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segunda-feira, 23 de abril de 2012

O ACORDO




A
manhece em São Modesto. Uli treina seu “charme irresistível” no retrovisor do carro.

- Ei, por acaso ocê tá interessado em comprar fotos do ET de Varginha? Eu mesmo tirei! Não? Que tal umas cápsula de cartilagem de tubarão? Minha bisavó toma e já tem 132 anos. Não? Ah, então já sei do que ocê precisa! Tenho aqui uns relógios Rolex legítimos, iguais aos que o Obama usa. Não, não é contrabando não, só não paguei ainda por eles. Dois por R$ 5.000,00 e ocê ainda leva um jumento que põe ovo de ouro de brinde. Vai levar ou não vai?

No andar de cima...

- Acorda aí, sô!- Bárbara abre as cortinas do quartinho de hotel e bate com uma colher numa caneca de metal para acordar a prima.
- Ah. Dia, Barbie...- Ela esfrega as mãos nos olhos para despertar- Melhor que o rádio-relógio, hem?
- Pôxa, parece até que ocê fez plástica no rosto! Só precisava mesmo duma noite bem dormida!
- É... O difícil vai ser apagar essa tattoo das minhas costas. Se eu economizar por dois anos e cortar a bebida, ainda não vai dar pra pagar a operação.
- Ah, quem sabe com o tempo ocê até aprende a gostar dela...
- Duvido... Vamo descer pro café?
 - Vamo. Ai, minhas costas! Pegar no sono naquela cadeirinha de bar foi uma péssima idéia...

Logo ela desce radiante, usando seu traje favorito: Sua bandana preta de estimação, coleira, uma camiseta baby-look amarela super-justa com um decote generoso, coberta por uma regata púrpura, pulseiras e escravas nos braços e pulsos, calças jeans estropiadas e tênis Keds vermelhos. Na lanchonete, Back in Black, do AC/DC, termina de tocar no rádio. O locutor fala aos berros como um porco grunhindo.
- E esse foi o mega-super-ultra-arqui clássico AC/DC, podridão vinda direto da Austrália pros seus ouvidos! Lembrando a vocês, corajosos modestinenses, que o desafio da semana ainda ta em pé. Levei um ano, mas tenho aqui na minha mão o chapéu verdadeiro da Noviça Voadora! Ocêis têm até sábado pra apresentar lá na frente da igreja da cidade alguém louco o bastante pra colocar esse chapéu, subir no campanário e testar se ele funciona de verdade, valendo um apartamento com 6 cômodos em Juiz de Fora todo mobiliado! Quem vos berrou foi o primeiro e único Tião Chorume, despedindo-se desse buraco de rato chamado São Modesto pelas próximas 5 horas. Que vão todos pro inferno!
- Não fossem as músicas que esse imbecil toca...- Bárbara comenta, passando uns mistos na chapa- Olha, o aniversário da Clarissa é no sábado e mãe ligou, dizendo que quer porque quer que ela passe o dia aqui com a gente.
- Vê se não faz Clá chorar muito dessa vez. Tia Flor reclama todo ano porque ocê sempre provoca sua irmãzinha no aniversário...

Ela recheia um pãozinho com meio pote de Compota de Cajá-manga Premium Rotscheider, e só falta esfregar na cara de tanta vontade de comer.

- Meu Kurt, meu Kurt! O prefeito não sabe nada sobre liderança, mas essa compota de cajá dele é de outro mundo, sô!
- Sabe de uma coisa, Lex?
- Hum?
- Ontem à noite, enquanto ocê comia até quase desmaiar de novo, fiquei pensando... Olha só pra nós duas, prima! A gente vive mal, come mal, mora muito longe da cidade, administra mal nosso tempo e nosso dinheiro.
- Lá vem ocê com essa de ambição de novo...
- Esse estilo de vida tá acabando com a gente, a gente sabe disso. Ocê e eu temo problema com a família. Sua mãe sempre te desprezou, desde nenê, não te manda nem e-mail. Depois que papai me obrigou a ficar aqui no posto, nunca mais falei com ele, e já são dez anos de sofrimento dentro desse prédio caindo os pedaço. Sem falar que mãe vive de esfregar na minha cara os feitos da pestinha da Clarissa! Família não devia ser assim! Nem chegamos aos 40, e olha só como a gente já tá frustrada com a vida, sô!
- Bom, como seu pai costumava dizer... Tá com problema?- Abre uma lata de cerveja- Tá aqui a solução!
- Mas a vida não pode ser só isso, prima! Óia, a gente ainda é mais ou menos jovem, bonita e talentosa. Ocê então, nem se fala. A gente não pode viver assim pra sempre, só com o de comer malémal garantido e um showzinho ou dois por mês. Escuta, por que a gente não faz um acordo?
- Acordo?
- A gente pode se dar, sei lá, um mês. A primeira oportunidade que aparecer na nossa frente, qualquer que seja, a gente agarra e mergulha de cabeça nela, OK?
- Por Kurt...
- Mas tem de pegar firme a oportunidade e não largar de jeito ou maneira, tá bom?
- Vá lá... Fechado!

Elas se abraçam. De repente elas escutem uma batida vindo do banheiro dos homens, e um aguaceiro corre pela fresta da porta.

- Ah, meu deus... -Bárbara lamenta- Será que o cano do esgoto estourou de novo?

Eis que Uli sai do banheiro. Elas suspiram.

-Ah, é só o Ulysses...- Alexia acena negativamente e volta a comer.
- Eu não lembro ter dito que o banho tava liberado, ô vagabundo!
- Que banho, gata? Fazia umas três semanas que eu não escovava os dente, só isso. Escorei na pia pra escovar e de repente ela caiu no chão.
- Santa paciência... Óia, Ulysses. A gente tem de ir encomendar umas coisas pra abastecer a lanchonete e chamar um bombeiro pra consertar a bagunça que ocê fez. Sua carroça agüenta o peso de três pessoas?
- Claro, Barbie. Querem carona?
- Óbvio, né? Mas o conserto da pia é ocê quem vai pagar!
- Sem pró!

Fora da lanchonete, Uli saca uma folha de jornal toda puída e desbotada do bolso do paletó também todo puído e desbotado, dobrada no formato de uma carteira.

- Seus dez pelo pernoite, Barbie.

Assim que ela põe no bolso...

- A propósito, é dez real a carona.

Ele capricha em seu sorriso indefectível, e ela não corta conversa: lhe enfia uma joelhada na barriga.

- Cala a boca e dirige!
- Ssssssem... Próóóóóó...- ele quase desmaia de dor.
- E...- Agarra o pulso dele com força esmagadora, pois sua mão boba tentava alcançar novamente a coxa dela- Já sabe!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ACORDES AO LUAR


N
aquela cidadezinha do interior, Alexia, sentada no peitoril da janela de pijama e cabelo enrolado num coque, olha para uma enorme pintura do rosto de Kurt Cobain na cabeceira da cama, enquanto toca em sua surrada guitarra Schecter Tempest verde-oliva alguns improvisos inspirados em modinha de viola com um ar enfadado...

- Oh...

Para em seguida enfiar o pé no pedal de distorção, estraçalhar as cordas e começar a esgoelar os versos de I Want You Right Now do MC5, a declaração de amor mais feroz da história do rock. Bárbara tenta cochilar na cadeirinha do lado de fora do posto, mas com o barulho que a prima faz no andar de cima é uma tarefa e tanto... Uli, deitado no capô do Fleet, curte seu cachimbo de estimação enquanto olha pras estrelas.

- Essa gata é demais...

Noite adentro, O Pampa 1985 caindo aos pedaços sai rasgando a estrada de chão.

- Será que ela sabe dessa Pampa?- Jakson se preocupa.
- Quem? Mãe? Relaxa... Faz um ano que eu comprei essa lata e ela não sabe nem que eu sei dirigir! E pensar que só na minha10ª tentativa de fugir de casa ia dar certo...- Manolo se vangloria ao volante.
- Com a ajuda de todo mundo, né? Lembra? Até tentar embarcar na alfândega dentro de um baú tu já tinha tentado! Até se amarrou dentro de um saco e ficou esperando na calçada pelo caminhão de lixo... -Jakson abre a primeira cerveja da noite.
- Sem falar de quando eu entrei na mochila térmica do entregador de pizza... E ‘cê viu que a gente só conseguiu ir embora porque dessa vez tu não me dedou pra véia! E pra celebrar... Aqui!- Manolo mostra um CD- A melhor seleção de MP3 do mundo! 350 músicas indispensáveis em qualquer viagem!
- Agora não, cara! Ainda não tô acreditando, mano! Aquela hora que tu foi pra cima dela com a mão fechada, cara, que loucura! Pai te levou embora ainda pequeno e te devolveu faz só cinco anos e tu já partiu pra ignorância com mãe daquele jeito? E eu que agüento a ladainha  dela desde que nasci e nunca fiz nada...
- Ah, tem coisa que só eu sou burro o bastante pra fazer!
- Nada de ensaios, tortura psicológica, chinelada, música clássica... Só tomando uma pra acreditar!
- Só uma?

Manolo tira o anel de uma latinha com os dentes.

- Todas! Por conta da casa. YEEEEEEEE-HAAAAAAAW!
- Dá essa lata aqui, Manolo! Tu não pode beber dirigindo!
- Esfria o coco. Analisei o mapa em cima e embaixo. Tracei uma rota onde a gente vai passar pelas costas de qualquer posto policial.
- Hum... ‘Bora ver se tu é bom mesmo de plano. Cadê o mapa?
- Aí no porta- luvas.

Ele abre a portinha, que se solta do painel e cai no piso.

- Tá muito escuro! Acende a luz aí, maluco.
- Não dá. Queimou semana passada.
- Como é? E como tu acha que eu vou conseguir ler o mapa nesse breu? Tu não tem uma lanterna aqui dentro?
- Tinha, mas vendi pra comprar o mapa.
- COMO É QUE É!- o irmão mais velho se enerva- Pára essa joça aí! AGORA!

Ele pisa fundo no freio e a lata velha dá um cavalo-de-pau, levantando a maior poeira.

- Agora, deixa ver se eu entendi.- as mãos de Jakson tremem de raiva- Tu arrastou a gente pra estrada de chão, à noite, no meio do nada e sem eletricidade por sei lá quantos quilômetros, num carro sem luz e só com um farol funcionando...
- Calma, mano, calma...
- E AINDA QUER QUE EU TENHA CALMA, CABEÇÃO?- Ele começa a estapear furiosamente a nuca de Manolo- A GENTE VAI MORRER AQUI NO MEIO DO MATO, SEU DOENTE!
- Esfria, estressado! Pensa só. Mesmo estando sabe-se lá onde estamos, ainda é muito melhor do que lá em casa, aturando a mãe, concorda?
- Hmpf... Essa tua lógica, Manolo... Mas eu só te deixo dar partida de novo se a gente arrumar um jeito de iluminar esse mapa. Tenho que saber pra onde tu tá me arrastando, compreendido?
- Tu não é fumante, Jakson? Pega teu isqueiro aí.
- Boa idéia... Vamo lá fora!

Jakson estende o mapa sobre o capô fervendo da caminhonete. Acende o isqueiro e vê a linha toda tremida que seu irmão traçou com pincel atômico no mapa.

- Viu, mano? Aqui foi o último posto policial que a gente despistou antes de dobrar à esquerda e tomar a estrada de chão. Acho que a gente só andou uns 10 quilômetros até agora. Basta seguir o traçado e acompanhar a trilha de chão. Sem erro!
- Ôrras... Não é que tu pesquisou tudo nos conformes, Mad? Tô impressionado contigo!
- Então? A gente pode dar partida no carro e ficar borracho agora?

São quilômetros e quilômetros de poeira, cerveja, energético e “bate cabeça”. As centenas de músicas e o berreiro alcoolizado parecem não ter fim. Cannibal Corpse, Krisiun, Megadeth, Metallica, Sepultura, Slayer, Rancid, Black Flag, Alestorm, Grave Digger, Entombed, Offspring, Ramones, Sex Pistols, Minor Threat, Motörhead, Iron Maiden, Dead Kennedys, Black Sabbath, Slipknot, Mudvayne, Evaldo Braga...

- Sorria, meu bem. Sorrrriaaaaaaa...- Os esgares do “ídolo negro” pipocam nos auto-falantes. Jakson estranha.
- Êpa! Que bagaça brega é essa?
- Relaxa, mano. Todo mundo sabe que não existe viagem de macho sem música de corno!
- Hmpf... Então, tá!
- EU SEMPRE LHE DIZIA, QUEM RRRRI POR ÚLTIMO RRRRI MELHOOOOORRRRR...- Os irmãos saem cantando abraçados, se encharcando de cerveja e energético.
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E aí, galerinha? Gostando do desenrolar de tudo? Tô pensando em montar uma grife Blog Terra de Excluídos, de camisetas ilustradas com meus desenhos pro blog. Acham que alguém além de mim teria coragem de usar?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

CARTA DE ALFORRIA



D
na. Ventania toma uma dúzia de calmantes no camarim depois do "espetáculo".

- Miseráveis! Miseráveis!Como se atreveram a arruinar MEU espetáculo?!?  Perdoe-me pelos contratempos, Sr. Meloni. Eu não fazia a menor ideia do que meus filhos planejavam, nem que teriam apoio de toda a orquestra!
- Do que a senhora está falando? Foi sensacional, maestrina! O público ainda não se cansou de aplaudir! Foi a apresentação mais emocionante de Beethoven que eu já vi aqui no Citibank!
- Bee.. BEETHOVEN? O SENHOR É SURDO POR ACASO? AQUELE LIXO NÁO ERA BEETHOVEN, ERA... HEAVY METAL, ROCK PAULEIRA!
- Não interessa o que seja, o importante é que foi um sucesso!
- Não quero nem saber! Não foi o que eu batalhei por quase um ano para conseguir realizar! Pode escrever, Sr. Meloni. Assim que eu puser as mãos nos meus filhos, eles se tornarão os novos Fantasmas da Ópera!

Os seguranças do teatro chegam arrastando os dois pelos pés.

- Me larga! Me solta, pôrra!- Manolo se debate, tentando se agarrar no assoalho a unhadas.
- Eu já sei andar, tá legal?- Briga Jakson, com o nariz espremido contra o chão.
- Sra. Ventania? Aqui estão seus filhos. Eles estavam tentando fugir engatinhando no meio da multidão.

Ela vira pros dois com um olhar diabólico. Eles ainda tentam se debater contra os braços enormes dos seguranças, enquanto ela apanha o chinelão na bolsa.

- E aí, mãe? Curtiu a nossa apresentação?- provoca Manolo .
- Meus filhos. Vocês acabaram de arruinar minha carreira artística. Nunca me esquecerei deste abuso, e depois do que eu vou fazer com vocês, vão precisar de plástica pra tirar as marcas do chinelo da cara.

Com o rosto encoberto por sombras e grunhindo, ela brande o temível chinelão contra o rosto de Jakson, porém ele consegue abaixar a cabeça e quem recebe o golpe é o segurança, que solta o jovem e cai no chão, rolando com as mãos no rosto de dor. O jovem ainda acerta uma no saco do brutamontes.

- HÁ! Conta essa pros teus netos, paredão!  vtamente, eu nunca me esquecerei desse disparate, e depois do que eu vou fazer com voc

Ela ainda tenta acertar Manolo, mas ele consegue chutar o chinelo da mão dela. Dá uma mordida no braço do segurança e se atraca com a mãe no chão.

- Ó o que tu fez comigo em cinco anos, mãe!- Ele diz, com um olhar maníaco- Ó o que tu fez!

Ela o agarra num abraço de urso.

- Larga ele! Tu não pode continuar controlando nossas vidas assim!- Jakson ataca.
- Posso e vou! Vocês são MEUS! Assim que saírem da UTI, eu vou forçar os dois a tocarem TODA a obra de Beethoven praquela platéia lá fora. SÓ vocês dois, sem orquestra...

Michele e a outra menina vêm por trás e puxam Manolo para fora das garras da mãe.

- Jakie! Mad!
- Bem na hora!
-Trouxe seu skate, amor.
- Podem deixar.- Declama Michele- O plano vai funcionar nos conformes com a gente por aq...

Ela se dá conta do tremendo fora que acabou de dar. Os irmãos cobrem a cara de vergonha.

- ... Plano?- Dna. Ventania se espanta- Quer dizer que ainda tem mais?
- Tem sim, jararaca! Hoje os dois vão abandonar o Rio pra sempre!
- Fica quieta, Michele! Dessa parte ela não precisava saber!- Jackson murmura no ouvido dela.

Eles nem percebem que os seguranças já se levantaram e os cercaram.

- Mas só passando por cima de meu cadáver! SEGURANÇA?

As moças viram- se para os gigantes e esguicham spray de pimenta nos olhos deles.

- Se abaixem!- Jakson alerta.

Elas obedecem, os dois sobem em suas costas e dão uma voadora nos seguranças, abrindo o caminho pelos corredores do backstage, Jakson no skate e Manolo sentado nos ombros dele como uma criança, atropelando tudo e todos que cruzam seu caminho. Derrubam a porta dos fundos num tranco e saem correndo para o estacionamento.

- E agora, véio? E agora?
- Pergunta pra mim? ‘Cê que é o estrategista aqui, cabeção!

Eles vêem uma Hilux acelerando e cantando pneu. O motorista buzina. São Aiatolico, Johnny Boy e Siri.

- Rapidão, truta! Sobe aí!

Lá vem a Dna. Ventania, os seguranças e mais meia dúzia de funcionários do teatro atrás deles pela porta dos fundos.

- Voltem já aqui, seus malandros!

Ela atira seu temível chinelo tamanho 48 contra a porta da camioneta antes de os dois subirem a bordo, e ele afunda na lataria como uma estrela ninja. Os irmãos olham assombrados para aquilo e encaram a mãe deles.

- Essa foi a última vez... ACELERA, SIRI! COSPE FOGO!

Manolo arranca o chinelo da porta e sobe na camioneta, que sai cantando pneu. Ela ainda tenta correr atrás deles a pé, mas acaba tropeçando e dando com a cara no chão.

- Voltem aqui! Voltem! Eu ainda mato vocês doooooooooois...!- Dna. Ventania espuma de raiva entre os braços dos seguranças que tentam contê-la.
- O quê?- O garoto a provoca de novo, mostrando o chinelo para fora da janela- Dá pra falar mais alto? A orquestra tá muito alta! HAHAHAHAHAHAHAHAHA!
- Eu ainda agarro eles...

Fora dos limites da cidade, Manolo e Jakson pegam a Pampa no posto de gasolina. Jakson ainda dá um último malho nas meninas antes de sair. Manolo já está impaciente ao volante.

- Ô, super-galã? Entra logo no carro, que a estrada não anda sozinha! A veia já deve ter até chamado a polícia!
- Já vou, seu chato! Assim que a gente chegar em qualquer lugar, prometo que ligo pra cada uma de vocês, tá?
- Tô te esperando, Jakie.- Michele dá um último beijo nele- Sorte pra vocês dois!

Jakson entra no carro, Manolo liga a chave e...

- Oh... Aí, galera.- Manolo fica sem graça-  Dá pra ajudar a pegar no tranco?




segunda-feira, 9 de abril de 2012

BRAVO!

D

e dentro do Ford Ka vermelho, mãe e filhos observam o majestoso engarrafamento de carros tentando chegar ao Citybank Hall.

- Meus filhos, depois da nossa apresentação, teremos tudo que sempre quisemos ter. Sairemos daquele pulgueiro e vamos nos mudar pra Búzios!

Mad e Jakson riem debochadamente um pro outro.

- E esse entojo de engarrafamento que não acaba nunca? Eu mandei vocês dois andarem depressa!

- É, mas a senhora não viu que eu cortei debaixo do queixo com o barbeador?- Reruca Jakson- Mais um pouco e, em vez de vir pra cá, a gente tinha ido pro pronto-socorro!

- Pronto-socorro uma conversa. Hoje suas feridas só sangram se EU deixar!

- Faz que nem eu e toca fogo na barba, pra ela nunca mais crescer.

- Ah tá, lepra de óculos... E depois eu também passo quatro meses numa cama de hospital sem poder mexer a boca...

- Ah, mas valeu a pena...

Já dentro do teatro, Senhora Ventania é cumprimentada pelo produtor do espetáculo. No portão principal há um cartaz com a foto dos três e os dizeres “ Grande concerto! Maestrina Gladys Ventania & Filhos interpretam Beethoven. Participação da Orquestra Jovem do Rio de Janeiro.” Os irmãos cochicham pelo corredor.

- Maninho doido, a gente tem que reconhecer que mãe apostou mesmo tudo nessa produção! A casa tá lotada! E se nosso plano der errado e ela sair caçando a gente no meio dessa gente toda com um facão?

- Qualé, Jakson? Querendo arredar o pé logo agora?

- Claro que não! Agora não tem mais volta! Mas eu meio que... Tô sentindo pena dela. Já pensou, colocar toda essa produção a perder?

- Heheheh, não esquenta, galãzinho. Não tem remorso que não se cure com uns 500 km de asfalto e umas brêjas. E depois, de um jeito ou de outro, essa velharada vai ter um espetáculo inesquecível...

- Isso, meus filhos!- Dona Gladys sobe os degraus do palco- Hoje é minha... Hum, NOSSA noite de glória! Corram pros seus lugares e peguem seus violoncelos, faltam apenas 20 minutos pro espetáculo começar.

- Tá bom, mãe... Vem, Manolo, vamo nessa.

- E lembrem-se, meus filhos: Sorriam! Não parem de sorrir da primeira a última nota nem se suas mandíbulas caírem!

- Sim, senhora...- Manolo resmunga, com um sorrisinho irônico no canto da boca- A gente vai sorrir muito, muuuuuito...

- Anda logo, meu filho!

Ela corre pro outro lado da cortina.

- E a megera não deu nada pra gente- Lamenta Jakson, retirando o violoncelo do estojo- Beijo na testa, desejos de boa sorte, nada...

Mesmo faltando pouco pro espetáculo começar, a grande maioria do público cativo de concertos já cochila na platéia. Alguns músicos ainda terminam de afinar seus instrumentos no timbre certo. Manolo escreve alguma coisa no celular e envia para cada um dos músicos, que acenam a cabeça, concordando. O anunciante do espetáculo começa a falar, todos os músicos colocam-se a postos. A cortina começa a subir.

- Caraca, a rapaziada já chegou!- Manolo cochicha ao ombro do irmão- Já tô vendo as minas ali no fundo... Chegou a hora. Vamo nessa, Jakão!

- Pô, tu nunca tinha me chamado de Jakão antes!

- Pra dar sorte, mano. Pra dar sorte...

A cortina acaba de subir. Uma chuva de palmas toma conta do teatro. O rosto de Gladys mal pode conter toda sua emoção. Mad e Jakson estão tensos e duros como dois postes. Respiram fundo e engolem em seco. Ela dá o sinal para a platéia silenciar-se e logo começa a fazer seu espetáculo. A orquestra toda, incluindo seus filhos, toca os primeiros movimentos da Sonata ao Luar de Beethoven magistralmente, como se nem precisassem olhar as partituras. O silêncio dos espectadores é quase desesperador. Os mais idosos acabam pegando no sono de novo. As “periguetes” de Jakson já estão morrendo de tédio com 3 minutos de espetáculo e olhando pros relógios. Mesmo com a chatice reinando por toda a sala, todos aplaudem ao final do 1º movimento, mais por educação que por qualquer outra coisa. Durante os aplausos, Jakson e Manolo dão uma piscadela para os lados, dando o sinal para colocarem o plano em ação. Assim que Dna. Ventania se abaixa para mudar a página do livro de partituras, toda a orquestra coloca óculos escuros e os dois irmãos começam a solar “Holy Wars”, um thrash metal pra lá de ruidoso, nos violoncelos, pegando a maestrina completamente desprevenida. Logo os tímpanos entram ensurdecedores, e o resto da orquestra entra na música como um tsunami engolindo a platéia. O produtor do espetáculo olha espantado para Gladys, sem entender o que está acontecendo. Lá no fundo, os amigos dos irmãos Ventania pulam e batem cabeça com o som da música. Alguns espectadores idosos começam a passar mal, ao passo que outros acabam se deixando envolver pelo “heavy metal sinfônico”. Logo, toda a platéia já está de pé e pulando com a música. Uns velhinhos brigam como se fossem adolescentes drogados. Um verdadeiro caos! Dna. Ventania, vermelha de vergonha dos filhos e sedenta por sangue, não vê alternativa a não ser fingir que está conduzindo a orquestra. Ao final da música, Manolo ergue o violoncelo sobre os ombros e o arrebenta no chão, dando um mergulho do palco em cima do público em seguida, ao passo que Jakson tenta sair de fininho por debaixo das pernas de todo mundo no palco.

- METAAAAAAAL! METAAAAAAAAAL! LIBERDAAAAADE!!- Manolo berra em êxtase, enquanto centenas de mãos o arrastam sobre as cabeças do público.

As cortinas descem, e Dna. Ventania é vastamente ovacionada, enquanto tenta disfarçar o constrangimento que seus filhos lhe causaram. Lá do outro lado a turma de Manolo e Jakson os ajudam a se levantar e tentar escapar de fininho pela saída de emergência.



segunda-feira, 2 de abril de 2012

A GRANDE NOITE(PARTE 2)

- D

ia ruim pros negócios, Uli?

- Mais um pra coleção. Tá menos azeda agora, gata?

- Ârrã. Olha, desculpa o jeito como te tratei mais cedo.

- Tranqüilo, Lexi. Ficou sumida da cidade no fim de semana...

- É. Eu e minha prima fomo tocar numa festa de aniversário em Juiz de Fora sábado à noite. Rolou um bundalelê daqueles no camarim, e aí... Só acordei hoje, com isso aqui nas costas.

- Ai!- Ele toma um susto com a libélula gigante- Olha que Jah castiga, hem? Dizaí, gostou da cor nova do meu Fleetmaster? Também fui lá em Juiz no fim de semana dar uma pimpada no carro.

- Bonita. Ele ainda consegue andar com essa placa aí em cima? Mais parece uma escada de bombeiro...

Ela se refere ao imenso letreiro instalado no teto do Chevrolet escrito “REI ULI Ltda. COMPRO, VENDO, ALUGO, ETC. PRODUÇÕES ARTÍSTICAS”

- Claro que anda. Com o motor novo que eu descolei, dá pra voar até Marte com o velho Fleet aqui. 300 cavalos de rugido.

- Por essa e outras nosso namoro acabou. Ocê gasta tudo o que ganha com esse monte de lata, e não guarda nada nem pra comer...

- Dizaí, por falar nisso, não quer ir ali comigo, bater um rango? Tá parecendo tão fraca... Suas pernas tão balançando mais que trigal no vento.

- Eu não comi nada desde sábado, tá legal? -Suspira de cansaço- Ah, Ulysses, eu faria tudo pra ficar bem quietinha hoje... Cair na farra, nem morta, mas se ocê quiser me deixar lá em casa, eu...

Ela desmaia de fome no colo dele.

- E eu tenho escolha? Vamolá, gata...

Leva Alexia pro carro e eles saem da cidade.

Depois de limpar toda a bagunça do apartamento e disfarçar o cheiro de bagulho com litros de Bom Ar, os irmãos rebeldes vestem os smokings para o recital.

- Pára de rir de mim, pôrra!- Jakson reclama do irmão caçula- Eu sei que eu tô ridículo com esse smoking e esse cabelo todo lambido, mas tu também não ficou digno de homenagem, lepra de óculos!

- Eu sei, eu sei. Parece que eu me vesti com um saco de lixo... Pelo menos eu entrei num acordo com a jararaca pra ela me deixar usar meu cabelo do jeito que ele é no concerto.

Jakson ri.

- Cabelo... Chama esse mato aí de cabelo? Até a escovinha do vaso tem cabelo melhor que o seu!

- Fica na tua, galãzinho! E a galera já ligou da estrada?

- Já, sim. Mandei Tolico esconder as placas da tua caminhonete, pros radares não pegarem a gente na estrada. Se tudo correr como tu planejou, hoje, às onze, a gente já vai tá no asfalto!

- Tem certeza que já tá tudo acertado com o resto da orquestra, né?

- 100%. Mandei a partitura de"Holy wars" do Megadeth por e-mail na semana passada...

- Boa escolha...

Eles escutam a chave encaixando na fechadura.

- Aguenta, coração. O demônio tá chegando aí...- Resmunga Manolo.

- Hora de bater continência.- Diz Jakson.

A Senhora Ventania abre a porta num tranco, batendo-a violentamente contra a parede. O vestido branco bufante que ela usa a deixou muito semelhante ao Homem de Marshmallow dos Caça-Fantasmas. Ela chega toda irradiante. Eles padecem em posição de continência, fazendo cara de manequim.

- Olha só pra vocês! Vejo que já se adiantaram com os smokings. E, por Cristo lá em cima, como vocês ficaram elegantes com eles! Não disse que compensaria sacrificar nove meses de mesada para encomendar num alfaiate? Somos a própria Família Lima!

- Ha. Ha. Ha. Ha...- Os dois “riem” sarcasticamente.

- Eu fiz muito sacrifício para que tudo saísse perfeito nessa noite, portanto, espero que nenhum dos dois se atreva a me fazer passar vergonha diante do público. Porque, se acontecer...

Ela puxa um chinelo de couro imenso, quase do tamanho da própria coxa, de dentro da bolsa, como se desembainhasse uma espada. Os olhos deles chegam a lacrimejar com o tamanho do chinelo, que chega a fazer sombra sobre eles.

- Estão avisados. Manolinho, lava melhor esse rosto, que tá com uma mancha enorme de encardido na bochecha. Um pouquinho de sabão não faz mal a ninguém. Passa mais um pouco de graxa no sapato, Jakson, e vá se barbear de novo. Nós só temos duas horas para chegar ao Citybank Hall antes das cortinas subirem. Agora vão, vão, vão! Só 10 minutos pra sair! E que fedor horroroso é esse, vindo da cozinha? Parece até que a caixa de gordura estourou!

- Nem queira saber, mãe... – Jakson retruca do banheiro, já se lambuzando com a espuma de barbear.

Uma moto de pizzaria passa voando como uma bala rente ao enorme Fleetline de Ulysses. Por muito pouco não arrasta a maçaneta e o retrovisor esquerdos junto com ela.

- Doente! Que é isso, bandoleiro?- Ele se rebela com o piloto, erguendo o punho pra fora da janela- Olha que Jah castiga! Filho da...

-Dirija mais rááááápidooooo...- Alexia, ainda sem ter recobrado totalmente a consciência, entoa um falsete debochado.

Bárbara, entediada, tira uma pestana numa cadeira de bar encostada no lado de fora do posto.

O ronco do motor de Uli a acorda.

- Opa! Não acredito, um cliente!

- Falaí, Barbie!

- Aaaaah, é só ocê, vagabundo? Tava até achando que deus tinha me mandado um presente... Quê que foi, sô? Se perdeu no caminho de volta pra Jamaica?

- Não, não... A Lexi aqui desmaiou no meu colo saindo do trabalho.

Metade do corpo dela escorre pela porta do carro. Bárbara se apavora.

-Nossa Senhora! Que foi que aconteceu com ela?

- Não comeu nada a tarde toda. E do jeito que a barriga dela roncou no caminho, parece que ela vai esvaziar a dispensa sozinha. Me ajuda aqui a tirar a gata do carro.

- Vem comigo, prima. Brigada, Ulysses...

- Rastafaris sempre alerta, meninas. Âhn... Tem problema se eu passar a noite aqui no estacionamento, Barbie? Tô no meio de uns rolos lá na cidade e...

Enquanto arrastam Alexia pra fora do carro, Uli não consegue resistir e “discretamente” dá uma apalpada na coxa de Bárbara.

- ÊPA!- Dá um tapa na mão dele- Nem nessa situação ocê deixa de mão boba, vagabundo?

- Ih, foi mal...