Total de visualizações de página

quinta-feira, 31 de maio de 2012

TAL MÃE, TAL FILHA(EPÍLOGO)

N
o apartamento de Flor, a mãe de Bárbara conversa com o marido no quarto. Ele, um índio obeso, cheio de manchas de comida no pijama, deitado na cama de barriga pra cima, parecendo uma bola de praia meio murcha, fala com um tom de voz rouco e gorgolejante.

- Bárbara teve aqui? Quando?
-Ah, Vai dizer que não escutou o berreiro, Binidito Ontonho!
- Por que ela não veio me ver? Nem desmai... Ehr... Dormindo eu tava!
- Ah, meu bem. Desde que ocê forçou ela a se mudar pro posto, tudo que ela sente por ti é raiva.
- Bom pra moldar o caráter dela. Pra conquistar a independência.
- Conquistar a independência? Faz dez anos que ocê mandou ela pra lá, e faz dez anos que ela te odeia, Tonho! Ela e Alexia vivem numa pobreza maior que a nossa!  Se visse como as duas tavam vestidas...
- Deixa as duas, Flor...
- Sabe como sua filha é, Tonho. Ela vai tocar o interfone todo dia até eu perder a paciência e dar pra ela o dinheiro que a gente não tem. Eu vi a tristeza no rosto dela. Quase chorou enquanto comia! Se ocê quer que ela volte a gostar docê, deixa ela fechar o posto! É tudo que ela mais quer no mundo!
- Fechar MEU posto?

Ele se levanta num salto.

- NUNCA! Foi lá onde comecei minha vida, e é lá onde ela terminará! Pode ser que os negócio teje mal hoje, mas amanhã...
- Acorda, homem! Ocê já entregou o negócio falido pra sua filha! Continuar mantendo em pé aquela birosca é maluquice. Sabe melhor que ninguém que ela odeia morar longe daquele jeito da cidade!

Ele se deita de novo, como uma árvore caindo.

- O posto continua. Vai buscar o mamão e a pinga.
- Diabo! Por que eu nunca me divorciei?
- Porque não tem como pagar um advogado?

Lá no posto, Alexia e Bárbara já estão devidamente uniformizadas e atendendo os fregueses.

- Tenho que reconhecer vagabundo. – Bárbara conta o dinheiro no caixa- Ninguém vende igual ocê! R$ 700,00 só em uma hora de trabaio? Como foi que ocê conseguiu? Óia só, tem até uma nota de dólar aqui!
- Debaixo de um calor de 40 graus no meio-dia e preso num asfalto fervendo, ocê é capaz de fazer qualquer bobagem por um copo d’água! E o Jô também deu uma forcinha... Óia ele lá.

Lá fora, o brutamontes sacode um motorista apavorado de ponta-cabeça pelos tendões, fazendo cair um monte de moedas dos bolsos dele.

- Viu só? Eu sabia que tinha mais dinheiro dentro desse seu terno. Adonai não perdoa quem mente! 
- Kurt, meu Kurt... Como ocê consegue fazer amizade com esse tipo de gente?
- Eu sou um cara muito persuasivo, Lexi. Ocê namorou comigo, conhece bem minha lábia.

Dá um beijo na bochecha dela.

- Convencido...
- Com esse dinheiro todo que ocê conseguiu- Bárbara comenta- vai dar até pra chamar um pedreiro pra remendar a pia que ocê arrancou!
- É o mínimo que eu podia fazer depois de te ver daquele jeito no bar, sô.
- larga mão de contar vantagem e vem me ajudar a atender os freguês lá fora, Uli.
- Na hora!

No fim da fila de carros, quase chegando à fronteira da outra cidade, Jakson e o homem que lhe ofereceu carona estão sem entender nada.

- Mas o que é que tá causando esse engarrafamento todo?
- E isso não pára de crescer. Já deve ter uns três quilômetros de carro atrás da gente! Como será que o Mad tá agora?
- Quê que tem eu?

Eles tomam um susto. O moleque aparece na janela do carona, comendo uma melancia inteira com as mãos.

- Manolo? Quê que tu tá fazendo aqui, véio?
- Ué, essa fila já tá chegando lá onde ‘cês partiram o Pampa no meio! Arrumei carona com outro cara, que veio rebocando o resto do carro com a caminhonete dele... E a gente parou aqui no engarrafamento.
- E parece que todo mundo ainda vai ficar aqui um tempão. Ainda não vi nenhum carro se mexendo lá adiante.
- Vai melancia aí? Afanei de um caminhão-quitanda ali atrás- Ele oferece uma pepita de melancia com o suco escorrendo pelos dedos cheios de feridas e pontos de pus. Jakson e o motorista vomitam de nojo.
- Mais pra mim. - O garoto fanfarrão enfia a cabeça inteira dentro da fruta.
_______________________________________________________________________________

E aí, gente? Como vai o andamento da história?
para aqueles pensando em desistir de acompanhar o blog, fica um aviso: A partir da semana que vem é que a trama (se é que dá pra chamar assim...) vai começar mesmo. Aguardem e confiem!






segunda-feira, 28 de maio de 2012

TAL MÃE, TAL FILHA (PARTE 2)



A
s primas fazem uma pequena “jam session” com violõezinhos surrados para tia Flor. Tocam em perfeita harmonia um solo no estilo barroco.

- Ocêis não pioraram nem um tiquinho, hem?- Flor elogia- Que talento!
- Bom, mãe. Agora o assunto que eu vim tratar com a senhora. O posto tá tão miserável que hoje, quando eu fui encomendar a feira pra ele, só tinha 100 na carteira, pra uma conta de 300. Paguei um King Kong na frente de todo mundo e quase soquei a cara do atendente...
- Como assim “quase”?
- Ela tem tentado se segurar.
- Quer dizer que minha filha caipirona que vive dando o troco em tudo que é marmanjo tá tentando virar uma pessoa civilizada, sô?
- Não é fácil, mãe. Eu saí de lá quase vomitando os pulmão. Tive de deixar meu celular como garantia. De forma que, eu vim ver se a senhora tem como me emprestar algum...
- Eu, minha filha? Olha pra mim, olha pra nossa casa! A gente já mora nesse prédio há 36 anos! Nóis nunca conseguiu juntar o bastante pra ir embora daqui, ocê sabe. Ainda vivemo da aposentadoria de seu pai. Sua irmã ainda dorme no berço que era seu!

Bárbara fica séria como uma esfinge e faz pouco caso do que a mãe disse.

- É, pra emprestar pra filha de verdade não tem, mas pra mandar a caçula adotada pra capital, nunca falta um tostão...
- Ih, já vi tudo...- Alexia já se prepara pra apartar a briga.
- BÁRBARA YRACEMA MOURA BERNARDES! MAIS RESPEITO COM SUA MÃE!
- É... Eu devo ter sido uma enorme decepção pra senhora, mesmo. Como a cria do seu sangue não conseguia pinotar sem cair, precisou recorrer ao sangue dos outros pra realizar seu sonho frustrado de infância, né?
- Não me faz buscar lá dentro o rolo de macarrão, mulher mal-criada!
- Que foi? Não consegue aceitar a verdade, mãe? Você me largou, sim senhora!- A moça vem de indicador em riste pro nariz da própria mãe, pronta pra guerra- Largou e foi caçar aquela pivetinha pra ensinar ela a ser tudo que eu quase morri tentando fazer pra te ver sorrindo!
- Baaaaaaarbie, controla a boca, prima!

A mãe agarra a filha pela gola da camisa e a fita nos olhos com o punho erguido.

- Nada como o bom e velho diálogo...- Alexia ironiza a situação.

Logo as duas saem correndo do prédio. Na calçada, Bárbara ainda grita com a mãe.

- E SÓ ESPERO QUE AQUELA PESTINHA NUNCA TENHA FEITO XIXI NO MEU BERÇO!

Um vaso de flores voa pela varanda do apartamento e espatifa na calçada. Bárbara, inconformada, senta-se à sarjeta para chorar.

- Por mais que negue, Barbie- Diz Alexia- ocê e tia Flor são uma o cuspe da outra... Mas pensa assim, dessa vez ocêis duas só ameaçaram partir pra ignorância!
- Deixa eu chorar em paz, prima! E agora, como eu vou pagar aquela dívida, sô? Me diz! Como?
- Dinheiro vai, dinheiro vem... - Alexia lhe oferece o ombro. - Não importa a quantidade, uma hora ele sempre aparece.
- Ocê sempre com essa falta de preocupação com a vida...
- E ocê sempre querendo que tudo saia do seu jeito, né?

O celular de Alexia toca no bolso. O ringtone é Rape Me, do Nirvana.

- Dá licencinha. Ih, a cobrar... Oi! Fala, Uli... O quê? Fala mais devagar, sô! Sério? Tanta gente assim? Tá, tá! A gente dá um jeito de voltar. Não vai roubar um centavo, hem? Brigada, Uli! Tchau!
- Que foi agora?
- Uli disse que a entrada da cidade tá interditada e tem centenas de carros parados na estrada, o posto tá lotado de gente!
- Não brinca!- O semblante dela muda no mesmo instante- Centenas?!
- Tá vendo, prima?

Bárbara joga bolsa longe e esbraveja.

- Cacete! Por que essas coisa só acontece quando eu não tô lá no posto, sô?
- Não importa, a gente tem que dar um jeito de voltar pra casa, uai! Vamo!


Mas elas chegam à entrada da cidade e vêem que simplesmente não tem jeito de sair. Um monte de moradores escora nas cercas de segurança, sem entender o que está acontecendo.

- Gente, nunca tinha visto tanto carro junto, Barbie!
- Tem até fila tripla, sô!
- E se a gente tentasse conseguir uma bicicleta emprestada?
- Pedalar cinco quilômetros com essa calça apertada? Sem chance!
- Sei lá, a gente tem que sair daqui de algum jeito.
- Ali, vamo perguntar praquele fiscal de obras! Moço? Moço? Que palhaçada é essa que ‘cês tão fazendo aqui?
- Ordens da prefeitura, senhorita. Ninguém pode entrar nem sair da cidade até segunda ordem!
- Mas... Isso é loucura!- Alexia se indigna- Olha só pra essa fila de carros lá fora, sô! Como eles vão passar?
- Meu negócio é há 5 km da cidade!- Bárbara entra no meio da discussão- Eu tenho que voltar depressa pra lá antes que assaltem o lugar!
- Sinto muito. Ordens são ordens. Mas já estamos trabalhando numa passagem provisória, que deve ficar pronta até o fim da tarde.
- Provisória? Como assim?
- Querem saber? Assistam ao programa do prefeito hoje. Não tenho permissão para dar mais nenhuma informação.

Bárbara espreme os punhos de fúria.

- Ah, mas vai falar, sim!

Ela já se prepara para enfiar uma na boca do fiscal abusado, e Alexia entra no meio.
- Calma, prima! Não vai quebrar o recorde de um dia todo sem bater em ninguém!
- Deixa só um pouquinho, vai, prima?- As pálpebras dela até tremem de raiva- Cada fibra do meu corpo exige que eu dê uma nesse cara!
- Segura mais um pouco, Barbie! Amiga... Amiga... Amiga...
- Viva a amizade!

Ela enfia um cruzado na cabeça dele, que desmaia. Todo mundo aplaude. Ela sai abrindo caminho no meio da multidão empurrando todo mundo, passa por debaixo do arame farpado e o deixa esticado pra Alexia passar.

- Caramba, não acredito que ocê fez mesmo isso, prima!
- E é só o começo. Óia só!

Elas passam diante de um homem esperando na moto e ela o arranca de cima dela.

- Êpa! Quê que é isso, moça?
- Conta pra polícia e eu te atropelo! Sobe logo, Lex!
- Desculpa, moço.- Alexia fica toda sem graça-  Ela tá de TPM. Daqui a pouco a gente devolve. Espera aí nesse mesmo lugar!

Elas dão meia-volta e vão embora a toda, deixando o dono da moto impávido.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

DE VOLTA ÀS RAIZES

Enquanto não arrumo inspiração pra ilustrar os capítulos, atendendo a milhares de pedidos (todos meus...) resolvi trazer Alexia de volta ao seu eu original.

Ela era assim...

E voltou a ser assim:
Mulheres e o cubo mágico... Qual o enigma mais incompreensível?

Talvez na sexta voltaremos com a programação normal...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TAL MÃE, TAL FILHA (PARTE 1)



J
á é quase meio-dia. Do alto da torre da igreja, o padre toca Ave Maria num violino para atrair as pessoas para a missa. Nas ruas, vários caminhões com o emblema da prefeitura passam, e atrás deles homens usando macacões, óculos de proteção e capacetes saem dando golpes de picareta no asfalto de paralelepípedos, plantando umas bolinhas alaranjadas com fios saindo pelo topo, cimentando por cima e deixando por toda parte faixas de “PERIGO! NÃO ULTRAPASSE!”. Todo mundo fica olhando para a presepada e coçando a cabeça, sem entender nada. Os carros começam a amontoar na entrada da cidade, sem poder passar, pois armaram uma tela de arame ao longo da fronteira. Alexia e Bárbara chegam a um edifício bem antigo de quatro andares, paredes beges encardidas e janelas de vitral antiquado.

ED. OTTO ROTSCHEIDER

- E aí, prima?- Alexia pergunta, amarrando novamente sua bandana de estimação na testa- Tem certeza que quer falar com sua mãe? A última vez que ocê e tia Flor tentaram conversar foi no réveillon, e precisaram usar a mangueira de incêndio pra apartar ocêis duas!
- Querer eu não quero, mas não tem outro jeito, né?

Ela toca o interfone do prédio. Um cachorro late.

- Quem é?
- Sou eu, mãe!
- Filha! Que milagre é esse, sô?

O portão eletrônico se abre. Um cachorrinho chihuahua sai pela portinha de animais como uma bala de canhão, voando em cima de Bárbara.

- Sabata! E aí, cachorrinho da mamãe? Beijinho, beijinho! Puxa, andou engordando, hem?
- E pensar que ocê tava quase matando um na rua agora há pouco...- Alexia brinca, enquanto arruma o batom nos lábios.

Elas param em frente à porta do apartamento. Bárbara respira fundo. Elas passam ao lado da estante de troféus da família, todos de Clarissa. Bárbara finge que não viu e entra na cozinha, onde a mãe a espera pronta para dar um abraço. Ela, uma cinqüentona enxuta, com uma vasta cabeleira praticamente igual à da filha, pele morena e leve sobrepeso, usa um vestido azul-marinho, um rosário no pescoço, avental e óculos.

- Que surpresa, garotas!
- Oi, tia Flor!
- Alexia, paixão! Dá um abraço na tia! Ainda usando esse pano véio na testa, menina?
- É de estimação, né, tia?

Ela vê um pedaço da tatuagem nova da sobrinha, escapando para fora das roupas e dos cabelos presos em duas chuquinhas.

- Credo! Que foi que ocê andou aprontando, Alexia?
- Nem queira saber.
- Jesus! O que aconteceu, minha filha? Parece que um trator te atropelou! Tão magrinhas, as duas! Anda, vão pegar almoço procêis! Tem arroz, angu e pudim de carne no forno.
- Brigada, tia.

Elas começam a comer feito flagelados africanos. Flor fica horrorizada e dá nelas com o pano de prato.

- Cruzes! Cadê os modos? Nunca viram comida antes?!
- Foi mal, mãe...
- Por onde anda a Clá, tia Flor?
- Esqueceu? Ela vive na capital desde o começo do ano. Tem ralado feito uma condenada pra fazer parte do time de ginástica do estado.
- Vi as fotos e as medalhas dela na estante.- Alexia comenta- Ela tá virando um mulherão, hem? Aposto que as colegas têm até medo dela!
- E pai?- Bárbara intervém, para parar de ouvir sobre a irmãzinha- Cadê ele?
- Seu pai é... Seu pai, né? Depois que te mandou pro posto, faz dez ano que não vê a cor do sol. Fica o tempo todo trancado no quarto, não deixa ninguém entrar... E como anda o posto?
- Nem me lembre, mamãe. Detesto aquele lugar do fundo da minha alma!- Ela meio que afunda a cabeça entre os ombros e começa a lamentar- Detesto, detesto, detesto!! Não consigo entender porque ele insiste tanto para eu continuar vivendo ali. Já não tem mais gasosa há três anos, só aparece mendigo e drogado por lá e o prédio tá caindo os pedaço. Hoje de manhã o Ulysses fez o favor de arrancar a pia do banheiro pela vigésima vez.
- Ulysses? Continua transando com aquele vigarista, Alexia?
- Kurt, meu Kurt! Claro que não, né, tia? A gente é só amigo, mas ele continua azucrinando a gente todo dia.
- Fez muito bem em passar a rasteira nele, Alexia! Aquilo não vale um tostão furado, sô!
- Vem falar pra mim?

Lá na estrada, a fila de carros aumenta cada vez mais, enquanto Uli e Josué carregam as coisas pra dentro do posto. O gigante carrega quase tudo nos ombros e o malandro caribenho tenta arrastar só o saco de laranjas no chão.

- Tá certo que eu sou judeu, Ulysses, mas não quer dizer que eu faria qualquer coisa pra conseguir dinheiro...
- Já sei, Jô! Que ocê acha de eu montar uma barraquinha de plástica popular? A mulherada ia sair de cara nova a cinco real!
- Adonai, fique atento a essa alma ...- O amigo responde debochadamente, olhando para o céu.
- Ah, que foi, Jô? Se na Índia dentista atende no meio da rua!
- Cada vez que você bafora esse seu cachimbo, suas idéias pioram, já notou?
- Se barraquinha de plástica não der pé, quem sabe então de exame retal?

O comparsa não diz nada.

- Oh, Jah! Meu corpo desacostumou mesmo com o trabalho... Mas que buzinório será esse lá fora?

Eles põem a cara pra fora da lanchonete e avistam uma fila de mais de 20 km de carros na estrada.

- Uau... O que será que aconteceu lá na cidade?
- Quem liga?

Ele corre até o freezer e apanha fardos de latas de refrigerante e uma caixa de copinhos de água mineral.

- Vamo lá faturar! Issa!

terça-feira, 15 de maio de 2012

UM TOUR PELA CIDADE (EPÍLOGO)



O
 celular gigante dele, de meados dos anos 90, toca. O ringtone é Legalize it, do Peter Tosh. Ele atende.

- Bonjour? Lexi, Lexi, Lexi! Qualé a boa? Hum... Sério? Podexá, que eu já chego aí.

Uli sente a terra tremendo sob seus pés. Olha para trás e vê rolos compressores e escavadeiras vindo em sua direção. Eles buzinam e ele se assusta.

- ÔU! ÔU! ÔÔÔÔÔU! QUE NEGÓCIO É ESSE?! PERAÍ!!
- Tira essa lata daí da frente, Uli!- Fala o peão de obras- A gente tem que abrir um caminho por detrás da cidade!
- Como assim?
- Não é da sua conta! Sai logo da frente!
- Tá bom, já vou! Já vou!

Ele sai em disparada.

BAR E CASA DE SHOWS PÉS JUNTOS.

Um prediozinho azul-claro de dois andares, socado no fundo dum beco na periferia da cidade. O barman, um homem em seus 40 e poucos anos, de cabelos compridos e barba ruiva, com uma cicatriz no olho direito e usando a camiseta da seleção escocesa de futebol, atende um sujeito com cara de jagunço.

- Vai querer o quê?
- Leite. On the rocks. De vaca velha.

O barman imita o sujeito em voz baixa e entra na cozinha. Alexia ajuda a prima a entrar no bar.

- Oi, meninas!
- E aí, escocês? Barbie aqui passou por um stress daqueles agora há pouco.
- Tô vendo... Quer o quê, Bárbara.
- Drury’s. Dose dupla. E... Vira metade do açucareiro dentro do copo!
- Bebendo cedo assim? Não quer só água com...
- Drury’s, escocês. Drury’s!- Ela soca o balcão, começando novamente a chorar.
- Pega leve, prima. Fiquei até surpresa porque ocê agüentou tudo sem voar no pescoço do fornecedor. Pra uma primeira tentativa de engolir a raiva até que foi bem, sô.
- Mas a que preço, Lex? O nervo não passou até agora, e eu aposto que minha cara vai amanhecer lotada de espinhas!
- Não exagera, Barbie.
- Nesses dez anos de posto, eu nunca pedi fiado pra ninguém. É uma sensação horrorosa!
- Aqui, Bárbara.- Escocês serve o pedido dela- Toma devagar.

Vira metade do copo num gole. Ele se espanta.

- Meu São Patrício!Vai com calma aí!
- Agora to lembrando, escocês... - Barbie lambe o resto do açúcar do copo- Ocê ainda não pagou pra gente nossos dois últimos shows. Quando vai sair?
- Paciência, Bárbara. Depois que o prefeito subiu o imposto do barril de chope, o lucro dos bares caiu muito. O mínimo que posso fazer agora é continuar pagando com gole...
- Acontece que eu fiquei devendo R$ 200,00 pro fornecedor de mercadorias do posto, e se eu não pagar até terça que vem, só deus sabe o que vai ser de mim e de Lex!
- Deus e Kurt!- Complementa Alexia.- Me dá aí uma mineral com gás?
- Na hora. Toma aqui seu leite, cabra homem... - Ele curte com a cara do outro freguês- De casualidade, qual seu nome?

O homem abre o sobretudo, mostrando uma escopeta surrada com um emblema de caveira incrustado no cabo .

-Antôim.- Responde com uma voz tumular-  Antôim das Morte. Vim aqui fazer um trabaim pra um fazendeiro, mas se ocê não parar com amolação, faço mais um de graça!

Escocês engole a língua e dá um pulinho para trás. Uli chega.

- Pronto, gatas. Demorei mas cheguei. Trouxe uma garrafada da feira pra ver se te acalma, Barbie.
- Valeu a força, Ulysses.- Alexia agradece- A coisa foi séria.

Bárbara vira a garrafada goela abaixo num gole só, quase engasgando.

- Vai com calma aí, Barbie!
- Me deixa por um tempinho, prima... E aí, vagabundo? Topa passar no fornecedor e levar a encomenda pro posto?
- Tem que ver se a gasolina dá. O tanque do Fleet tá quase vazio.

Alexia dá 50 reais pra ele.

- Então ocê abastece e leva pra gente? Toma a chave da loja e o recibo.
- Ocêis não vêm junto? Ela devia tirar uma palhinha...
- Não dá ainda. A gente precisa tentar conseguir o resto do dinheiro pra pagar a encomenda.
- Então, tá. ‘Té mais.
- Vai logo, vagabundo!

Uli põe a cabeça pra fora do bar e berra.

- Ô JOSUÉ??

Manolo e Jakson enfim conseguiram uma ajuda pra levar o carro quebrado ao conserto. Amarraram o eixo da caminhonete ao pára-choque de outro carro. Manolo volta pra dentro do carro.

- Viu só, mano? Eu disse que as coisas iam melhorar pro nosso lado. Pode puxar, moço!

Mas assim que o motorista dá a partida, arranca o eixo da caminhonete, e o motor vai junto.

- CARALHO! Mas que merda!

Jakson, furioso, começa a estapear o irmão caçula.

- Eu te disse que essa lata de sardinha não agüentava descer quase 20 quilômetros  na banguela, cabeção!
Onde eu tava com a cabeça quando aceitei vir nessa viagem, meu deus? E agora? O que nós vai fazer, pôrra?

O motorista dá marcha ré quando percebe que destruiu a caminhonete.

- Caramba, olha o que eu fiz! Desculpa aí, gente.
- Faz mal, não. - Manolo Lastima- O carro tava todo mastigado e cuspido mesmo.
- De qualquer jeito, eu vou ajudar vocês. Aqui tem 100, 200, 300 reais. Deve servir pra recolocar tudo no lugar em algum posto por aí. Eu levo vocês mais adiante pra conseguir ajuda, concordam?
- Opa, claro que sim!
- E a gente vai deixar nossas coisas aqui, no meio do nada, pra algum malandro aparecer e levar tudo? De jeito nenhum!- Manolo reclama.
- Bom. Se tu faz questão...- Jakson aproveita a oportunidade- Então tu fica aqui tomando conta, e a gente vai buscar o guincho, tá certo?
- Peraí, não foi isso que...
- Simbora! Pisa fundo!!- Jakson grita para o motorista. Ele obedece e os dois deixam Manolo desesperado na estrada. Jakson sai gargalhando.

- BABACA! IDIOTA! TRAÍRA! EU VOU TE VIRAR DO AVESSO QUANDO EU TE PEGAR, SEU CAVALO! VOLTA AQUI! VOLTA!!!
-  Aleluia! Enfim vou poder descansar da cara do retardado do meu irmão! UHÚÚÚÚ!

Jakson está tão feliz que  até tenta beijar o motorista e toma um tapa na orelha.

- Qualé, cara? Tá me estranhando, é?
- Opa, foi mal. É que... Eu varei a madrugada tomando bebida energética...













segunda-feira, 7 de maio de 2012

UM TOUR PELA CIDADE (PARTE 2)




U
ma hora e várias tragadas mais tarde, ela faz as encomendas.

- Prontinho, Bárbara. 2 sacos de laranja, 2 melancias, 1 quilo de maçã, 2 abacaxis, um fardo de leite, 3 sacos de arroz, 3 de feijão... Quanto de carne?
- Não sei... Só uns 10 quilos. Quase ninguém vai lá, mesmo.
- Precisando de mais alguma coisa? Cerveja, refri?
- Não, não. Ainda tem lá o estoque do ano passado. Acho que, quando muito, a gente teve só uns vinte fregueses desde que o ano começou.
- Entendi. A soma dá... 300. E então, como é que ocê vai pagar por tudo isso?

As pessoas na fila do fornecedor estão impacientes. Bárbara pega a carteira na bolsa de couro cru e quão devastador é seu espanto ao ver que tudo dentro dela são seus documentos e uma nota de 100! Ela tenta evitar que seu sangue ferva. Espreme os punhos, mordisca os beiços mas consegue respirar fundo e acender mais um cigarro.

- Olha... Ocê me conhece, Teodorico. Não sou de dar calote em ninguém, mas a fatura do posto tem sido um horror... Sabe que ele fica muito afastado da estrada, a empresa até cortou o fornecimento de gasolina, mas meu pai me prende lá! Não me deixa mudar nunca de profissão! Eu ia adorar pôr fogo naquele bueiro, mas aquele posto é a coisa mais importante da vida dele. Eu... Eu posso não ter agora o que baste para pagar por tudo, mas vou deixar aqui R$ 100,00 e mais... Meu celular, isso, meu celular. Daqui uma semana, eu volto pra buscar o celular e trago o resto da soma.

O homem olha meio torto pra ela, que está tão desesperada que sua túnica ficou empapada de suor. Os pulsos dela até tremem. Ela já está a ponto de pedir de joelhos.

- Meeeeee Ajuuuuuuuuda!
- Tá bom, tá bom... Até terça que vem, entendeu?
- Brigada! Brigada! Brigada!
- Mas a gente não entrega pra quem faz fiado. Vai ter de carregar tudo sozinha.

Essa resposta é um tremendo soco em seu estômago. Ela sente o mundo girar ao seu redor e encolher. Cerra os punhos, pronta pra matar o homem de porrada, mas consegue fazer um esforço sobre-humano para se segurar. Pega a nota do caixa e vai andando, bem vagarosamente, para não perder as estribeiras na frente de todo mundo. Mas, assim que avista uma latrina química na rua, corre para dentro dela e começa a bagunçar o cabelo, golpear a parede de plástico feito uma louca, chorar e urrar.

- Que vexame!- Pragueja consigo mesma- Só 100 na carteira, pobretona? Mendiga! Agora eu vou ter que ir pedir dinheiro emprestado... - Range os dentes.-... Pra mamãe!

Enquanto espera pelas roupas, Alexia aproveita pra acariciar suas madeixas flamejantes diante do espelho e dar uma espiada na tatuagem.

- Hum... Talvez um sombreado melhorasse essa coisa...
- Aqui, Lexi.- Tassiana volta- Achei esse blusão. Tem umas manchas e cheirinho de guardado, mas como ocê tem tara por amarelo... Deixo por R$ 7,00. Esse casaco de couro também deve arrasar no seu corpo. Só R$ 15,00. Parece que só foi usado duas vezes.
- Pelo manequim e pela defunta?
- Ah, Não fala assim... Também tem esse shortinho jeans aqui.
- Shortinho? Mais parece um papel de recado.

Risos.

- Ah, mas vai te cair feito anel no dedo, cumádi! Sabe, ocê é daquele tipo raro de mulher que fica linda até vestida num saco de lixo.
- Ocê acha mesmo? Nossa! Essa calça aqui embaixo é linda! Acha que serve em mim, Tassí?
- Sei lá, é uns três números abaixo do seu.

Ela entra no provador. Algum tempo depois...

- Acho que vou levar só o blusão e talvez o short, Tassí. Minha bunda ficou dobrada igual uma tapioca dentro da calça.
- Tudo bem. Faço tudo por 20 pra você, cumádi. Quer levar umas calcinhas, uns sutiãs... Ou talvez um lingerie bem hot pra arrasar nas noitadas?
- Não, não. Nosso dinheiro tá muito curto esse começo de ano. Bárbara sempre pega no meu pé quando compro demais.
- Ah, Barbie... A Mulher- Hulk já desencalhou?

Eis que Bárbara aparece na porta do brechó, arrastando os pés e com o rosto inchado de choro. Ela dá umas batidinhas na madeira da porta.

- Falando nela...
- Oi, Tassiana...
- Por Kurt, Barbie! Quê que aconteceu, menina?
- Eu... Não quero contar aqui. Vem comigo pro bar do Escocês.
- Mas já? São só 10 horas e...
-  ... Por favor...
- Tá bom. Vem comigo, prima. Nossa, ocê tá tremendo todinha...

Ela ajuda a prima a andar como se fosse um idoso escorando na bengala.

- Bom te ver de novo, Bárbara.- Tassí se despede das duas.

Na entrada da cidade, em cima do capô do Fleet, Uli joga golfe. Ele simplesmente acerta as bolinhas sem ter um alvo específico, nem olhar pra onde elas vão. Uma cai no buraco de uma árvore. Outra acerta uma pomba no céu. A maioria cai numa lagoa. Ele manda uma bola muito forte através da estrada, que acaba atravessando o vidro de uma viatura que passava. O policial para o carro e olha pelo buraco na vidraça.

- Ulysses!
- Opa...

O policial pára atravessa a estrada quase deserta, pra tirar satisfações com Uli.

- De bobeira outra vez, Uli?
- Ehr... Foi mal, Sargento. Eu não vi pra onde eu bati a...

Ele arranca Uli do capô do carro pela gola da camiseta e o puxa contra seu rosto.

- Escuta aqui. Ocê tem muita sorte de São Modesto não ter delegacia, senão ia tá pagando etapa desde que chegou ao país! Mas da próxima vez que eu te pegar vadiando na entrada da cidade ou em qualquer outro lugar, te arrasto pro xadrez lá em Juiz de Fora. Ocê lembra da casona de lá, não lembra? As celas são do tamanho de um Fusca e os presos já não vêem mulher há uns 15 anos. Conversados?
- Per... Perfeitamente, Sargento.
- Agora, pega suas bolinhas, seu monte de sucata e RAPA DAQUI!
- Positivo e operante!

Ele bate continência. O policial sai meio que rosnando.

- Maravilha, Jah...- Uli olha para o céu.- Agora, se não tiver muito ocupado, bem que ocê podia mandar uma CHUVA DE BOSTA PRA CIMA DE MIM!!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

UM TOUR PELA CIDADE (PARTE 1)



L
á do 3º andar da obra da prefeitura, um grandalhão loiro e barbado de terno, capacete e óculos escuros assiste à confusão. Franze a testa, ajeita os óculos escuros e apaga a ponta do cigarro que fumava na língua.

- ÔU!- Ele grita lá de cima, chamando a atenção dos sujeitos, que olham para cima, assustados.
- Jô!! Não quer descer aqui e me dar uma forcinha, companheiro?- Uli pede ajuda aos prantos.

O brutamontes dá um meio sorriso, joga lá embaixo o capacete de construção e salta da viga numa cambalhota, caindo de pé bem na frente de todo mundo. O asfalto quase treme. Ele acaba com a briga em questão de segundos, distribuindo socos e coices a torto e a direito, enquanto transeuntes e os peões da obra assistem tudo lá de cima, exasperados. As garotas assistem ao vale-tudo boquiabertas. Ele dá a mão pro Uli se levantar, e lhe devolve as roupas.

- Valeu, Jô. Se ocê não tivesse me visto, eu já tava a caminho duma urna mortuária!
- Sempre aqui.- Josué responde com um sotaque judaico- Não quer tomar um banho na mangueira da obra? Com esse fedor de gasolina, parece até que passastes a noite no bar.
- Ia ser o primeiro banho do mês, mas dane-se.
- Quer ir tomar umas no bar do escocês depois do trabalho?
- Mazel tov!
- Não falei, Lex?- Bárbara comenta com a prima aliviada- Ele sempre dá um jeito de sair de qualquer roubada. Vem.
- Não sei onde Ulysses consegue amigos assim...- Diz Alexia- Bom, meu expediente hoje é só à noite. Vai lá resolver os problemas do posto, que eu vou ver se consigo achar alguma coisa que sirva em mim na loja de Tassiana. A gente se encontra no escocês na hora do almoço?
- Pode deixar.
- E lembra do nosso acordo. Tenta segurar sua raiva, hem?
- Tentando, tentando... Tchau!

Alexia anda até as lojinhas do centro. Por onde passa, todo homem dobra o pescoço pra ver e babar, sem deixar de dar as clássicas cantadinhas de pedreiro.

BAZAR DA TASSIANA- Roupas com alma.

Ela dá uma batidinha na madeira da porta da birosca, chamando atenção da atendente, uma baixinha negra com um tremendo barrigão de grávida.

- Oiiiiiiii!
- Uai! Vermelha, cumádi! Quanto tempo que ocê não aparecia!

Elas se abraçam.

- E aí? Já desencalhou? Tá casada? Tá morando na cidade e largou aquela ratoeira no meio do mato?
- Ehr... Tô trabalhando nisso. E ocê? Quando nascem os gêmeos?
- Daqui quatro meses.
- Kurt, meu Kurt! Não esquece de me convidar pro batizado! E o Feliciano?
- Nunca mais colocou os pés na cidade, depois que eu engravidei. Aquele cavalo...
- Todos iguais... Mas e então? Tem alguma roupa não muito velha aí que caiba em mim?
- Alguma preferência?
- Só uma bem grande, que dê pra esconder isso aqui!

Ela mostra a tatuagem monstruosa nas costas. Tassí mal consegue falar.

- Menina, mas que estrago! Que foi que te deu na cabeça pra fazer uma tatuagem tão grande e tão feia, sô?
- Nem queira saber, cumádi... Mas tem aí uma blusa, ou jaqueta, ou até uma capa de chuva que dê pra tampar isso?
- Vou ali dentro buscar um cestão. Mas eu ficaria mais relaxada em seu lugar, cumádi. Com seus peitões e esses olhos verdes, os homens só vão olhar pra essa tattoo quando ocêis tiverem na cama.
Elas riem.

- Eu já volto, cumádi.
- Aproveita e procura umas calças jeans bem justas, do jeito que eu gosto.
- Pode deixar.

Bárbara vai ao fornecedor fazer compras para o posto de gasolina. Ela olha para o bilhetinho em sua mão: N° 470. Ela é a última de uma fila enorme, mas ela tenta segurar o stress mesmo assim, acendendo o primeiro cigarro do dia.

-Ô, saco...- Ela lamenta- Pra quê uma roça de 6.000 habitantes precisa de guichê eletrônico, sô?
_______________________________________________________________________________

Vou confessar a vocês que ilustrar todos esses capítulos não tem sido moleza, hem? Fazia muitos anos que eu queria me arriscar no mundo dos quadrinhos, e fazer tantas ilustrações é um bom começo. Por outro lado tenho quase deixado de lado minha maior paixão: Alexia. O que é irônico, pois toda a história gira ao redor dela. Tô pensando em largar as ilustrações de cada capítulo por um tempo pra voltar a me dedicar ao santuário de minha deusa de cabelos em chamas, que me dizem? Tem problema as histórias ficarem sem charges por um tempinho?

Abraço, galera!

EU E MÁRCIA PRATES COM AS CAMISETAS DO BLOG

Eu e minha grande colega de cores e fidelíssima garota-propaganda.
Em breve, se vocês quiserem, lançaremos a grife Terra de Excluídos! Mas só se quiserem, heheheheheh...





terça-feira, 1 de maio de 2012

OS CRUSOÉS




N
o meio de um milharal, ao lado de uma frondosa castanheira, o Pampa tem o pára-brisa trincado, o capô levantado, o radiador fervendo e cuspindo vapor igual uma chaleira. Jakson, escorado no carro, abre uma latinha de energético quente. Manolo filma a si mesmo.

- Aqui estamos nós, em algum lugar da mente, curtindo nossa primeira manhã em plena liberdade... Tu olha pra frente, não tem nada. Olha pra trás, nada. Pra esquerda, pra direita, pro chão, pro céu...- Ele dança com a câmera de vídeo para todos os lados- Nada. Nenhuma alma viva. Cara, isso é ducarai! Com a palavra, Jakson!- Aponta a câmera pro irmão.- Diga para a posteridade O que você pensa a respeito da liberdade, mano veio!
- Que ela sempre parece melhor na ficção...- Responde o irmão mais velho, com seu tom de voz anasalado, sempre com um ar meio indiferente-  Tira essa merda da minha cara, cabeção!

Toma a câmera das mãos dele e joga longe no milharal.

- Viu só o que tu aprontou, Mad? Bem que eu tinha desconfiado daquela linha reta no mapa que tu chamou de rota de fuga! Agora a gente tá faz seis horas com a caranga quebrada no cu do mundo porque ‘cê deixou o mapa sair voando pela janela há sei lá quantos quilômetros.
- Quer parar de reclamar, jakson? A gente tá livre, cara!
- Cala a boca, lepra de óculos! Bem que tu podia ter levado essa sucata na revisão antes de enfiar o pé na estrada, né?
- Com os 20 conto que mãe dava pra gente toda semana? A oficina não ia querer nem limpar o pára-brisa. Cacete, o radiador esquentou tanto que abriu um furo... Se a gente achasse uma resina de árvore e uma pedrinha pra tampar o furo e um riacho pra pegar água... E a bateria também arriou.
- Pudera. Esse sistema de som chinês comeu a energia toda, e teus MP3 nem tinham chegado à metade. Pelo menos aqui tem milho verde pra gente roer e tirar esse gosto de mijo da boca... Se tivesse pelo menos uma zona de pé-de-morro aqui perto...

Manolo sobe na castanheira para tentar enxergar alguma coisa.

- Hum... Parece que tem uma descida ali adiante. Se a gente descer de banguela, pode ser que dê até pra alcançar o asfalto. Aí fica mais fácil encontrar um guincho, né?
- Banguela?

Eles empurram a caminhonete ladeira abaixo, sem nem perceber que a ladeira era tão grande e irregular que mais parecia uma montanha- russa. A Pampa velha desce em disparada e pulando.

- U-HUUUUUUUUU!!! RADICAAAAAAAAAL!!!- Manolo vibra com as descidas.
- NÓS VAI MORREEEEEEEEEEERRRRRR!!!- Jakson não parece tão entusiasta a respeito.

No Rio, Dna. Ventania anda como um zumbi pelo apartamento, tentando computar a idéia que seus filhos a abandonaram e fizeram uma limpa na casa. Ela se senta na poltrona da e fica se remoendo de ódio. Sobre as camas dos filhos fugitivos não há nada além de dois abacaxis, um com óculos iguais aos do Manolo
e o outro com uma peruca loura e um boné do Vasco, com um bilhete escrito “PARA A SENHORA NÃO SE SENTIR TÃO SOZINHA. CALOROSOS ABRAÇOS DE SEUS FILHINHOS QUERIDOS... BRUXA!”

- Eu pego eles... Eu pego... Eu PEGO!!!

Sai jogando no chão tudo que vê pela frente, se deita de bruços nos cacos e chora.

O Fleetmaster 1948 vai chegando à ex-praça de São Modesto. O sol mal nasceu e as crianças já perseguem a Kombi verde dos sorvetes.

- Mas também, Barbie- Alexia comenta- pra querer mudar alguma coisa na sua vida, ocê tem que dar um jeito de segurar seu lado selvagem.
- Ela tem razão, Bárbara. Às vezes parece até que ocê tem ácido muriático correndo nas veias.
- Quem te convidou pra conversa, vagabundo?
- Tá vendo? É por isso que o posto vive vazio, já vem atender os freguês com o tacape na mão...
- Mas quê que eu posso fazer, uai? O sangue de índia guerreira que eu tenho...

Enquanto estaciona, Uli avista na calçada quatro brutamontes de braços cruzados, olhando feio para ele.

- Pela madrugada... - Uli dá um murro na buzina- Viram porque eu não queria dormir na cidade?
- Podes crer...
- Eu vou encostar e ocêis duas sai de fininho pelo porta-malas, tá?

Ele abre a mala do carro com o chaveiro automático, elas abaixam devagar o banco de trás e saem, ao passo que os marmanjos puxam Uli pra fora pela janela do carro.

- CADÊ A CERVEJA IMPORTADA QUE OCÊ ME PROMETEU, ULYSSES? TE DEI R$500,00 ADIANTADOS MÊS PASSADO E ATÉ AGORA NADA!
- E OS 100 DO RUM?
- E OS 300 DA CONTA NO CABARÉ?

Ele nem sabe o que dizer. Fica tendo espasmos musculares e soluçando nas mãos dos marmanjões. As garotas ficam observando da calçada.

- A gente devia chamar alguém?
- Nhé... Relaxa, Alexia. Ocê conhece o Ulysses, sempre dá um jeito de fugir de tudo.

Um deles apanha um galão de gasolina.

- NÃO, NÃO! PÕE FOGO NO MEU CARRO, NÃO! JAH VAI CASTIGAR, HEM? JAH VAI CASTIGAR!
- Que carro o quê, Ulysses? Quem nóis vai queimar é ocê!
- Baaaaarbie...- Alexia tenta persuadir a prima a ir lá ajudar o amigo.
- Ele vai dar um jeito, prima...

Os caras tiram a roupa dele, lhe dão um banho de gasolina e o cobrem de palha. Ele chora.