece, fazendo uns improvisos viajandões de fazer inveja a um Jimmy Page da vida. Os dois irmãos escutam o som distorcido da Schecter Tempest lá de longe e se espantam.

- Olha ali no meio do mato! Parece que é um posto de gasolina!
- Endoidou, Jakson? Pra que alguém ia colocar um posto longe da estrada daquele jeito?
- Vai saber? Se tem um teto de metal, só pode ser um posto de gasolina! Vamo logo!
- Eu não! Isso é doideira tua, miragem, pô!
- Miragem não tem som de guitarra, abestado! Vamo nessa!

Jakson agarra os dois bambus e sai arrastando tudo sozinho, passando por cima do irmão caçula.

- Peraí, pôrra!- Manolo corre atrás dele.

Eles saem arrastando a caçamba do carro na carreira pelo piso de chão poeirento do posto de gasolina e desmaiam de exaustão no meio do caminho. Josué está de vigia na entrada do posto e os avista. O trio continua a cantar.

“Então
São Modesto em chamas, baby
Jà não há nada a se fazer
Já disse! São Modesto em chamas, baby
Não há mais nada a se fazer
Agora é juntar os cacos
E por um milagre torcer

Agora vejo a verdade!”

Josué dá uns petelecos na porta da lanchonete.

- Jô?- Uli se preocupa- Qué que tá pegando?
- Vocês têm que ver isso. É engraçado demais! Vem ver!
- Que foi?- Pergunta Alexia.
- Não dá pra explicar. Vem logo aqui fora!

Eles pegam lanternas e o acompanham até a entrada da estrada de chão. Lá encontram Manolo e Jakson dormindo em cima de uma poça de barro, imundos e escalavrados, com as mãos ainda segurando as varas do carro de mão improvisado. Eles riem e cochicham.

- Kurt, meu Kurt! Eles tavam tentando arrastar tudo isso sozinhos?
- Hehehehehe, a caminhonete deles tá só pela metade!- Uli acha graça- Por quantas horas será que eles arrastaram?
- A placa é do Rio.- Bárbara constata- Pela cor das roupas deles, parece que eles atravessaram a noite passada matagal adentro. Tem umas 100 latinhas vazias de cerveja e energético na cabine.
- Parece até que eles saíram daquele filme, Mad Max- Josué recorda.
- Acho que a gente devia carregar esses dois e a sucata deles pro posto e ver se acordam amanhã.
- E se eles forem bandidos?
- Fracos desse jeito, esses dois não conseguiriam roubar nem nosso tempo- Diz Uli..
- Vamos jogar os dois na caçamba.

Os quatro arrastam o monte de sucata com os dois irmãos em cima para debaixo do teto do posto.

- Sabe que até que o barbudim tem uma bunda bonita?- Diz Alexia.
- Ué, virou necrófila agora, prima?
- Ocêis não sabem nem da metade...

Todos riem.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O ESTADISTA(PARTE 2)




N
a prefeitura, Chicão recebe seu advogado/ contador com um aperto de mão. Ele tem a fisionomia de Lex Luthor, com uma careca reluzente, óculos minúsculos, gordo, usando um terno branco com gravata vermelha.

- Agradeço desde já ter podido me atender tão em cima da hora, Felipe.
- Só você mesmo pra conseguir me arrancar do casamento de meu filho ... Não abro exceções pra nenhum cliente além do senhor.
- Então, vamos direto ao assunto. Viu só o estado em que deixei a cidade enquanto descia com o helicóptero?
- Vi sim. O que foi que te deu na cabeça pra resolver brincar de Iraque? Dá até pra ver seu impeachment dobrando a...
- Vira essa boca pra lá, Marreta! 
- Olha, Francisco.- Ele o encara friamente nos olhos- Sua loucura já é motivo de piada em todo o estado, e não estou falando só do seu programa de TV. Dessa vez vai dar uma mão de obra daquelas para tentar salvar seu pescoço.
- Foi justamente por isso que eu te chamei. Pelo que viu na destruição, acha que sai por quanto consertar tudo?
- Sinceramente, Chico? Acho que vai ter de se decidir entre uma coisa ou outra. Se resolver pagar por cada carro, casa, vidraça e poste quebrado, o que sobrar não vai dar pra asfaltar nem em volta da sua mansão. Se resolver seguir com a obra do asfalto, pouco mais da metade dos modestinenses vai continuar na pior.
- Tem certeza? Eu prometo esse asfalto novo desde os tempos de vereador!

Ele começa a caminhar impacientemente pela sala, enquanto toma um uísque.

- Bom, talvez se você vendesse a fábrica de compota...- Dr. Marreta responde, meio inocentemente, meio de deboche. Chicão engasga com o uísque e cai no chão, chocado com a proposta. O advogado/contador o ajuda a se levantar.

- Calma, Francisco. Era só brincadeira!
- Pois mais uma brincadeira sem graça dessas e você sai daqui direto pro xilindró! 

Ele empurra o Dr. Marreta de volta à cadeira.

- Olha aqui, você é disparado o contador mais desonesto e talentoso que já conheci. Foi indiciado 35 vezes, e mesmo assim continua em atividade! É o rei dos malabarismos de orçamento e da contabilidade criativa! Tem de existir alguma maneira de fazer as duas coisas sem falir a cidade. PRECISA ter! –Apanha o telefone sem fio- Dona Abelzinha? Mande entrar o vice e todos os secretários do governo.

Em 10 segundos todos estão dentro do gabinete. Chicão gesticula e pede ovações de seus comandados como um louco.

- Vamos, gente! Torçam por ele! Torçam!

Todos gritam o nome dele como se estivessem num estádio, até que Felipe se levanta e saca um revólver.

- CHEGA! TODO MUNDO QUIETO! Francisco, me dá logo os livros de contas!

Assustado com a arma, o prefeito vai até a gaveta da mesa e tira os livros da contabilidade com as mãos trêmulas. Com os óculos de leitura e uma máquina de somar em punho, Marreta folheia os livros por alguns minutos e faz vários cálculos, com o prefeito e seus secretários observando atentamente a imensa habilidade com números do contador. De repente ele levanta a cabeça, com os olhos brilhando e um sorriso estranho no rosto.

- Consigam todas as caçambas que puderem encontrar! Vamos começar a obra ainda hoje!
- ESSE É O MARRETA QUE EU CONHEÇO!- Chicão celebra- TOCA AQUI!


quarta-feira, 20 de junho de 2012

O ESTADISTA (PARTE 1)




A
ssim que põe a cabeça pra fora da sacada da prefeitura usando uma máscara por causa da poeira, Chicão leva um saquinho de urina na testa, mas não perde a compostura.

- Caros amigos modestinenses! Desde a 2ª Grande Guerra, quando meu avô Franz Rotscheider, o Modesto, foi enviado da Alemanha ao Brasil para fundar nossa cidade, nutrimos o sonho de trazer uma vida confortável e decente para cada sertanejo, imigrante e desqualificado que vive em nossa região. Depois de mais de 70 anos de batalha, o progresso chegou aonde antes só havia terra, pequizeiros e árvores secas.
- Destruidor!- Berra um cidadão indignado- Sem coração! Demoliu a cidade toda!
- Acalmem-se, por favor! Eu sei que houve um ligeiro erro em nossos cálculos. Compreendo que meus homens destruíram tudo, mas não foi em vão! Como já é sabido, não se pode fritar o ovo dentro da casca. A cidade está um caos, mas em uma semana, todo nosso amado solo estará coberto pelo melhor, mais limpo, lustroso e caro asfalto que ela jamais teve, e todos os danos serão compensados! Palavra de Chicão!
- Dane-se seu asfalto!- Berra outra- Bandido! Assassino! A explosão fez minha mãe ter um infarto, e minha filha abortou o filho de seis meses!
- Onde eu estava, mesmo?- Ele finge que não ouviu- Ah sim. Cada cidadão receberá o equivalente a todos os danos causados às suas propriedades, bastando vir à prefeitura pela manhã com um comprovante de residência. Com Chicão Rotscheider na prefeitura, nenhum modestinense fica na pior.
- E quanto aos postes tombados na avenida? Até quando a cidade vai ficar sem luz?
- Minhas carnes vão perder com o frigorífico desligado!- Grita um açougueiro.
- E os pacientes do hospital que dependem de máquinas para continuar vivos? Como é que fica?- Grita um médico.
- Eu mandei ter calma, meu povo! Garanto a vocês que, no máximo, até a meia-noite de hoje tanto a pavimentação como a energia elétrica terão sido retomadas. Palavra de Chicão!

Um gaiato grita lá do fundo da multidão.

- Quer dizer que se der meia-noite e um minuto, e nenhum dos dois tiver começado, nós pode voltar pra te encher de bolacha?- Pergunta um gozador. Todos caem na gargalhada, enquanto Chicão tenta esconder a cara de raiva.
- Sim, sim, vocês podem... - Ele responde com sarcasmo- Por ora, cada cidadão terá direito a um pote de 1 kg da minha tradicionalíssima e irresistível compota de cajá-manga Rotscheider como garantia de que tudo retornará a sua normalidade o mais cedo possível! Boa noite, meu povo!

Basta ouvir na compota e todos os cidadãos ficam em polvorosa. Ele joga um beijo para os modestinenses e volta para dentro do gabinete, chamando um segurança de lado.

- Sargento Tijolada? Quero os dentes daquele palhaço em minha mesa pela manhã.
- Afirmativo, prefeito.

Ele se volta para seus secretários, Dona Abelzinha e o vice.

- Eu sei passar mel no povo ou não sei?- Chicão pergunta.
- Sim, Sr. Rotscheider. O senhor sabe...- Seus comandados respondem, meio em tom de deboche.
Todos o abraçam, com sorrisos amarelos.
- Dona Abelzinha? Tente entrar em contato com Dr. Marreta. Tenho que tratar com ele ainda hoje.

Passam-se as horas. Enfim a luz da cidade volta a funcionar. Todos comemoram. Na lanchonete do posto...

Por Kurt!- Alexia se espanta enquanto faz as contas- R$ 2.000,00 num só dia! Fazia quanto tempo que a gente não via tanto dinheiro aqui no posto hem, prima?
- Acho que nem antes de meu pai me trancar aqui ele já tinha visto tanta grana de uma só vez.
- Claro que ocêis não teriam conseguido tanto sem os grandes dons de marketing do Ulysses aqui. - O caribenho se vangloria- Só eu consigo fazer um copinho d’água custar tanto como um galão de 15 litros sem ninguém desconfiar de nada.
- Hahaha, convencido...
Mais tarde, Alexia volta para a lanchonete trazendo sua guitarra, um violão Eagle rosa em degradê e um velho caderno.

- Aqui, gente! Consegui achar a letra da música!
- Maneiraço, ruiva!
- Quem vai cantar? –Pergunta Bárbara- Eu ou o vagabundo?
- Não, cantar cansa muito. Acho que vou ficar só...- Apanha dois paliteiros no balcão- Na percussão.
- Ocê não tem conserto mesmo...- Alexia reclama.

Na estrada, Manolo e Jakson improvisaram um carro de mão com o que sobrou do Pampa e umas varas de bambu amarradas com arame nas laterais e o arrastam vagarosamente pelo acostamento.

- Até que enfim esses postes acenderam!- Diz Jakson.
- A gente tem que dar um jeito de encostar o Pampa em algum posto, pra ver se dá pra encaixar o eixo e o motor de volta no lugar.
- Tu vive num mundo de sonhos mesmo, hem, ô lepra de óculos? Essa coisa não tem mais salvação! O eixo tá tão enferrujado que se alguém bater palmas perto dele, desmancha.
- Não esculacha, Jakson! A caminhonete tá um lixo, mas conseguiu trazer a gente até aqui!
- Tô sabendo...
- Bota mais muque nesse arrasto, mano! Nem parece que é sete anos mais velho que eu...
- Mais muque, mais muque... Só que tu comeu uma melancia inteirinha, e eu, tirando aquela espiga de milho, só tomei cerveja e energético o dia todo!
- Ah, não reclama, Jakson!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

EM CHAMAS


O
s cidadãos modestinenses, cobrindo os rostos com panos por causa da poeira, se aglomeram debaixo da sacada da prefeitura, um prédio branco de dois andares cuja construção remete ao Pathernon grego, munidos de facas, lanternas e foices, exigindo satisfações do prefeito.

- Destruiu toda minha loja!- Grita um.
- Tudo que era de vidro e cerâmica em minha casa virou pó!- Grita outra.
- Meu vaso sanitário soltou do chão e a água jogou ele através do telhado!- Reclama mais um.
- Meu carro ficou aos pedaços, e era zero Km! Nem tinha pagado a segunda prestação ainda!- Outra esbraveja. - Fez o marca-passo da minha mãe pifar!

Dentro da prefeitura, sob as luzes de emergência, o prefeito passa um esporro tresloucado em seus subordinados. Ele acaricia sem parar um pingente prateado enrolado na mão.

- QUE DESGRAÇA! QUE CATÁSTROFE! TUDO PARECIA TÃO GLORIOSO EM MEU SONHO! COMO UMA CALAMIDADE DESSAS PÔDE ACONTECER?! ESSE ASFALTAMENTO NOVO ERA O TRUNFO MAIOR DO MEU 2º MANDATO, PARA LIMPAR MINHA BARRA COM O ELEITORADO!

Ele se volta para o líder do esquadrão de bombas.

- VOCÊS ME GARANTIRAM QUE SERIAM EXPLOSÕES SEGURAS E CONTROLADAS, SEM CAUSAR MAIORES DANOS!
- Bom, Sr. Rotscheider.- Responde o líder do esquadrão- Há de se levar em consideração que eram 2 km de cidade recheados com 50 g de C-4 por m2. 150 g de C-4 bastam pra fazer o telhado de uma casa voar! Claro que isso não iria terminar bem!

Um homenzinho barrigudo, calvo e com um “penteado na horizontal” cobrindo a careca fala timidamente.

- Bom, Chico. Desde o começo nós tudo fumo contra sua idéia doida de fazê um espetáculo explodindo o asfalto, mas ocê não quis escutar ninguém... A secretaria de planejamento foi contra, a câmara de vereadores, até sua muié foi contra... Tudo culpa desse seu pingente! Toda vez que acaricia essa coisa, chove fogo do céu!
- E VOCÊ CALA A BOCA, SEU EDY DA MARCENARIA! VOCÊ É SÓ MEU VICE, E VICE NÃO FALA!

Uma coroa enxuta, de óculos com um cabelo loiro frisado e alto, entra no meio dos dois.

- Pelo amor de Deus, ocêis dois! Isso não é hora pra brigar!

Um tijolo atravessa a vidraça da porta dupla da varanda, caindo na cadeira do prefeito.

- Tem toda a razão, Dona Abelzinha. Vá lá embaixo e busque cafezinho e sequilho pra nós discutirmos a situação.
- Pois não, patrãozinho.

Dá um tabefe de leve na poupança dela e lhe cochicha no ouvido.

- Quando a algazarra acabar, me aguarde aqui no gabinete, com as luzes apagadas.

Ela se ruboriza de emoção.

- Sim... Patrãozinho...
- Então, senhores.- Ele retorna aonde havia parado-  Proponho que todos nós nos sentemos e comecemos a pensar num discurso para curar a hidrofobia de nossos conterrâneos...

Um boneco com a foto do prefeito no lugar da cabeça e a palavra MORRA! escrita na barriga atravessa a janela.
-Hum... Antes que acabem arrancando nossas cabeças- Ele complementa, apavorado.
- Bom- seu Edy tenta consolar o prefeito- Se serve de consolo, Francisco, todo mundo não vive dizendo que os político quer que o povo se exploda?
- Ah, volta pra marcenaria, seu Edy!

No posto há velas e lanternas espalhadas por toda parte. Alexia e Uli ajudam os carros a estacionarem embaixo do teto da varanda. Uli ainda ostenta uma cara horrível pelo que aconteceu com seu carro.

- Pôxa, em todos esses anos que eu te conheço, nunca te vi tão arrasado, Uli. Relaxa! A prefeitura vai ter de compensar todo mundo pelo estrago, uai!
- Esqueceu que eu nunca tirei carteira de identidade, gata? Eles só vão indenizar quem puder provar que é residente daqui! E do jeito que meu nome é sujo, se eu for pra frente da prefeitura eles acabam me levando pra jaulinha em Juiz de Fora.
- Também, a culpa é toda sua, né? Quem mandou gostar tanto de ser malandro, sô?
- Agora não, Lexi. Por favor.

O celular dela toca.

- Licencinha. Alô? Faustinho?

Do outro lado da linha, um garotão de corte militar, cercado de mulheres, com uma garrafa na mão.

- Opa, Alexia! Moça, ocê viu só essa zorra que o prefeito fez, sõ?
- Vi, sim...
- A cidade tá num breu danado! Tá tão escuro que a única luz em cima de mim é a do celular! Seguinte. Eu e uma turma aqui tamo organizando uma van pra ir num bundalelê lá em Juiz. Bebida, farra e algunas cositas más. Tá a fim, princesinha? Convida sua prima marrenta também, pra gente tentar amansar a leoa!
- Ih, Fausto, vontade não me falta. Mas com essa história do prefeito o posto ficou abarrotado de gente, uma bagunça só! Acho que a gente vai ficar arrumando as coisa aqui até de madrugada. Mas assim que tiver outra farra, não deixa de falar com a gente, tá?
- Paciência, né? Fica pra próxima, então.
- Beijo. Tchau! Fausto... –Alexia desliga o telefone.
- Óia, ruiva.- Diz Uli- Tava me alembrando aqui...
- Hum?
- Nóis já não tinha escrito uma música muito parecida com esse ocorrido quando eu fazia parte das Margarida Psicótica?
- Kurt, meu Kurt. Ocê tem razão!
- Já imaginou a oportunidade de levar ela pro estúdio depois dessa anarquia do prefeito? Ia ser a oportunidade que ocêis queriam pra voltar a fazer sucesso no estado, sô!
 - Gente, que idéia boa! Assim que a luz voltar, vou lá no quarto procurar a letra.
- Como que ela chamava mesmo, Lexi? São Modesto... São Modesto...
- Acho que era São Modesto em chamas, num era?



sexta-feira, 8 de junho de 2012

BUM!


P
assam-se as horas. Naquele posto de gasolina...

- Aí, Barbie. Onde é que a ruiva foi?- Uli pergunta.
- Adivinha...

Ela aponta com a ponta da caneta para o ventilador de teto balançando como se fosse cair e para os copos e pratos tremendo na prateleira. O jamaicano logo capta a mensagem.

-Pegou mais um freguês desavisado, né? Pobre alma...
- Às vez eu tenho inveja da disposição de minha prima. Tava ali fora, tocando violão, de repente o cara puxou conversa, aí já viu.
- Melhor ela pegar leve dessa vez. O último desavisado que subiu pra uma rapidinha nóis teve que levar pra tomar glicose na veia, lembra?

Lá no quarto, Alexia termina de vestir de novo seu uniforme de frentista na frente de um galalau enorme, encostado na cabeceira da cama, sem camisa e em estado de choque. Sai fumaça do canto dos olhos e da boca dele, escancarada.

- Ô, rapidinha boa! Gadinha pela gentileza, moço. Precisava mesmo dumas estripulias num dia cansativo desse. Se precisar, tem uma pomadinha aí no meu criado. By-ye!

Dá uma piscadela para ele antes de sair do quarto e joga um beijinho. O sujeito desmaia de exaustão e rola para fora da cama.

Lá pelas 4:30 da tarde, os obreiros enfim abrem uma greta no meio-fio para os carros poderem passar pela estrada improvisada. O fiscal abana uma bandeira vermelha e toca um apito para redirecionar o fluxo.

- Tá liberado, gente! Podem passar, mas um por vez!

Alexia, Bárbara e os outros dois lamentam que a entrada do posto de gasolina, socada no meio de um matagal 500 metros distante do asfalto, esteja se esvaziando aos poucos.

- Kurt, meu Kurt! Enfim a estrada voltou a fluir! A fatura foi boa enquanto durou...
- É, bem que podia ter um engarrafamento desse todo dia lá na estrada, pra gente voltar a fazer dinheiro aqui no posto. - Diz Bárbara- Deu pra conseguir uns 1000 só hoje à tarde, graças ao vagabundo e ao monstrengo russo.
- Polonês!- Josué retruca- Monstrengo polonês!

Risos.

- Amanhã de manhã eu volto lá no fornecedor pra esfregar esse dinheiro na cara dele, e jogar na vidraça de mãe 200 conto amarrados num tijolo!
- Não vai fazer uma besteira dessas, prima...
- Psiu, cala a boca aí!- Uli reclama- Vai começar o programa do prefeito!

Na mesma hora, todos os televisores do estado sintonizam um único programa. O narrador anuncia com uma voz característica de animador de auditório.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos.

- O que será que esse doido quer com a gente agora?- Bárbara pergunta.
- No mínimo- Uli faz piada- ele quer lançar o programa espacial modestinense.

Risos.

O prefeito é uma figura pitoresca. Homem alto e robusto, seu rosto lembra Floriano Peixoto, mas com feições germânicas. Usa um terno verde escuro uns dois números abaixo do recomendado, com um pequeno broche da bandeira de Minas Gerais na lapela. Ele fala com uma entonação semelhante à do comediante Groucho Marx, porém com um sotaque meio alemão, meio caipira, arrastando os erres.

- Boa tarde, muito boa tarde, caros conterrâneos modestinenses e da grande Minas Gerais. Fecha a câmera em mim, Olho Mágico! Isso... Acaba de entrar no ar mais um Diário do Chicão para todos vocês! E essas são as principais manchetes da tarde.

Narrador e narradora se revezam anunciando as notícias com um entusiasmo que espanta e irrita ao mesmo tempo.

- Filme mortal! Matou a mulher e levou o cadáver ao cinema!
- Parabéns para ele! Quis assaltar a festa e acabou caindo na farra!
- Tumba do faraó! Mantinha o cadáver do marido enfaixado no guarda-roupa!
- AI! Ladrão tenta explodir cofre e perde o próprio braço!
- Haja sangue! Assassino da Caixa de Pizza faz mais uma vítima!
- Banho de roupa! Doméstica morre afogada em máquina de lavar!
- O programa de hoje tá de arrebentar, não é verdade?- Chicão interrompe a narração- Mas antes de tudo isso...

Nesse momento um carro de som sai pela estrada improvisada, trazendo a voz do prefeito para a fila de carros na estrada. Nenhum dos motoristas presos no engarrafamento entende o que está acontecendo.

- Sei que devo muitas explicações à população pelo engarrafamento na entrada da cidade que durou a tarde toda.
- E deve mesmo, seu demente!
- Shhhh!- Retruca Alexia- Silêncio, Barbie!
- Esse incômodo não foi em vão. Tenho uma notícia inacreditável para o meu amado povo. Há 16 anos, quando fui eleito pela primeira vez como vereador, prometi que todo o asfalto de nossa cidade seria refeito. Pois bem, lhes informo que, depois de dois mandatos no executivo, enfim consegui aprovar o projeto de repavimentação de nossas ruas!

A cidade entra em polvorosa. Todos dançam em casa e soltam rojões.

- Até que enfim, hem?- Alexia agradece- Mas ainda tem alguma coisa errada nessa história, ô se tem...
- Isso explica a algazarra que meus homens fizeram durante todo o dia. Em cada metro quadrado da cidade, foi instalada sob o asfalto uma carga de explosivos plásticos, que irão esmigalhar instantaneamente o que resta dos paralelepípedos para que os construtores possam começar o serviço de pavimentação ainda hoje!

Os engarrafados ficam atônitos com a revelação, assim como a população da cidade, que pára de festejar no mesmo instante.

- Explosivos?
- Eu sabia...
- Como assim? Ele vai explodir a cidade?
- Por favor- Ele continua- peço a todos para se afastarem o máximo possível do asfalto para que o festival de fogos comece. Todos que estiverem na rua têm 1 minuto para entrar em casa!

Soam as sirenes. As pessoas entram correndo, em total pânico, dentro de suas casas, dos armazéns e bares.

- Vai explodir! Vai explodir!- O esquadrão anti-bombas grita pela cidade com os megafones, ao passo que começa a soar uma música maravilhosa pelos auto-falantes.
- Agora deixo vocês com a Abertura 1812 de Tchaikovsky- Diz o prefeito- Até a volta.

Assim que toca o crescendo da gloriosa música, o esquadrão de bombas aciona os detonadores. No mesmo instante, as pequenas bombas pipocam por toda a cidade, rompendo o asfalto como pequenos vulcões e desintegrando cada pedaço de pedra e piche que levantam. As bombas fazem um som estrondoso e levantam uma enorme nuvem de poeira. A terra treme embaixo dos pés de todo mundo na cidade e na estrada. Nos bares, copos e garrafas despencam das prateleiras. Alarmes de carros são acionados, vidraças são estilhaçadas. Mas, como se tivesse sido cronometrado, assim que a música termina, a última carga de explosivos detona. Um minuto de silêncio. Na estrada o assombro é geral. No posto, Bárbara, Alexia, Josué, Uli e os fregueses se esconderam todos embaixo das mesas e do balcão.

-Por Jah! Que merda foi essa, sô?- Uli sai debaixo do balcão todo trêmulo.
- Que estrago!- Alexia se espanta- Olha o tamanho do rachado na parede!
- Tudo que é de vidro e louça na lanchonete despencou!- Bárbara lamenta- E agora, como a gente vai atender os fregueses, sô?
-O Fleet! Que será que houve com meu... Meu carro!- Uli sai correndo em desabalada, passando pelos estilhaços da vidraça da porta no chão. Alexia vai atrás dele. O sorriso imortal de Uli desapareceu ao chegar ao estacionamento. Ele está imóvel, chocado e soluçando ao ver todos os vidros do Fleet estourados. A ruiva vai consolar o amigo.

- Kurt Cobain, que desastre! Olha, se te servir de consolo, as janelas do posto e do hotel estouraram, toda a louça da lanchonete, meu óculos, o de Bárbara também...
- É, tem razão, Lexi. Ainda bem que meus óculos são de plás...

Ele tira o Ray-ban rosa- choque do bolso e se espanta quando o puxa com as lentes quebradas ao meio. Ele começa a choramingar no ombro dela.

- Ameaçado de morte, ameaçado de prisão, o carro estragado... Tudo num único dia! Agora só falta...

Lá na avenida da cidade, vários postes de luz tiveram a base enfraquecida com as explosões e envergaram, deixando a cidade e a estrada sem luz, exatamente na hora em que o terminava de se pôr.

- Maravilha, Jah... Nota dez... Dá pra me deixar sozinho um tempo, Lexi?- Lamenta o caribenho inconsolável, enquanto se debruça sobre a lata do seu carro para chorar.


 *Nota: O personagem partiu da pergunta "O que teria acontecido se o Enéas tivesse sido nosso Presidente?"