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quinta-feira, 29 de março de 2012

A GRANDE NOITE(PARTE 1)



A

lexia toma umas aspirinas e tenta relaxar um pouco na cantina do conservatório, e nem percebe o diretor do conservatório, um senhor de idade, com careca avançada, meio corcunda, com o rosto coberto de rugas e manchas, com enormes óculos bifocais completando o pacote, esperando atrás dela. Sua voz é gélida e pausada, como se calculada a partir dos batimentos do coração.

- A-hem!

- Ai!- Ela desperta de seus devaneios.- Âhn... Desculpa, Sr. Almerindo. Não reparei que o senhor tava aqui...

- Pra variar, não é, Professora Moura? A senhora nunca percebe nada. Não percebe que precisa chegar com 10 minutos de antecedência, não percebe que suas olheiras estão vergonhosas, e, acima de tudo, não percebe que já chegou atrasada pela quinta vez esse ano!

- Quinta? Jurava por Kurt Cobain que era a terceira...

Nem ele procura olhar a professora nos olhos, nem ela tem coragem o bastante para se levantar e lhe oferecer um lugar para sentar.

- Ninguém- Ele continua- nem mesmo meus filhos, me trouxeram tanta dor de cabeça na vida quanto a senhora! Mas sabe qual é o único, o ÚNICO motivo que me impede de demitir você?

- Porque eu sou um gênio?- Ela responde mentalmente, debochando do tom de voz do diretor.

- Porque a senhorita é um gênio. Disparada, você é professora de música mais jovem e talentosa que eu já contratei em toda minha vida. Portanto, é de se esperar que pelo menos TENTE corresponder a todos os riscos que corri quando a contratei. Eu exijo que tenha um grãozinho de pontualidade e pelo menos algum profissionalismo no que faz, porque, se eu a encontrar aqui novamente no estado em que se encontra, não vai demorar a chegar o dia eu que eu ordenarei que o porteiro barre a sua entrada no conservatório... Para sempre. Estamos conversados?

Ela se esforça para esboçar um sorriso amarelo.

- Ótimo.

Ele vai embora. Ela respira fundo e toma um gole de café. Ligam a TV da cantina.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Aplausos.

- Ninguém merece...

Ela vai embora, deixando os 25 centavos do cafezinho.

De volta ao Rio de Janeiro, a sala de estar do apartamento 102 está repleta de fumaça de baseado e garrafas de cerveja estilhaçadas por todo lado. O heavy metal do Fear Factory pipoca nas caixas do home theater, abafando as gargalhadas dos jovens dopados.

- Ô, Manolo!- Grita Jakson, após jogar uma garrafa na porta da cozinha- Acelera logo esse lanche aí, mano!

- Já tá saindo, segura a peteca aí!

A porta é destrancada e Manolo, todo sujo de molho e gordura, sai de lá carregando uma câmera de vídeo, filmando a si mesmo.

-Olá, mundo! Guarde bem esse dia, pois ele será nosso último dia como escravos dos caprichos de Dna. Gladys Ventania! Esta noite, seremos homens livres, completamente livres! HAHAHAHAHAHAH!

- Olha, cabeção.- Jakson intervém, abraçado nas garotas- Quanto a parte de ser livre, pra tu é até fácil, já a parte de ser homem...

Eles riem.

- Nhé-nhé... E, como nossa última refeição em nossa terra natal...

Ele traz da cozinha uma bandeja pingando gordura, com um sanduíche enorme e asqueroso, que mais parece um bicho atropelado. Todo mundo faz cara de nojo.

- Que pôrra é essa aí, maluco?- Pergunta Aiatolico.

- Minha obra-prima. – Ele filma a gororoba em close- Nenhum mata-fome do mercado consegue ganhar desse aqui... Uma coisinha que eu chamei de “Advogado do Diabo”. Um pão-filão inteiro, uma caixa de hambúrguer, um pacote de mussarela, um pacote de presunto, um pacote de bacon, um colar de lingüiças, muita pimenta, um pote inteiro de maionese, e pra coroar... Rufem os tambores! Uma fatia de banha!

- Agora eu entendi porque tu trancou a porta da cozinha antes de preparar...- Diz Jakson.

-Assim vai mesmo ser nossa “última” refeição, maluco...- Zomba Siri, também pra lá de Bagdá.

- Acho que vou vomitar!- Uma das garotas vai correndo pro banheiro.

- Ah, cai na real, gata!-Manolo faz graça- Fez amor comigo por uma hora e meia e é o sanduba que te deixa enjoada?

- Tá vendo, Mad?- Diz Michele- Por isso Jakie quis viajar contigo, seu doente. Tu só sabe fazer besteira!

-Sorte tua que, na larica, a gente consegue comer até pneu de trator, hiiiiii-hihihihihihi- brinca Johnny Boy, já noiado.

Logo cai a noite. Em São Modesto, Alexia vai embora do trabalho. Uli ainda está à porta do conservatório, discutindo com uma idosa.

- Como assim, minha senhora? Como assim meu bálsamo te deixou com essas pelotas no corpo todo? Fui eu mesmo que fiz, receita tradicional jamaicana! Testei em mais de 15 cachorros antes de colocar à venda! Testado com todo o rigor científico!

- Ah, é? Então testa isso aqui!

A velhinha lhe enfia a bengala no pé, levando-o ao chão, enfia as mãos no bolso do paletó dele e tira 50 reais. Nem atirado no chão ele pára de sorrir.

- Vigaristinha de merda- A velha resmunga.

Alexia lhe dá a mão para ajudá-lo a se levantar.

segunda-feira, 26 de março de 2012

PLANETAS OPOSTOS (PARTE 2)


A

lexia pára no último degrau e faz a clássica "pose de mulher decidida". Enquanto ela desfila, todos os homens dos corredores e até algumas mulheres param para assistir. Ela tira os óculos vermelhos estrategicamente pendurados no decote e os coloca bem devagar no rosto. Findo o showzinho, ela entra na sala de aula, tira os óculos e já despenca na cadeira levando as mãos ao rosto para chorar.

- Burra! Burra! Burra! O que foi que ocê fez contigo, sua retardada mental??

Ela é trazida de volta a si pelo caloroso "BOA TARDE, PROFESSORA MOURA!" da sala lotada de alunos pré e adolescentes.

- AAAAAH! Uau!- Ela quase cai da cadeira- Caramba, que susto!

- Tá tudo bem, Alexia?- Pergunta um aluno.

- Eeeehr... Sim, sim. E ocêis, como estão?

Ela tira o violão do estojo, mas quando se levanta, o casaco escorre pelas costas e revela monstruosa tatuagem. O espanto é geral, e ela se ruboriza de vergonha.

- Que tatoo é essa, professora?- Pergunta uma garota.

- Parece que vai levantar vôo!- Comenta outro aluno.

A sala gargalha em uníssono. Ela tenta recobrar a compostura.

- Eeeeeehr... Bom... Que me dizem de um acordo: Se todo mundo me acompanhar direitinho na aula, prometo que conto no final como essa coisa foi parar nas minhas costas, tá beleza?

Bate com uma caneta na mesa para a classe se pôr a postos.

- Minha cabeça vai me matar hoje... No três, quero todos os instrumentos afinados no mesmo tom do meu violão. Um, dois, três!

Ela toca a corda Mi e dobra a cabeça para trás, fecha os olhos e espera a resposta da classe, que atende em massa à ordem.

- Muito bom. Mas na oitava fileira, as cadeiras 1 e 4 têm violões num tom abaixo. E na fila 5, tem alguém com um tom e meio acima. É o seu, Davi?

Todos se espantam com o dom de Alexia. Ela dá uma risadinha.

- Incrível, né?- Brinca com os alunos- Abram o livro de partituras em Tocata e Fuga em Ré menor, de Bach. Vamo nessa, meninada!

Ela inicia a lição, tocando divinamente, mesmo não se agüentando em pé, e o mais importante, fazendo todos os alunos seguirem-na ao pé da letra. Serventes e outros professores a assistem pelo vidro da porta, maravilhados.

No Rio, os dois irmãos, Aiatolico, mais dois rapazes com aparência de ratos de academia e as moças que estavam com Jakson naquela tarde na pista de skate estão descendo a mudança pelo elevador de serviço até o estacionamento e colocando tudo na caçamba de um Ford Pampa todo detonado.

-Cuidado com aquela guitarrinha sua? Falando sério?- Jakson provoca o irmão- Aquela sua tábua de bater bife já veio toda mastigada do lixão, doido!

- Fica na tua, barriga de reco-reco. Tu precisa tirar a camisa toda vez que passa uma mina na rua pra mostrar o tanquinho?
- Preciso sim. Continua carregando a caminhonete, cabeção!

Dá um tapa na nuca do irmão. Mais tarde, todos acabam de amarrar uma lona por cima da tralha.

- Bom, então é isso, Tolico, Johnny Boy, Siri, minas... - Diz Jakson, acrindo uma cerveja long-neck- Valeu por terem ajudado nessa mudança a tarde toda.
- E pensar que ‘cês vão ter de voltar com tudo pra dentro de casa quando a mãe de vocês descobrir a tramóia...
- Ih, não joga mal- agouro, Michele!- Retruca Manolo- Tá tudo nos conformes. A gente conversou com o resto da orquestra semana passada, todo mundo concordou em ajudar a gente na armação durante o recital.
- E como ‘cês fizeram pra convencer o resto da orquestra a tocar heavy metal num recital de Beethoven?
- Aquela galera abomina mamãe quase tanto quanto nós dois. Foi mole igual tomar sopa de minhoca- responde Manolo, sarcasticamente.
- Seu nojento!

Manolo tira as chaves da caminhonete do bolso e entrega para Aiatolico.

- Tu já sabe o resto do plano. Hoje à noite, assim que a gente for pro Citibank Hall, ‘cês disfarçadamente vêm pegar o Pampa na garagem e vão dirigir até a fronteira da cidade. Vão encher o tanque, deixar o carro atrás do posto de gasolina da fronteira e voltar pra cidade pra apresentação. Mas precisam ter certeza de que nenhum conhecido, NENHUM, veja vocês. Entenderam?
- Xá com a gente, baixinho!
- A partir dessa noite, filézada- Jakson diz, passando os braços por trás do cangote das garotas- eu e meu maninho chato ali seremos homens livres! Bom, ainda faltam umas oito horas até o recital, rapaziada. Já que mãe só vai voltar daqui a uma hora e tá todo mundo matando o trabalho hoje, que ‘cês me dizem de nós oito...

Faz um gesticular obsceno com a língua por dentro das bochechas, que deixa as garotas assanhadas.

- Não sei como, mas esse aí sempre consegue pôr mulher na cama a qualquer hora do dia... - Manolo comenta com os brutamontes amigos de Jakson.


sexta-feira, 23 de março de 2012

PLANETAS OPOSTOS (PARTE 1)



A

pesar de localizado numa avenida decente da cidade maravilhosa, aquele edifício de apartamentos de três andares, de tão antiquado, ainda traz cortinas de pano floridas na maioria das janelas. Situado no meio de uma ladeira entre uma padaria e uma farmácia, seu hall frio e sombrio possui piso de tacos gastos e arranhados, paredes com ladrilhos cinzentos pichados de limo e seus elevadores ainda possuem portas de grade e alavancas de controle, assim mantidos provavelmente desde a Era Vargas. O vigia adormeceu debruçado no balcão, com um litro de cachaça Velho Barreiro numa mão e uma revista de mulher pelada na outra, aberta no pôster central da mais nova musa dos reality shows. No apartamento 102, deitado num antigo sofá com moldura de madeira de lei e com o fone do celular enfiado nos ouvidos, Jakson arranca notas furiosas de seu contrabaixo azul escuro todo coberto de adesivos de bandas de heavy metal e mulheres peladas, tentando acompanhar a música que ouve. Ao lado dele há várias caixas de papelão lacradas com fita silver. Manolo vem arrastando um enorme e poeirento baú pelo corredor do apartamento.

- Pôrra, Jakson, tira essa coisa do ouvido e vem me dá uma força aqui, caralho!- Pragueja o irmão.

A súbita interrupção do rock pesado saindo de seu celular, seguido pelo vibrar da máquina, o despertam violentamente de seu transe musical, e ele acaba rolando para fora do sofá.

- Ai! Ah meu deus...- Aperta o botão de switch no cabo do fone- Oi? Ah, falai, Tolico! Tão na garagem? Então podem vir pelo elevador de serviço, mas não deixa ninguém ver vocês, tá legal?

Lá em Minas, uma Kombi bem antiga verde-abacate com um auto-falante enorme preso no teto, de onde saem os primeiros acordes de O Guarani, seguidos por uma voz esganiçada de criança anuncia sua chegada desde a entrada da cidade, acompanhada por vários meninos e meninas correndo atrás dela.

-ATENÇÃO, MEU POVO! É A KOMBI DO SORVETE CHEGANDO AO SEU BAIRRO! MAIS DE 40 SABORES, 20 BOLA SÓ POR 3 REAL! VENHAM COM SUAS LATAS E PANELAS!

A placa toda desbotada, enferrujada e cravejada de balas na entrada da cidade diz BEM- VINDO A SÃO MODESTO. Alexia chega de van ao centro da cidade.

- Chegamo na cidade, mocinha.- Diz o perueiro, tentando se conter diante da beleza dela.- Moça?

- Ah, não. Chega de vodca... –Ela balbucia enquanto cochila no banco, acordando num salto com o solavanco do motorista em seu ombro- Âhn? O quê? Ah, sim. Eu fico lá no conservatório, tá?

À primeira vista a cidadezinha lembra bastante Ouro Preto, por causa de suas extensas ladeiras, mas apesar de ainda sobrarem em pé algumas construções mais clássicas, a maior parte dela é composta por becos úmidos e sombrios, puxadinhos mal construídos, muros pichados, edifícios de apartamento feios e antiquados, asfalto de paralelepípedos e casebres de cores berrantes desbotadas. Carroças convivem com carretas no meio das ruas, crianças tentam jogar bola nas ladeiras. O sino da igreja, agora substituído por um auto-falante, soa os badalos. Eles chegam ao local onde costumava ser a praça da cidade, mas agora há um tremendo canteiro de obras com uma faixa. "Futuras instalações da nova Prefeitura de São Modesto".

- Tá entregue, moça.- O perueiro encosta a van ao lado do canteiro.

- Brigada, moço. Aqui tem um, dois, três...

- Pode deixar, anjo.- Ele recusa a oferta- Mulher nenhuma paga nada comigo por perto.

Ela acena e pega o estojo no banco de trás. O prédio do Conservatório Verônica Rotscheider é de construção no estilo do século 19, com dois andares, paredes acinzentadas encardidas de mofo e lotadas de rachaduras. A porta e as janelas da frente têm cobertura de um vitral já desgastado pelo tempo. Ao lado das escadarias há um jovem negro alto, com um sorriso enorme e brilhoso, de óculos escuros, cabelos estilo rastafari e gorro jamaicano, vestindo um blazer vinho puído e desbotado, camiseta tingida em tie-dye e calças Jeans que parecem ter sido de um pedreiro. Ao lado dele, um enorme, antiqüíssimo Chevrolet da mesma cor do blazer com um imenso letreiro no teto. Ele tenta levar um transeunte na conversa.

- Como assim, 150 anos?- O cliente em potencial se indigna- Olha que de vinho eu entendo, malandro! A garrafa de Brunello mais antiga do mundo não tem nem 115 anos!

- Escuta aqui...- O jovem toma a garrafa empoeirada das mãos do homem, gruda no pescoço dele e aponta seu enorme cachimbo enfeitado para ela, falando com uma voz arrastada de maconheiro com um sotaque mineirês cruzado com caribenho- 115, 150 anos, qual é a diferença, amizadinha? Ocê não vai querer mesmo tomar um vinho centenário, né verdade? A garrafa deve tá até seca. Isso aqui vai ficar na sua prateleira, do lado daqueles canecos horrorosos de festival de cerveja que todo modestinense coleciona, e se o vidro não desmanchar, seu neto ainda vai tá espanando essa mesma garrafa daqui uns 100 anos. Ela não deixa de ser um troféu, tá ligado? Então, quê que ocê me diz, hem? Dez milhas no meu bolso?

- Toma aqui suas dez milhas, pilantra!

Arrebenta a garrafa no chão e dá um soco na cara do vigarista, esbarrando em Alexia.

- AI! Que grosseria, poxa!

O malandro vem flertar com ela.

- Lexi, Lexi, Lexi...

- Ah, ótimo. Bem na porta do meu trabalho, a última pessoa que eu queria ver hoje...
- Que é isso, Lexi? Acordou atacada hoje por quê?

- Não é da sua conta, Ulysses! Deixa eu passar!

- No relax, deusa. Nem parece que a gente namorou por cinco anos nem nada...

- Fala, o que eu tenho que fazer procê me deixar passar, Uli?

- Bom, eu não ia oferecer nada, mas já que ocê pediu... Aqui tem aquela pulseirinha do equilíbrio, que tudo que é gente famosa tá usando. Produto legitimíssimo, de primeira, e é sua só por trintinha!

- Olha, depois da aula a gente trata disso. Agora, desinfeta, Ulysses! Vaza!

Ela bate o salto da sandália no chão, e ele dá um pulinho pra trás igual um gato assustado.

- Ei, negão!- Outro possível comprador chama a atenção- Que pulseirinha é essa aí por 30 Reais?

- Por ter me chamado de negão, sai por 300- Ulysses paga na mesma moeda.




terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAS


U

m vaqueiro toca o berrante. Outros vaqueiros e o gado trafegam pela estrada. O sol de meio-dia entra pela janela de um quarto de hotel num singelo posto de gasolina no meio do mato. O chão do quarto é repleto de revistas, garrafas, latinhas, roupas e guloseimas meio comidas. Uma moça peleja para sair da cama.

- Aaaaai, que dor de cabeça... Que horas são?

Ela apanha o rádio-relógio e toma um susto: 12:30 da tarde! Aperta o botão de calendário no aparelho, e leva mais um susto.

- QUÊ? SEGUNDA-FEIRA? TÔ DORMINDO DESDE SÁBADO? Mas que...

Joga o aparelho na parede e se levanta da cama num salto, deixando para trás a coberta. Ela aparenta ter seus vinte e poucos anos. Não é alta nem muito baixinha. Sua pele possui uma alvura láctea, levemente rosada. Um nariz diminuto como o de uma criança, lábios graciosos e moderadamente carnudos, grandes e perolados olhos verdes como cálices de absinto. Seus cabelos ruivos são longos, mas não chegam a ultrapassar a linha das axilas, volumosos mas desgrenhados. Possui um corpo escultural que faria até os pássaros assobiarem de forma perniciosa, com seios rijos e fartos e o corpo cheio de tatuagens: Um grande N preto tatuado no tríceps esquerdo, um morcego tribal no antebraço direito, uma clave de Sol no lado esquerdo do abdome e uma estranha tatuagem combinando uma roseira com uma caveira que se prolonga por toda a coxa esquerda. Ainda desorientada por causa de seu sono prolongado, ela se atrapalha tentando tirar o apertado pijama verde-limão com que havia dormido. Veste um tubinho branco de frente única, saia vermelha, sandálias de salto de madeira, pendura uma coleirinha no pescoço, pulseiras douradas encardidas nos braços e amarra uma bandana preta desfiada na cabeça, com uma caveira entre duas guitarras cruzadas. Lava o rosto, escova os dentes, se maquia e sai do apartamento, deixando a porta escancarada. Desce as escadas correndo e adentra a lanchonete do posto. Lá dentro, há uma mulher bem alta de uniforme e óculos de moldura rosa-choque, com longos cabelos trançados e franja feita de tigelinha, espancando um bêbado com uma bandeja.

- Eu já disse mais de mil vezes, Eriberto! Ou ‘cê paga o que me deve, ou te mando pro hospital, tá entendendo?

- Ma-ma-mas era só dois real, Bárbara!

- Não quero nem saber! Aqui no posto, qualquer nica faz falta!

Os outros clientes estão apavorados. Ela ergue o bêbado do chão pela gola da camisa e pelos fundilhos da calça e o atira pela porta, nem percebendo que a moça assistiu a briga toda. Ela muda de humor na mesma hora.

- Opa, opa, opa! Olha só quem resolveu acordar, sô!

- Ocê não muda mesmo, hem, Barbie?

- Rotina... Foi uma senhora noitada hein, Alexia? Dois dias de limbo...

- Nem me fale. Faz aí um leite com abacate e um café duplo, pra ver se eu termino de acordar...

- Deixa comigo, prima. Aquela apresentação que a gente fez em Juiz de Fora foi um arraso! Nem em um mês trabalhando nesse buraco de rato nós ia conseguir tanto capim!

- Ah, nem me lembro de nada da festa...

- Mas vai lembrar rapidinho... Dá uma olhada nas suas costas!

- Minhas...

Ela se olha no espelho da estante de frutas. Tem uma tatuagem gigante monstruosa de uma libélula nas costas dela, ocupando quase todo o espaço da nuca até a cintura. Obviamente, ela fica apavorada.

- AAAAAAAAI! QUE MONSTRO É ESSE NAS MINHAS COSTAS?!- Começa a arranhar as costas, desesperada- SAI DAÍ! SAI! SAI! SAI!

- Faz isso não, uai! A tinta da tatuagem tá fresca ainda!

- Como... Como essa coisa foi parar aqui, Barbie?

- Esqueceu de tudo mesmo... Bom, depois do show uns caras foram visitar a gente no camarim com umas garrafas de bebida e uns comprimidos. A gente ficou doidona demais, um deles era tatuador... Te achei ontem desmaiada lá fora com isso aí nas costas.

- Kurt Cobain, que tragédia... Ai, minha cabeça... E quanto eu perdi nessa burrada?

- Sua parte do cachê.

Os olhos de Alexia ficam do tamanho do pires com a xícara de café que tomava.

- QUÊ? Eu gastei tudo o que eu ganhei no show... NISSO?!

Encosta a cabeça no balcão e começa a chorar. A ruiva olha pro relógio na parede da lanchonete.

- E pra coroar, ainda to atrasadaça pro trabalho!

- Relaxa, sô... Toma sua vitamina e seu café, que eu te empresto uma jaqueta pra tentar esconder essa coisa horrorosa.

- Kurt, meu Kurt! Só tenho mais uma hora pra tentar achar uma carona e chegar no trabalho!

Ela começa a beber tudo numa golada, até quase engasgar.

- Não toma tão depressa, sô, vai acabar enjoando no caminho!

- Não sei o que seria de mim sem ocê, Bárbara... Cadê meu violão?

- Tá mal mermo, hem? Acabou de colocar o estojo nas costas e já esqueceu...

- Âhn? Ah, sim, sim... Cabeça a minha... Tchau, Barbie.


- Te cuida, prima!


Ela vai embora, e todos os clientes da lanchonete estranham a mudança de comportamento de Bárbara.


- Que foi?



video

Speed-painting de Alexia e Bárbara feito por Paris Christou, amigo meu de Londres. A personagem do meio é dele mesmo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

IRMÃOS (PARTE 2)


O
s três ficam presos num engarrafamento. A mãe deles enxuga a testa com a manga da camiseta branca e preta, que a deixam vagamente semelhante a uma orca, depois começa a falar sem parar, com a desenvoltura de um locutor de futebol.


- São Pedro tinha que escolher logo hoje pra mandar essa quentura toda? MANOLO! PÁRA DE TENTAR QUEBRAR O VIDRO DO CARRO COM ESSA MULETA! E nem pense que essas ataduras e essa muleta vão te salvar dos ensaios! Amanhã, muito cedo, vai estar com o violoncelo no colo e tocando, nem que seja com a vara na boca!

- Mas... Mas... Ah, tá bom, mãe!
- Nem em sonho eu te deixaria atrapalhar minhas ambições! Mesmo se tivessem amputado seu braço, eu o encontraria e grampearia de volta no seu corpo. Nem você, nem seu irmão...
- Êpa! Quê que tem eu?- Indaga Jakson, pego de surpresa enquanto via fotos sensuais de uma de suas “minas” no celular.
- Vão escapar do recital! E pára de ver pornografia dentro do MEU carro, Jakson!

-Tá bom, mãe...
Passam-se os dias. Numa noite, Manolo, já curado de seus ferimentos e seu irmão observam do alto do palco do Citibank Hall as cadeiras vazias do auditório, a luz de spot em cima dos dois, refletindo nas lentes dos óculos do caçula e deixando-o ainda mais parecido com um extraterrestre.
- Cumprimentos de Ventania!- Manolo grita do alto do palco, fazendo eco em todo o salão- Lorde Manolo Ventania! Guerreiro do deserto! O aiatolá do rock n’ roll!
- Manéra no berreiro aí, lepra de óculos!- Jakson dá um tapa na nuca do irmão- Daqui a pouco vem um segurança e expulsa a gente daqui!
- Ah, fica na tua, mano. Não dá pra não gritar, esse salão aqui é animal! E pensar que o Apocalyptica tocou aqui quarta-feira passada...

- Chega a ser uma heresia o que tu planejou, Mad... Tá mesmo a fim de levar adiante essa idéia maluca? Se der merda, mãe vai arrancar nossas tripas pra fazer corda de violino!
- Vai amarelar agora, véio?
- Ah, sei lá. Tu já tentou fugir de casa umas dez vezes desde que voltou a morar aqui, acha que vai dar certo agora por quê?
- Ou é agora ou nunca, mano!- Manolo encara o irmão nos olhos enquanto caminha ao redor dele, como se imitasse os passos de um ninja ao andar- Tô de saco cheio de Beethoven, Franz Liszt, Vivaldi, Rossini, o circo todo! Eu quero é viver! Saber quais as reais oportunidades que esse mundão tem a oferecer! Cara... Olha pra mim! Olha pros pregos na minha cara! ISSO é cara de quem toca música clássica? Eu sou é do rock! Do metal, do punk, pô! Irmão...- Ele agarra Jakson pelo cangote, fazendo-o se agachar. O loiro é quase trinta centímetros mais alto que o irmão caçula.- Nossa hora chegou há muito tempo. Na nossa idade, muito nêgo já é casado, empregado, tem uma penca de filhos... Claro que eu não quero ter nada disso, mas tem uma coisa que eu quero ter, e muito: Liberdade. Ter um dia inteirinho pela frente, sem me preocupar com porcaria de hora ou dia. Conquistar meu direito de ser o que eu quiser, sem medo de nada! E nunca vou conseguir nada disso se continuar me submetendo àquela velhota sádica! Mas se quiser amarelar, tô nem aí. Pego a estrada sozinho!
- Tá dando esse showzinho só porque o spot tá iluminando tua testa, né? – Jakson se levanta e acende um cigarro- Mas desestressa, maninho. Sabe que eu nunca ia deixar meu irmão caçula desajuizado pegar estrada sozinho, tu ia ficar vivo só uns dois segundos. E depois, se eu ficar aqui, volto a ter nossa “estimada” mãezinha só pra mim.
- Palhaço...

Longe dali, duas mulheres dão um show de rock psicodélico num humilde palco de um salão de festas.

segunda-feira, 12 de março de 2012

IRMÃOS (PARTE 1)


- Q ue é isso, Aiatolico? Segura firme no skate, não envergonha ainda mais tua família, véio!
O sol do meio-dia castiga a cidade maravilhosa. Pessoas mais sensatas tentam se proteger do escaldo como podem, correndo para debaixo dos toldos das lojas, cobrindo os rostos com jornais, revistas e maletas enquanto esperam pelo ônibus, mas algumas pessoas parecem não se importar com os fervilhantes 38 graus estampados em todos os termômetros da cidade. Um grupo de jovens de aparência não muito confiável desfruta da pista de skate do Aterro do Flamengo. Os ganidos de um punk rock furioso explodem num enorme sistema de som de um Honda Accord estacionado ao lado da pista. A cada nova manobra conquistada ou tombo levado, todos assobiam e urram para incentivar quem está no half-pipe. Sentado num banco e rodeado de garotas, um deles provoca o careca todo tatuado que está trampando na rampa em forma de U. Porte atlético, piercing na boca e nas orelhas, longos cabelos loiros amarrados num rabo-de-cavalo, saindo pela alça de um surrado boné do Vasco da Gama, barba malfeita e sem camisa, exibindo uma enorme tatuagem da logomarca Red Bull no peito. O amigo dele cai de costas no cimento da pista, provocando gargalhadas de todo mundo.


- Que vergonha, Aiatolico! Te ensino a andar nesse half faz mais de vinte anos e tu ainda cai?
- Ah, qual é, Jakson? –Diz o skatista humilhado- Fez só uma semana que tirei o gesso da perna, dá um desconto, pô!
- Mostra pra ele como que faz, Jakie?- Diz uma das meninas nos braços dele.
-Vai lá, gostosão!- A outra incentiva.
-Hum... Sei não, meninas. O que ‘cês me dão em troca?
- Bom...

Uma delas brinca com a gola da justíssima camiseta regata que usava, deixando o decote bem mais generoso. Os olhos de Jakson arregalam.
- Com tanta diplomacianão tem como recusar, né? Me dá aí a Diana, Tolico!- Diz ele, apontando para o skate com a foto de um mulherão de biquíni impresso no fundo.
- Toma, vai lá, galãzinho...

- Vai lá, Jakie!- Diz a garota safadinha- Valendo 20 saltos, na casa da Michele hoje às sete com nós cinco!
- Xá comigo, minas!

Ele desce deslizando com o skate pelo cano de grind, caindo direto no half-pipe. Logo na primeira subida, manda um 360, levando todo mundo ao delírio.
- Fala a verdade, Michele.- Pergunta Aiatolico, enquanto apanha uma garrafinha de cerveja num isopor- Conheço Jakão desde o primário, mas nunca consegui entender como o cara consegue pegar tanta mulher com essa cara de pastel barbado que ele tem. Que ‘cês tanto vêem no magrelo?
- Ah, vai saber... Mas basta ele respirar perto da gente...
- Que todas já sonham com ele na cama...
- E já era garanhão desde o primário também. VAI LÁ, JAKIE! NÃO CAI, NÃO!


Exibicionista, Jakson faz uma rotina alucinante de manobras. As meninas gritam histericamente para o amado, enquanto os homens ficam gritando “cai, cai, cai...”. Ao tentar a vigésima manobra, o celular vibra no bolso e ele se atrapalha todo, deixando a prancha escapar dos pés e tentando se agarrar no cano da borda do half. Logo vira motivo de gozação de todo mundo. Aiatolico e as groupies vão socorrê-lo.



- Tá tudo bem contigo, meu bem?- Diz Michele.
- Se machucou, Jakie?- Outra das periguetes pergunta.
- Quê que foi, cumpádi?- pergunta Aiatolico- Tava tão perto de cumprir o acordo com as minas...
- Foi meu... Meu celular. Me ajuda a levantar aqui!

Estende a mão para o amigo, que tenta disfarçar a vergonha colocando o boné na frente do rosto e apanhando o celular no bolso.


- Haja saco... Alô, mãe? Ah, tá. Já vou pra lá. Tem ideia da vergonha que...

Ela desliga na cara do filho.


- Qual foi o galho, Jakão?
- A lepra de óculos levou alta. Foi mal aí, minas. Mas amanhã podem escrever que eu vou conseguir dar os 20 saltos. Preparem o Jontex!



Joga um charme pras garotas com uma canastrice de fazer inveja aos galãs de novela da nova geração. Os outros skatistas ainda não se cansaram de tirar sarro do tombo que ele levou.

- Hahahá, é? Hahahá, é?- Ele replica- Caí com os peito no chão, mas ainda pego mais mulher que todos vocês juntos!
- Tu é muito exibido, sabia?- Retruca Tolico.
Na saída do pronto-socorro, um jovem baixinho e franzino, cabelo tingido de verde curto e espetado, de óculos de grau, o nariz cheio de piercings, a cabeça e parte do dorso enfaixados, tenta andar com uma muleta. Atrás dele, uma senhora de idade, com seus muitos anos mal disfarçados com Botox e cabelo loiro oxigenado curto o ajuda a andar.
- Três vezes no mesmo ano, seu Manolo, e as três pelo mesmo motivo... E ainda é só Fevereiro! Quando o senhor vai criar juízo, menino?

- A senhora vem me falar de juízo, mãe... - O garoto sussurra- Se minha cabeça não tivesse toda enfaixada eu até ria...
- Mais respeito com sua mãe, mocinho! Da próxima vez que o senhor encher a cara e provocar um bar inteiro, pode tratar de se arrastar sozinho pro hospital!

Jakson desce no ponto de ônibus na frente do hospital. Ele já chega tirando sarro do enfermo.
- Ah, olha só quem resolveu ver a luz do sol! Como vai a força, maninho?

Dá um tapão nas costas de Manolo, só de sacanagem.
- AI! Ah, seu desgra...
-Pára de provocar seu irmão e abotoa essa camisa, menino!- a mãe intervém para apartar a briga.
- E então?- Jakson continua provocando- Doeu muito pra remover aquele guarda-chuva do...
- Quietos, vocês dois!
- Tá bom, mãe... Lepra de óculos...
- Agora, ajuda seu irmão a entrar no carro, enquanto eu termino de assinar os papéis lá dentro.

Eles chegam a um antigo Ford Ka vermelhinho, decorado com decalques de flores. Jakson abre a porta e tenta acomodar o irmão no apertado banco traseiro.

- Eu te falei, Mad... Encher a cara e gritar Flamengo no meio de um bar vascaíno lotado? Imagina se vô ouve isso lá do além, cara! E é a 3ª vez que tu faz isso, ainda por cima!
- Cuidado... AI! Vai devagar, Jakson! Vai devagar!

- Xá comigo...

Solta o braço de Manolo sem avisar, e ele cai quase debruçado no banco.
- Cacete! Agora eu te mato!
Apanha a muleta e tenta em vão acertar a cabeça do irmão com a ponta.
- Agora fica sossegado aí, que eu vi uma atendente ali no balcão que é coisa de louco. Fui!


terça-feira, 6 de março de 2012

Sobre a obra, por Pedro Bondaczuk

Obs: O texto é bem longo, mas explica muito bem minhas intenções.

17/05/2011

O escritor, mesmo que aborde em seus livros cenários, comportamentos e fatos que não sejam do seu tempo, anteriores (ou posteriores) à época que vive, tem a sua força manifestada com plenitude e verdade apenas quando trata do que testemunhou pessoalmente.

Viver determinados costumes, conhecer (por haver estado lá) cenários, descrever comportamentos, modas e linguajar por serem também os seus, é muito diferente do que somente pesquisá-los. As pesquisas podem ser, até, meticulosas e feitas com completo rigor. Mas o escritor sempre se verá forçado a embarcar no testemunho de outrem, da fonte a que recorreu, que pode ou não ser exata e fiel a esse passado não vivido. Quanto ao futuro... Tudo fica ao sabor, somente, da pura imaginação.

O escritor, Fernando Yanmar Narciso, em “Terra de excluídos”, opta pelo caminho lógico e seguro para fazer boa literatura. É jovem e, por isso, trata do que conhece de sobejo, ou seja, da juventude, com sua moda, seus costumes, seu linguajar característico e suas atitudes confiantes (não raro em excesso). Pisa, pois, em terreno familiar, sólido e conhecido, em que transita com desenvoltura e desenvolve, por isso, seu enredo com convicção. É este aspecto, entre tantos outros, o que mais chama a atenção e que torna, principalmente, sua narrativa fascinante e verossímil.

Neste romance atualíssimo, os personagens principais, jovens, agem rigorosamente como tal, sem que o autor se limite a caricaturar a juventude. Ou seja, falam a linguagem dos jovens, vestem-se como tal, comportam-se de acordo com o se espera dessa idade, com a ousadia característica dos moços, mas também com sua inexperiência, o que os conduz a erros e contradições. Autenticidade, portanto, é o maior mérito deste romance típico do século XXI.

A Literatura, como tudo na vida, requer constante renovação, para ficar “oxigenada”, ser autêntica, conservar criatividade, originalidade e a vitalidade que dela se espera. Não se deve, todavia, se limitar a renovar meramente por renovar, como se tudo o que foi feito até então fosse ultrapassado e descartável. Isso deve ser feito, sobretudo, com qualidade. E é essa renovação qualitativa que Fernando simboliza, e muito bem.

Tal processo renovador, observe-se, não implica, como muitos pensam, simplesmente em ignorar e se desfazer, liminarmente, de escritores, conceitos e visões de vida, digamos, mais antigos, que para alguns é ultrapassado (mesmo que não seja), apenas por questões cronológicas. Até porque, talento e competência não são atributos exclusivos de nenhuma idade e nem de sexo. Jovens e idosos podem e devem conviver harmoniosamente, pois ambos têm virtudes (e defeitos), inerentes não somente à sua respectiva faixa etária, mas à própria condição humana.

A esse propósito recorro ao filósofo norte-americano Will Durant, que em seu clássico “Filosofia da vida”, observa: “A mocidade tem o fogo, mas não a luz; a velhice, dona da luz, tirita por falta de fogo”. A sociedade, contudo, precisa de ambos, não apenas de um ou de outro isoladamente. Requer calor e iluminação ao mesmo tempo. Precisa da experiência e da ousadia. E ambas têm plenas condições de conviver simultaneamente, cada qual ocupando o seu devido espaço (e, não raro, até o mesmo, pois há jovens que já são experientes e idosos que ainda não perderam o entusiasmo).

A Literatura, quando o escritor é fiel ao seu tempo, tende a ser poderoso instrumento de pesquisa ao historiador meticuloso e consciente do futuro, que pretenda recompor com fidelidade determinada época. Por exemplo, se pretender retratar como era o Rio de Janeiro de meados do século XIX, pode recorrer, sem receio, aos romances e contos de um Machado de Assis. Ali, encontrará detalhes sobre cenários, comportamentos, moda e atitudes que só quem os testemunhou poderia descrever com tanta autenticidade. O mesmo vale para a Paris da mesma época, retratada por Honoré de Balzac. Ou para a Moscou do início desse mesmo século, habilmente descrita por Leon Tolstoi.

Os personagens, cenários, costumes, moda e comportamento de Fernando Yanmar Narciso, em “Terra de excluídos”, guardam essa autenticidade requerida de um escritor ao caracterizar o seu tempo. Um historiador do século XXII não encontrará, pois, maiores dificuldades para entender como eram os jovens do início do século XXI: como falavam, o que comiam, como se vestiam, que músicas ouviam, com o que sonhavam, e assim por diante, se vierem a ler o livro desse jovem escritor.

Seus personagens falam como os adolescentes de hoje, trajam-se como eles, usam tatuagens e piercings, têm celular, MP4, IPads, computadores; navegam na internet; freqüentam redes sociais como Facebook e Orkut, têm os próprios blogs e endereços de twitter. Erram (quando recorrem às drogas e ao sexo sem a devida responsabilidade) e acertam (ao se opor aos vícios, violência, corrupção e tantas outras mazelas que caracterizam o mundo atual), como qualquer moço que conhecemos, não importa sua condição econômica e/ou social.

Voltando a Will Durant e seu clássico “Filosofia da vida”, o filósofo norte-americano caracteriza da seguinte forma o comportamento da juventude do seu tempo (que, guardadas as devidas proporções, não difere muito do da atualidade): “O moço nunca se cansa; vive no presente, não chora o passado, nada receia do futuro; intrepidamente sobe um morro que esconde o que há do outro lado. É a idade das sensações violentas e do desejo sem fim; a experiência ainda não o embotou com o repetir-se e o desiludir-se. Cada momento é amado por si mesmo, e o mundo visto como um quadro estético, algo a ser absorvido e gozado, alguma coisa sobre o que fazer versos e a ser agradecida às estrelas”.

Está aí a descrição mais que perfeita e fiel dos personagens de “Terra de excluídos”. Daí eu caracterizar, sem sustos ou receio de equívoco, Fernando Yanmar Narciso como o saudável e benfazejo sopro de renovação que a Literatura tanto requer, para manter-se “oxigenada”, ser autêntica, conservar criatividade, originalidade e a vitalidade que dela se espera.

*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk

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Well, galera, isso encerra as apresentações do blog. A partir de Segunda-feira que vem, nossa jornada se inicia. Fiquem ligados, e não se esqueçam de dizer o que acharam!

Uma cidadezinha no interior...


“Numa sala de aula...

- Quem nasce em Salvador é...

- Soterapolitano, professora!

-E quem nasce em Natal, Rio Grande do Norte?

- Potiguar?

- Isso! Gostei de ver!

- Manda uma difícil, professora!

- Então, tá! Quem nasce em São Modesto é...

Ninguém diz nada. Após longos segundos, Zezinho levanta a mão.

- Masoquista, professora.

E a sala desaba em gargalhadas..."

Trago a vocês a fictícia cidadezinha mineira de São Modesto, conhecida no estado como “ O antro dos sem-esperança”. Localizada numa região montanhosa, dá a impressão de ser uma ladeira sem fim, repleta de casebres coloniais, cortiços e puxadinhos, e pouquíssimos que podem ser considerados ricos. O complexo envolvendo a prefeitura, o palacete do prefeito e sua emissora de TV ficam na última quadra da cidade, lá embaixo, no meio de uma avenida. Então, ironicamente, quanto mais se sobe na vida em São Modesto, mais se desce.

Apesar de sua população ser relativamente calma, São Modesto esconde tipos no mínimo pitorescos. Alexia, 25 anos, é a menina-prodígio da cidade. Professora de música no conservatório da cidade, ninguém entende como, apesar de lecionar Vivaldi, Bach, Beethoven e afins, ela só se interessa por músicas de no máximo cinco acordes. Sexy, inteligente, espevitada e quase sempre fogosa, faz seus alunos pré-adolescentes e todos os marmanjos da cidade quase enfartar de desejo quando anda pela rua. Fã do rock clássico de garagem e tiete contumaz de Kurt Cobain, apenas o amor consegue fazê-la perder o controle sobre suas emoções e ocasionalmente cometer gafes de proporções bíblicas. Sua melhor amiga e confidente é sua prima Bárbara, com quase 30 anos. Moram juntas no hotel de um decadente posto de gasolina. Irascível e um tanto amargurada, Bárbara é uma mulher forte que não hesita em colocar os mais espertinhos em seu devido lugar, exceto quando se trata de sua própria família. Sua mãe, Flor, é uma obcecada com ginástica artística que, por não ter conseguido realizar seu sonho de ser ginasta e nem transformar Bárbara em uma, adotou Clarissa, uma inocente garota 18 anos mais nova que a filha. Alexia e Bárbara formam um dueto de rock psicodélico de prestígio no estado chamado Margaridas Psicóticas.

No submundo da cidade, ninguém é mais famoso que Ulysses, o famoso Uli. Jamaicano, foi forçado pela mãe a abandonar o país a bordo da única coisa de valor da família, um enorme Chevrolet Fleetline 1950, com a missão de regressar rico para o país. Morador das ruas de São Modesto há 20 anos, é malandro até a medula e consegue fazer qualquer um cair em sua enorme lábia, exceto é claro, os seus amigos íntimos. Ex-namorado de Alexia, lançou a carreira artística das Margaridas Psicóticas, atuando a princípio como empresário, percussionista e vocalista. Mas revelou ter um medo patológico de palco, o que ocasionou na sua separação de Alexia e da banda. Mas, apesar disso, os três continuam muito amigos e ele faria qualquer coisa pelas ex-colegas de banda - exceto voltar a cantar.

Seu fiel escudeiro é Josué, um gigante polonês de quase dois metros de altura, forte como um elefante. Judeu ortodoxo, extremamente disciplinado e louco por parafernálias militares, não é de muitas palavras e coloca medo em todo mundo, apesar de carregar um sonho de ser baterista de Heavy Metal. Outro apêndice de Uli é o radialista underground cinqüentão Tião Chorume, o ser humano mais monstruoso, desaforado e alcoolizado de todo o estado.

Mas a pasmaceira dos modestinenses está a ponto de terminar, com a chegada de dois forasteiros. “Mad” Manolo Ventania, recém-chegado aos 20 anos, é franzino, revoltado, estabanado, aparecido e adora fazer besteira. Sua última empreitada foi fugir de sua casa no Rio de Janeiro onde ele e seu irmão mais velho, Jakson, sofriam nas mãos ditatoriais de sua mãe, a maestrina Margarida. Jakson, 27 anos, só quer saber de skate, rock pesado e sexo. Mesmo conformado com a cortina de ferro em que vivia, viu-se na obrigação de acompanhar o irmão mais novo em sua fuga, pois o moleque não duraria nem cinco segundos vivo em liberdade. Quis o destino que eles acabassem chegando a São Modesto totalmente por acaso e mudassem o cotidiano dos jovens da cidade.

O meu real propósito com essa história é falar com os “isolados por opção”, os famosos grupinhos ou gangues, como preferirem chamar. Mostro com meu romance que pode haver algo em comum entre punks, rastafáris, hippies, góticos, metaleiros e outras tribos, podendo até surgir um sentimento de família entre essas pessoas tão diferentes entre si, mas que de algum modo acabam se complementando, num universo onde nunca podemos afirmar com clareza o que é realidade e fantasia.

domingo, 4 de março de 2012

Sejam bem-vindos!


Olá, meus estimados visitantes! Meu nome é Fernando Yanmar Narciso (Caso não tenham lido acima...) e trago a vocês um mundo um pouco diferente do nosso... OK, absurdamente diferente! Esse blog tem como objetivo divulgar o meu "romance" chamado TERRA DE EXCLUÍDOS.

A TV de hoje está saturada da glamorização da vida. Todos são mostrados lindos, felizes, ricos e com famílias que, mesmo vivendo em pé de guerra, cedo ou tarde acabam se acertando. Mas aqui, do lado de fora da tela, a vida não é assim. Existem pessoas feias, pobres, tristes, neuróticas e com famílias que passam longe de ser perfeitas, cujos conflitos podem durar para sempre. Pessoas reais perdem as estribeiras, brigam, discutem acaloradamente sem um pingo de formalidade. Tendo sido, a princípio, concebido como uma série em fascículos, minha intenção com o livro Terra de Excluídos é mostrar isso. Extravasar de maneira exagerada, talvez até cartunizada, os sentimentos e delírios que as pessoas têm em situações cabeludas, mas não têm coragem de exprimir.

Os primeiros rascunhos do que viria a se tornar Terra de Excluídos surgiram nas orelhas dos cadernos de escola em 1999. Já naquele tempo, influenciado primariamente por desenhos animados como Os Simpsons, não parava de criar personagens malucos. No fim do 3º ano, já tínhamos uma cidade toda povoada, mas não conseguia escrever nada para os personagens, e, lentamente, eles foram sumindo de minha vida. Até que em 2010, por algum motivo, voltei a acompanhar novelas. Um dia me peguei pensando “Se os novelistas conseguem escrever essas besteiras e criar campeões de audiência, também posso!” Essa foi a deixa para ressuscitar meus antigos personagens e me atirar no universo deles por um ano inteiro.

Bem humorada e anárquica, o estilo da narrativa é um híbrido de estilos, gosto de me referir a ela como “ quadrinhos sem os quadrinhos”. Apesar de seguir uma forma linear, a trama baseia-se mais na aleatoriedade, posto que as historietas funcionam bem tanto juntas como separadas. Grande parte dos casos contados faz referência a cenas de programas de TV e filmes com grau variado de ecletismo, indo dos famosos westerns de John Wayne e Sergio Leone a obscuros filmes B asiáticos, mas as menções são tão bem escondidas que ás vezes passam despercebidas.

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Então é isso, futuros fãs! A partir da semana que vem, sempre às segundas, quartas e sextas, teremos aqui novos capítulos de minha saga. Alguns capítulos serão divididos em várias partes, pois ficaram longos demais para publicar online. Nesta semana me dedicarei apenas a apresentar os conceitos de minha criação, mas não é nada chato, não. Continuem ligados!

Um abraço e me desejem sorte!

O Editor