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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

CASPITA!


D
epois de muita enrolação, enfim os irmãos cariocas, Uli e Josué conseguem comprar os materiais de construção para consertar o teto da oficina. Eles, acompanhados de Bárbara, descem até a cidade e carregam a mala do Fleet com cimento, brita e tijolos. Para ser mais exato, Josué carrega tudo ao mesmo tempo nos ombros.Bárbara só falta babar nas botinas do gigante polonês.

- Meu pai eterno! Imagina um murundrú de homem desse lá no quartinho do posto...
- Enrola a língua de volta pra boca, Barbie! A gente tem que pagar essa parada aqui!- Uli a desperta de seu transe sexual.
- Ah, fica na sua, ô vagabundo... Quanto que vai dar tudo?
- Tá aqui a nota. Uma dúzia de pré-moldado: 200. Dois saco de cimento: 100. Dez quilo de brita: 100. Quatrocentinho, Barbie.
- Tá, tá, ótimo... E quem vai pagar?
- Ora, quem furou seu teto não foi o maluquinho? Quem devia pagar tudo era ele, não?
- COMO É QUE É??- Os irmãos param na hora com a lutinha- Eu sozinho pagar 400 pilas?
- EU, não. Nós dois!- Jakson intervém- Se juntar tudo o que sobrou daquele dinheiro da pampa, mal dá pra amarrar 300.
- Como assim? Como foi que ocêis conseguiram torrar aqueles 500 numa cidade de merda igual a nossa em menos de dois dia?
- Ué, Jamaica. Dois pernoites no hotel do posto mais o porre de ontem dá quanto?
- Isso sem falar que a gente só furou o teto da oficina porque VOCÊ deu aquela idéia de jerico de remendar o motor do carro com arame derretido!
- Cala a boca, maluquinho!- Uli tasca um tapa na nuca de Manolo.
- Calo, não, maconheiro fiduma... Tu é tão culpado nessa história quanto a gente!
- Vamo parar com essa discussão, ocêis!- Bárbara fica entre os dois de braços estendidos, enquanto Jakson segura o irmão caçula- Óia, pra ficar tudo numa boa, o vagabundo dá 150, os dois lesos dão 150 e eu dou 100. Pronto!
- Ma-pe-pe-peraí, Barbie. De onde é que ocê espera que eu vá tirar 150 real?
- Quer mesmo que eu responda? E vê se paga logo essa joça, que eu tenho de lavar o chão da lanchonete!

O prefeito espera ansiosamente por uma ligação, batendo freneticamente os dedos da mão direita na mesa e acariciando sua preciosa medalhinha na mão esquerda. O telefone toca e ele atende, aflito.

- Sim? Sim? Sim?

Do outro lado da linha, uma voz calorosa, carregado sotaque italiano. Um senhor já idoso e gorducho, cabelo e bigode grossos, de terno preto e gravata vermelha, acaricia um cachorro da raça Cane Corso branco, com seus dedos cheios de anéis de ouro e brilhantes.

- Franchesco? Don Giovanni Pasolini quí. Parlati, amico!
- Amigo uma conversa, Giovanni! Você me prometeu que seria um trabalho limpo! Os corpos do Romualdo e de meu guarda-costas traidor deveriam simplesmente sumir! Como foi permitir que desovassem os dois logo no canteiro de obras da MINHA CIDADE?
- Ma que? Mios homens fidzeram questo stupido? Não posso credere!!
- Como assim? Vocês não planejaram o sumiço em conjunto?
Giovanni- Ma Dio-santo! No lo capisco nada!
- Como não entende?- Chicão espanca a mesa, furioso- COMO NÃO ENTENDE?! Você me ferrou, Don Pasolini! A cidade toda tá falando dos corpos que acharam no piche, e não vai demorar nada até a Polícia do Estado entrar no rolo!
- Per favore, calma! Calma, Franchesco! Tutti será adjetatto ainda hodje!
- Só quero ver, Don Pasolini! Só quero ver! Você e seus coveiros têm até essa tarde tarde pra se arrastarem pra cá e completarem o serviço do jeito que eu encomendei, caso não queira que nossa sociedade seja cortada para sempre! Passar bem!
- Espera, Franchesco! Espera!

Desliga na cara do mafioso. Ele perde a cabeça ,berra e dá um tiro pro alto com uma pequena pistola Deringer.

- Nogiento! Ninguém bate il telefone na mia faccia!

Disca o número 9 no telefone.

- Voglio vocês tutti qüí, AGORA! 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

TE PERDOO (PARTE 2)



N
o dia seguinte, perto do sol terminar de nascer, uma Parati verde-musgo deixa o posto.

Bárbara- Te cuida na capital, Lex. Tcha-au!
Alexia- ‘Té amanhã, prima.

Na cidade, as coisas tentam retornar à sua normalidade. Quem passasse por São Modesto de passagem, sequer pensaria que, há apenas três dias, seus cidadãos encararam um verdadeiro inferno com as bombas do prefeito. Donas de casa vem subindo a ladeira com os sacolões da feira, cumpádis mais antigos já apanharam suas violas para passar o dia sentados nos alpendres, entoando modinhas e contando causos, como sempre fizeram. Meninos de rua brincam de montar castelinhos com os restos de asfalto, até o capataz das obras vir expulsá-los. Quanto ao asfalto semi- novo, os peões trabalham a todo vapor, sendo que a entrada da cidade e mais um pouquinho de chão já foram re-asfaltados.

- Algum problema, Zelão?- Pergunta o capataz a um dos peões.
- Sei não, capatáis. Esse asfarto num apraina de jeito ou maneira! Tem cadas pedação!
- Ocê não é homem, não? Continua empurrando com a pá até abaixar tudo, homem de Deus!
- Sim, sinhô...

Ele continua fazendo uma força danada com a pá, a fim de fazer o bolo de brita e piche se mover. Até que o capataz ouve um grito de pavor e vai correndo ver o que houve.

- Que foi, Zelão? Atacou da hérnia?

Ele mal consegue falar.

- Fala logo, homem! O que aconteceu?
- Seu.. Seu capatáis... Dá só uma espiada aqui!

Ele puxa a pá, revelando um braço saindo do preparado de asfalto! Todos os peões se aglomeram para ver.

Zelão continua a cavar, revelando o resto do corpo do defunto. Os construtores não acreditam no que vêem.

- Que barbaridade!
- Quem terá feito isso?
- Devem ter afogado o coitado no piche de madrugada!
- Será que alguém conhece ele?

Os curiosos não param de aglomerar. Um obreiro vai correndo até o capataz.

- Sinhô?
- Que foi agora?
- É melhor o sinhô vim aqui vê!

Eles andam até um tanque de piche. Outros construtores arrastam um saco preto de pano enorme para fora dele, o abrem e dentro dele está um dos guarda-costas do prefeito. O pavor é geral. Vai juntando cada vez mais gente em torno dos corpos. Dona Abelzinha, chegando à cidade de bicicleta para o trabalho, fica apavorada com tudo aquilo e corre para a prefeitura. Ignora todas as pessoas que tentam cumprimentá-la e sobe direto para o gabinete.

- Prefeito! Prefeito!

Ele dormia na cadeira de prefeito com um surrado exemplar de “DESOBEDEÇA OS DEZ MANDAMENTOS E TENHA O MUNDO A SEUS PÉS” sobre o rosto, e acorda num salto.

- AI! Dona Abelzinha? Isso lá é jeito de começar o dia? Que aconteceu?
- Prefeito... Asfalto... Tanque... Corpo...
Prefeito- Calma, Dona Abelzinha! Uma coisa de cada vez.

Só se ouve o berro de fora da prefeitura.

- ACHARAM OS CORPOS??? MAS COMO???

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

TE PERDOO (PARTE 1)


Violão em punho, Alexia mostra para sua amiga rica a música que vem tentando compor desde de manhãzinha.

“Olho pras pessoas mas
 Não quero conhecer ninguém
 Minha mãe diz que é errado
 Mas pra mim tá tudo bem

 O mundo é cruel e minhas rimas
 Fúteis, os conselhos que recebo
 São, no fundo, inúteis

 Assim prossigo, assim prossigo
 Meu dado é viciado e meu
 Destino quer acabar comigo”

- E então, Monique? Curtiu?
- Olha, eu olho, olho, e não consigo entender como pode caber tanta tristeza numa mulher só...
- Tem espaço de sobra nos peitos.- Alexia brinca.
- E como tem...- Elas riem alto.
- Olha só, a chuva já tá passando! Bom, acho que já incomodei bastante por aqui, cumádi. Seus criados que o digam.
- Aparece mais vezes, Alexia!
- Tenho que aparecer, né? As aulas são aqui, mesmo...

O escocês, Uli, Josué, Chorume, Manolo e Jakson assistem à TV no bar, comendo uns torresminhos e enchendo a cara. Jakson folheia um jornal.

- Mulher aqui por essas bandas é um negócio difícil de conseguir, Manolo- Diz Uli.- Tirando Alexia e Barbie, todas as mais comíveis ou tão comprometidas ou fugiram pra Juiz de Fora. Mas se o que ocê tá a fim é só duma caçapa pra sua bola, na cidade tem duas casas de mulher, o Clube Brigadeiro, que é a zona dos pobres e a Boate Zácaro, que é a dos bacanas. Já não me deixam mais pernoitar no Brigadeiro porque eu tô devendo até as tripa pra eles, e no Zácaro... Bom, tive um rolo com a filha do dono, aí já viu...
- AH, NÃO!- Jakson Sá um furioso bofetão na bancada.- O Vasco empatou mais uma de 1 a 1? Faz favor, pôrra!
- Hehe... Timeco marca-bosta esse seu, hem, carioca?- Escocês sacaneia o pobre torcedor.
- Pôxa, quer me matar do coração?
- Tu tem um, Ulysses?
- Olha, agradeço muito pela mão que todo mundo deu pra gente na rádio hoje.
- Que é isso, Uli.- Agradece Jakson- É o melhor que a gente pode fazer pra pagar pela grana que tu descolou pra nós.
- Então, quer dizer que o prefeito da cidade também tem um programa policial? Pergunta Manolo.
- Arrá... E famoso no estado todo, por sinal. Mais pelo pastelão que pelas, como ele diz, “cenas chocantes”...
- Esse prefeitinho nosso é bisonho.- Chorume fala de boca cheia, babando torresminho mastigado pra todos os lados- Tem uma capacidade enorme de apontar tudo que tem de errado...
- E a mesma capacidade pra não mover uma palha pra consertar.- Complementa o Escocês.
- Cala a boca, que vai começar!
- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos.

- Muito boa tarde, caros conterrâneos modestinenses, e de toda Grande Minas.- Entra em cena Chicão, com o sorriso mais plastificado do planeta, socado num terno bege apertadíssimo, que o faz parecer um bote salva-vidas enrolado- Fecha em mim, Olho Mágico! Boa, boa... Antes de trazer as manchetes do dia, gostaria de lhes dar um recado. Música heróica, por favor. Isso... Como todos devem se lembrar, semana passada eu fui atacado enquanto saía de minha casa.

Nas imagens de arquivo, mostram os seguranças do prefeito tentando defende-lo de manifestantes furiosos. Um dos seguranças se assusta, se abaixa e o prefeito acaba levando uma pneuzada na cabeça, caindo durinho no chão.

- Cachorro! Sem-vergonha! Volta pra cadeia, filha-da-mãe!

No estúdio, o prefeito tenta se segurar e manter a pose, acariciando sua medalhinha.

- Desgraç... A-ham... De qualquer modo, deus criou os seres humanos para perdoarem uns aos outros. Em qualquer outro lugar do mundo, tal ato seria motivo para prisão perpétua, e talvez até pena de morte, mas não em São Modesto, lar da paz e da civilidade. Descobrimos que o agressor é um pedreiro de 37 anos chamado Romualdo Santos de Almeida. Apesar de ter sido brutalmente agredido e ter passado dois dias desacordado, eu tenho apenas uma coisa a dizer, com todos os meus queridos modestinenses e o estado de Minas Gerais como testemunhas. Ô Olho Mágico! Fecha aqui em mim!

A câmera fecha no rosto dele. Ele diz da forma mais dramática possível.

- Em letras garrafais: TE PERDOO... ROMUALDO!

Sorri para a câmera, com uma lágrima microscópica descendo pelo rosto. Claque de aplausos.

- Agora, vamos às manchetes!

De volta ao bar...

- Dá pra acreditar nessa história?- Pergunta um Jakson indignado- Viram o monte de vezes que ele piscou enquanto falava?
- Quem é que sabe?- Responde o escocês- Mas pelo sim e pelo não, é melhor a gente abrir o olho. Com um pouquinho de sorte, esse torresminho aqui pode até ser a bunda de Romualdo!

Os quatro cospem o torresmo de nojo.

- Olha que Jah castiga, escocês! Não se brinca com uma coisa dessas!
- Hum... Até que Romualdo tem um gosto bom...- Chorume faz piada.
- Seu Nojentão...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

1.21 GIGAWATTS?!?

WE´RE BACK, BABY!!!




C
hove caudalosamente em São Modesto. Nas ruas, as crianças abandonadas tomam banho nas calhas d’água e brincam de descer as enxurradas a bordo de pneus velhos. Um velho mendigo, que desmaiou de bêbado no meio da rua, também é arrastado pela água, e alguns moleques mais malandrinhos já trataram de hastear uma bandeira de pirata nas costas dele sem que notasse. Sem ter como voltar para casa, Alexia aproveita para colocar o papo em dia com a filha mais velha do dono da mansão.

- Aposto que, hora dessas, Ulysses deve tá falando assim: “A única chuva do ano em São Modesto e eu aqui sem um sabonete”- Brinca Alexia, tomando um cafezinho.
- Ah, tem piedade, Alexia!- Reclama a outra moça, que, se considerar só a aparência, preenche todos os requisitos para ser uma patricinha de carteira de trabalho assinada-
Vai dizer que você e sua prima ainda se misturam com aquela lata de lixo hospitalar... Aquele ali não vale o sol que recebe na cara!
- E eu não sei disso, Monique? Fiquei com ele cinco anos, mas uma noite na cama com aquele ali tem mais poder que um contrato com o diabo!
- Hahahahahaha... Tem mesmo coisas que só você consegue dizer, cumádi... E diz aí, menina. Como o coração tem cuidado de ti?
- Hum... Nem sei dizer. Ontem, apareceram uns caras meio doidos lá no posto, fugidos do Rio...
- Sei.
- O mais novinho consegue meter mais medo que o Uli, mas o irmão mais velho dele, cumádi... Um galego de categoria! Bom de papo, barbudinho, loiro com o cabelo medindo quase um metro, e uma bundinha, uma bundinha que...
- Ahem!- O mordomo corta a conversa, pois a ruiva já começava a descrever Jakson com, digamos, exageros de teatralidade.
- Ih, desculpa aí, Jarbas... Acho que acabei me empolgando...
- Imagino como será quando tiver certeza, professora Moura...
- Ah, fica na sua, Jarbas!- Monique repreende o mordomo- Vai lá dentro buscar mais uns biscoitinhos pra gente, tá bom?
- Sim, senhorita...

Ele se despede e volta para a cozinha. Enquanto isso, lá na Aterro FM...

- Oh, Jah...- Uli lamenta, enquanto acende seu cachimbo- A única chuva do ano em São Modesto e eu aqui sem um sabonete... É, palmas pra nós,galera. Demorou, mas a gente conseguiu colocar tudo em ordem em tempo recorde!
- Demoramo tua véia, espertalhão!- Retruca Jakson- A GENTE demorou dois dias pra consertar tudo, e TU ficou aí, pitando!
- Ora, cada um deve exercer sua função na sociedade. Se não existissem os folgados, não existiriam os trabalhadores.
- Tu tem é sorte que a gente ainda tá de bobeira na cidade, ô jamaicano.
- Seguinte, gente.- Manolo intervém- No que depender da aparelhagem, parece que não tem mais nada quebrado, sorrisão. O único problema agora é ir lá fora e ajeitar a antena.
- Debaixo de chuva, maninho? Quem é que vai topar uma missão suicida dessas?

Algum tempo depois, Josué e Manolo saem do bar Pés Juntos usando capas de chuva e carregando o molho de ferramentas.

- Grande jogador de dois-ou-um que você é, hem, lagartixa?- Reclama Josué.

Eles sobem pela escada de emergência no beco do fundo do bar até o terraço de um prédio, consertando uma mini-parabólica improvisada com uma bacia de metal, uns cabides presos a um fio, que por sua vez está conectado a um antigo Atari acoplado a um conversor de TV a cabo, e tudo isso está conservado em um caixote metálico com tampa. Manolo, com uma sombrinha, grampeia o cabo solto de volta na parede, que desce até um buraco no bueiro.

- Essa chuva tá crescendo, Uli. Tô começando a ficar preocupado...- Josué fala pelo celular- Qual a necessidade de acabar com isso hoje? Ninguém escuta essa porcaria de rádio, mesmo...     
- Fala menos e faz mais, grandão...
- Bom, pelo menos aquele treme-treme não afetou muito a antena ou essa gambiarra que você fez aqui em cima. Só faltam mais alguns...

Nessa hora, um raio atinge a antena na mão de Josué em cheio. A eletricidade trafega através do cabo e pega Manolo também, Acontece um apagão na emissora.  

- Mas que merda foi essa?- Chorume acende uma lanterna.
- Foi esse raio lá fora Deve ter detonado a antena...
- E os dói lá fora também.- Complementa Jakson.
- É, é. Aqueles dois...- Uli apanha o celular no chão- Jô? JÔ?!? Ocê ainda tá aí, homem? Quê que tá pegando aí fora?

Só se escuta estática por quase dez segundos. De repente, a luz volta, e com ela, a voz sussurrante de Josué.

- Tudo em ordem, Ulysses. Podem começar a transmitir.
- Jura? Tá... Tá tudo em ordem? Vamo testar então! Tião?

Chorume volta para a sala de som, vira uma porção de botões, berra ao microfone e sua voz de animal torturado ecoa por todas as caixas de som da emissora.

- VOCÊÊÊÊÊÊÊS, VOCÊS E TOOOOOOOODOS VOCÊÊÊÊÊÊS!- Tião grunhe, imitando o Zé do Caixão- ADIVINHEM QUEM VOLTOU? O PRIMEIRO E ÚNICO TIÃO CHORUME, ENCHENDO SEUS OUVIDOS DE MERDA E PODRIDÃO! A SEMPRE EFICIENTE ATERRO FM TÁ DE VOLTA À ATIVA-VA-VA-VA-VA-VA!
- UHUUUUU! Estamos de volta!- Eles comemoram- Jah, ocê não me abandonou!! Alô? Josué, ocê é mesmo um mestre no gato radiofônico! Mas que foi que pegou aí fora?
- Nada sério. Só o raio que me atingiu e eu dei uma apagadinha.- Tosse uma nuvem de fuligem- Eu continuo firme e forte, já o Manolo...

Lá embaixo, Manolo está todo chamuscado, com o cabelo ainda mais arrepiado que já era e cambaleante, dançando na escada.

- I’m siiiiiiiiinging in the rain... Just siiiiinging in the rain... Menino... Isso sim que foi onda!
Iiiiiiiiiiiiiih- hihi! Ai, minha vozinha...

Desmaia. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SONHANDO ACORDADA(PARTE 2)



M
ais tarde, na enorme quadra da mansão dos pais de Johann, vários cavaletes para partituras e cadeiras foram posicionados em círculo, para Alexia dar a aula improvisada. Ela termina de ajeitar o microfone e a caixa de som. A imagem dos longos cabelos loiros e da barba pontuda de Jakson não para de flutuar em sua mente, como se fosse um espírito desencarnado que havia baixado em seu cérebro. Ela olha para as árvores, lá está ele. Olha para o reflexo na piscina, ele de novo. Olha para os pássaros no jardim, adivinha quem está lá? Mesmo assim, ela tenta manter o pouco de profissionalismo que ainda lhe resta.

- Som? Som? Um, dois. Batatinha, 1, 2 ,3 , testando?

As palavras ecoam pelo lugar. Por um instante, ela se esquece que não está em casa e dispara um psicótico rugido digno de Iggy Pop.

- LLLLLLOOOOOORRRRRRD!! WHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOW!!

Os cachorros da família começam a latir como loucos, a garrafa d’água em cima da mesinha dela trinca, os passarinhos saem voando.

- Me amarrei na acústica dessa quadra...

Os serviçais da mansão ficam espantados. Alexia percebe a platéia desavisada e fica toda sem graça.

- Ehr... Desculpa aí, me empolguei um pouquinho... De vez em quando eu esqueço que não to em casa, ehr... Kurt, meu Kurt, que vergonha...

Os serviçais se entreolham e se perguntam se aquela maluca é mesmo professora de música.

Mais tarde, com todos os alunos já acomodados...

- Boa tarde, galerinha!
- Boa tarde, Professora Moura!
- Hoje, eu não vou tentar adivinhar qual de vocês está desafinado.
- Aaaaaaaaaahhhh...
- Em vez disso, eu vou começar a aula ensinando um macete muito bacana, que meu último namorado me ensinou.

A classe zune com ironia.

- Não é nada disso não, gente! Mente suja a de vocês, hem?

Todos riem. Ela pega um diapasão e um garfo na mesa.

- Eu sei que quase todos ocêis têm um diapasão em casa, tanto desse como daquele eletrônico. Mas o que fazer quando a gente tá num acampamento, por exemplo, e por um acaso esqueceu o diapasão em casa?
- Bom- Uma aluna responde- Eu te ligava pelo celular e perguntava se tá afinado, fessora!

Mais gargalhadas.

- É mole, gente? Bom tem um jeito mais fácil...

Todos atentos. Ela se aproxima do microfone, com o volume da caixa de som no talo.

- Ele me disse que qualquer objeto de prata tem uma afinação natural em Mi. Então, é tudo questão de chegar um garfo ou colher de prata o mais próximo possível do ouvido, e...

Dá um peteleco no garfo. A vibração, apesar de fraquinha, ecoa por toda a quadra. Todos ficam se entreolhando, espantados.  Ela apanha um molho de colheres dentro da capa do violão e as distribui pela classe.

- Quero ouvir todo mundo afinando os violões com a colher e abrindo o livro de partituras de onde a gente parou na última aula, compreendido?
- Sim, Professora!

Ela prossegue com a aula de maneira magistral, como de costume. Os serviçais da família de Johann ficam muito tocados pelo talento dela, que conduz sua classe como um Leopold Swokowsky com um violão no lugar da batuta. Não importa o que ela peça, seus alunos a acompanham à risca, sem um único erro, como se estivessem em transe. Ao fim da aula, uma hora mais tarde, ela espia de relance para as frestas das portas que dão para o quintal da mansão e percebe que a platéia de serviçais continua lá, impressionados com ela.

- Ganhei minha tarde...- Pensa a Profª. Moura, ao dar uma piscadela triunfante para eles- Bom, é só isso, turminha. Inté semana que vem! 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SONHANDO ACORDADA(PARTE 1)

Foi mal a demora, gente!



A
lexia, com a cabeça nas estrelas, dá uns retoques em sua nova música, tocando sentada no balcão da lanchonete, mas sem um pingo de concentração. A juba loira e o traseiro de Jakson não saem de sua mente. Bárbara volta pra casa, toda sorridente.

- Prima? VOLTEEEEEEI!
- Bárbara! Nossa, prima! Ocê voltou com uma cara tão boa!
- Não tem fossa que os incensos do Xamã e o chazinho de tia Ganesha não consigam curar.
- O que rolou lá? Absinto? Yoga? Meditação?
- E ‘algunas cositas más’. Vamo trocar de roupa, que eu te conto tudo lá em cima.

Na cidade, a música Herdeiro de uma pampa pobre, do Gaúcho da Fronteira, explode nos auto-falantes do Fleet, com os três loucos berrando a letra. Manolo e Jakson estão boquiabertos com a quantidade de dinheiro que Uli conseguiu pros dois.
- Caraaaaaaca, maluco... 100, 200, 300, 400, 500 CONTO?!- Diz Manolo, impressionado- Sorrisão, sou teu parceiro pro resto da vida!
- Eu também, véio!- Complementa Jakson- Garfou o velhote na moral! Dez vezes o preço que Manolo pagou pelo carro! Como tu conseguiu esse milagre?
- Sou caixeiro viajante faz 15 anos. Mentira e vigarice são meu negócio.
- E agora, o que a gente faz com esse calhau todo?

Manolo abre a boca, Jakson tampa na hora.

- Não dá idéia, lepra de óculos. Não dá idéia...
- Bom, a gente já um jeito na lata velha docêis, agora vamo dar um jeito é lá na emissora.

Os três entram no bar Pés Juntos.

- Dizaí, Ulysses! Tudo em cima?
- Fala, Escocês! Meus novos comparsas, Manolo e Jakson.
- Beleza, gente?
- Sussa!
- Vai fazer fiado em que hoje, Ulysses?
- Hum, por enquanto nada. A gente veio aqui pra sair pela porta dos fundos, se é que ocê me entende...
- Porta dos fundos?- Jakson estranha- Como assim?
- Calma, cariocas. O melhor da festa é esperar por ela. Dá aí a chave, Escocês?
- Tá na mão...

Ele passa para o caribenho uma chave enferrujada com a cabeça em forma de coroa e Uli pede para os dois o seguirem até a cozinha. Ele abre uma porta corta-fogo nos fundos do bar, revelando uma longa escadaria rumo ao subsolo.

- Então, galera. Seguindo reto, essa escada dá direto na porta dos fundos da Aterro FM. Mas não contem nada pra ninguém, tá ligado?

Os dois ficam boquiabertos.

- Co... Como assim, seu filha-da-mãe?- Manolo se irrita e agarra Uli pelo colarinho- Sempre teve essa passagem rápida e tu fez a gente pagar aquele micão respirando aquele vapor de esterco lá no esgoto? Eu tenho asma, seu pilantra!
- E ocêis acham que eu ia perder a chance de ver os playboyzinhos da cidade grande enfiando a cara no bueiro ?- Dá uma piscadela para os dois.
- Ah, seu...!

Os dois dão um empurrão em Ulysses, que despenca rolando escada abaixo.

-... Eu ainda to viiiiivooooooo!

Alexia experimenta uma jaqueta de couro justíssima na frente do espelho, ouvindo New York Dolls na vitrola. Dá uma bagunçada no cabelo, passa um batom bem vermelho na boca e muito delineador nos olhos. Bárbara sai do banheiro de uniforme.

- Uau! Sua velha jaquetinha de caveira! Ela ainda serve nocê?
- Oi, Bárbara. Tô pensando em causar lá na aula hoje. Que ocê acha de eu ir dar a aula na casa do Johann... Vestida de Johnny Thunders?
- Eu acho que a noitada ontem foi das brabas! Que foi que te aconteceu, menina?
- Ah, nem sei explicar direito, prima. Enquanto ocê tava de folga, um daqueles carinhas que vieram do Rio entrou aqui na lanchonete.
- Até imagino quem...
- Ele passou mó tempão de papo comigo, me passou mó mel e me lançou uma piscadela marota antes de ir embora. Não sei por que, mas, mas isso mexeu muito comigo, entende?
- Tá a fim de ir trabalhar vestida assim só porque aquele ali te deu bola? Fala sério, menina!
- Ah, nem sei! Só sei que eu tô com a florestinha em chamas! Mas e então? Como eu fiquei vestida assim?
- Olha, não vão nem te deixar cruzar a entrada da cidade com essa fantasia de travesti...
- Barbie!

Joga o batom nela.

- Pôxa, eu tava tão animada...
- Conselho de melhor amiga, Lex. Aquele galãzinho lá...
- Jakson...- Ela suspira de paixão.
- Não é flor que se cheire, não. Ouvi uma conversa dos dois com o vagabundo, o cara disse que tem mais de 100 rameiras lá no Rio que iam pra cama com ele!

Ela se espanta.

- 100?
- Foi o que o irmão dele disse, prima.
- Hum... 100 mulheres, hem?
- Leeeeex... O que se passa pela sua cabecinha?
- Âhn.. Nada. Por enquanto, nada...
- Tô sabendo. Olha, veste logo seu tailleurzinho de sempre, que do jeito que os mais velhos da cidade já não vão muito com a sua cara, é capaz até de mandarem o mordomo te tacar pedra vestida assim.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A REBOQUE



A
pesar de já não ter mais engarrafamento, o guincho vai arrastando os restos mortais da Pampa numa lerdeza irritante, com Uli, Manolo e Jakson vindo atrás dele no Fleet. Até caracóis e tartarugas na estrada conseguem ultrapassá-los.

- E tu nem pra dizer que o guincho da cidade era uma Rural, né, sorrisão?- Reclama Manolo, dando um tapa na nuca de Ulysses.
- AI! Cidade atrasada, né? O que ocê esperava, maluquinho?
- E então?- Pergunta Jakson- O que tu sugere da gente fazer com o Pampa?
- Sinceramente? Talvez desse mais lucro colocar fogo nessa joça.
- Foi o que eu disse pro leproso aí quando ele comprou.
- Comprou?- Uli se espanta- Achei que o maluquinho tinha achado essa coisa encostada na estrada...
- Tenta adivinhar quanto eu dei nele?
- Quando muito, uns cinco real...
- Quase, Jamaica. Cinquenta!

Uli engasga com o gole de seu rum destilado no motor do carro.

- Êpa, cuidado aí, Jamaica! Presta atenção na estrada!
- Isso tudo? M-m-m-mas de que jeito?!
- Comprei de 19ª mão de um traficante.- Explica Manolo.
- Oh, Jah...

Na oficina da cidade...

- Tem certeza que ocêis não preferem vender essa quizumba prum ferro-velho?- Sugere o caribenho- Se quiser, até ajudo a conseguir um troco invocado nela... Prometi pro Chorume que a emissora voltava a funcionar ainda hoje.
- Nem vem.- Retruca Manolo- Tô seco pra voltar logo pra estrada e ir embora do posto sem consertar nada praquela sargenta de cabelo trançado...

O mecânico pé-rapado, todo sujo de graxa e com a camisa desabotoada, revelando uma cicatriz de ponte de safena, faz a vistoria no que sobrou do Pampa.

- Óia, só tenho que perguntá uma coisica procêis dois... QUE FOI QUE DEU NA CABEÇA DOCÊIS PRA METÊ ESSE MONTE DE BOSTA NUMA ESTRADA DE CHÃO, CUMPÁDI?
- Tudo culpa desse zé graça aqui.- Jakson dá um tapa no irmão caçula.

- AI! Pára, Jakson! Mas olha, a coisa tá tão feia assim? Não tem jeito de montar tudo de volta no lugar e ver se pega?
- Desse jeito que tá? A bestage qui ocêis fizero istragô tudo as manguêra, u tanque di óio, u radiadô rachô no meio...
- É MESMO, RAPÁ!- Manolo dá um tapa na testa- Como a gente foi esquecer do rombo no radiador, véio?
- Pra sê muito honesto cocêis, se inventá de trocá tudo as peça, vai saí umas vinte veiz mais caro qui o próprio carro!
- Putz...- O  baixinho magricela se desespera- Reunião lá fora, galera!

Os três se reúnem do lado de fora da oficina.

- E agora? O que a gente faz?- Questiona Jakson- Nenhum de nós tem dinheiro que baste pra consertar a lata!
- Hum...- Uli acaricia a barbicha e reacende o cachimbo- A menos que...

Eles cochicham um plano. Se cumprimentam e Uli vai tratar com o mecânico.

- O barato é o seguinte. Esses dois malucos fugiram de casa lá do Rio de Janeiro e a mãe deles pode encontrar os dois a qualquer momento. Sente só nossa proposta. A gente penhora o Pampa pro senhor, e com o dinheiro eles vão viver aqui. Assim que eles tiverem como pegar o.. Âhn... Carro de volta, a gente volta e devolve a gaita pro senhor. Topa?
- Hummmmm... Parece inté razuávi... E em quanto ocêis tão pensando?
- Deixa a gente pensar aqui...

Na pousada, ao som de cítaras indianas e saltérios, Xamã acende 30 incensos ao redor de Bárbara, que medita enquanto os velhos hippies fazem uma dança ritualística ao redor dela com outros hóspedes, semelhante à dos extraterrestres do filme Avatar, guarnecidos por luzes psicodélicas. Mais tarde, os três passeiam pelo casarão. White Rabbit, do Jefferson Airplane, toca na antiga vitrola.

- A coisa tá feia por aqui, anjo...- Diz o dono da pousada, com a voz molenga e borbulhante de quem esteve sob influência de drogas por boa parte da vida- Ocê viu como tão as vaquinhas e a horta lá fora, não foi? Não dá mais pra viver de artesanato e terapias orientais como há vinte anos, aí. Desde os anos 70, todo dinheiro que eu conseguia guardava debaixo do nosso colchão. Mas ano passado o casarão pegou fogo e aí já viu.
- Com muito custo a gente conseguiu apagar antes que tudo desmoronasse.- Tia Ganesha intervém, trazendo uma chávena e copinhos de porcelana oriental numa bandeja.- A gente teve de viver de pão e chá por cinco meses enquanto reconstruía o casarão.
- Poxa, tia, e nem contaram nada pra gente?
- De que jeito, Bárbara? O fogo cortou a linha de telefone.
- Que tragédia, sô... Mas e o disco? Ele derreteu no incêndio?
- Disco?_ Xamã estranha- Que disco, aí?
- Ocê sabe, tio... ‘O’ disco.
- Aaaaah, o disco. Podiscrê, aí...

Eles entram no quarto do casal e ele puxa uma mala vermelha de plástico duro do fundo do closet. Ele a abre e dentro dela está um exemplar praticamente novo em LP do histórico Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta: Sessão das 10, de Raul Seixas, acomodado num travesseiro com uma estampa em tie-dye.

- A maior sorte da minha vida foi que o fogo não conseguiu achar a mala. Minha vida é esse disco, anjo...- Diz o velho hippie- Eu me atiraria a chacais famintos por ele, aí! Vale mais que o casarão inteiro.
- Eu sei, tio. O famoso disco confiscado de Raulzito...
- Acredito agora que só exista esse exemplar no mundo todo, aí.
- E então?- Ganesha intervém- Quem quer esquecer esse barato deprê, tomar um Santinho Daime e praticar um Kaminha Sutra, hem?
- Só se Tio Xamã puser o Raulzito pra tocar!


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

J & A?


A
lexia desce para a lanchonete, vestindo seu uniforme de frentista e carregando sua fiel guitarra Schecter verde-oliva. Jakson dá uma espiadinha na bunda dela com a porta entreaberta e dá sinal de positivo com a cabeça. Olha pro relógio, como se estivesse cronometrando os passos dela.

- Tá fazendo o que, Jakson?- Interompe o irmão caçula.
- Não é da tua conta, cabeção! Vai tomar banho!
- Mais um? Tomei ontem, tá lembrado? Sem querer, mas tomei.
- Ah, vai te catar, véi!

A ruiva apanha um matinho de capim-limão no matagal seco que adorna as laterais malcuidadas do prédio do hotel e o espeta entre os dentes. Ajeita os salgados pra assar e fritar e põe a água do café para ferver. No andar de cima, Jakson se prepara pra se aproximar dela pela primeira vez.

- Hoje a ruivinha entra no meu bolso!

Alexia anota uma letra de música no caderninho de notas enquanto aquece os quitutes, ensaiando algumas notas na guitarra enquanto anda pela cozinha. Jakson chega de fininho e encosta na porta da lanchonete para admirar a carne mais de 1ª que já havia visto em seus quase trinta anos.

- A música é sua?- Ele pergunta, dando um tremendo susto em Alexia, que quase derruba a água fervente e uma frigideira cheia de óleo no chão.
- AH! Pôxa, Ocê me assustou, cara!
- Ââââhn... Uhum... Foi mal, moça, eu não...

Aparentemente, a primeira impressão de Jakson estava mais que sepultada, mas assim que Alexia olha melhor para os olhos castanhos dele, sua juba loira e sua barbicha...

- Kurt Cobain...- Ela pensou- Mas esse carinha é... É o cuspe de meu Kurt!
- Quer ajuda, ruivinha?- Ele fala, tentando acordá-la de seu transe.
- Âhn?- Ela se levanta, meio envergonhada- Carece não, gato.
- Se tu diz...

Ela pega um café com leite e um pão de queijo pra ele, tentando controlar a paixonite.

- Por minha conta.
- Valeu, gata. Ainda não disse se aquela música era sua.
- Aquilo? Ah, né nada sério, não. Tive uma transa mais ou menos lá em Juiz hoje à noite e acordei com um caquinho na cabeça... Tá a fim de ouvir?
- Manda ver!
- Então tá... A coisa vai mais ou menos desse jeito...

Ela começa uma batida bem blueseira na guitarra e começa a sussurrar algo que só de muito longe lembra uma letra de música.

“Tento puxar um papo após a
Transa, mas o cara desmaiou
O sol do meio-dia me acorda
E o safado já me largou

Caminho pela estrada
Triste e desimpedida
O deserto me compreende
A solidão é minha amiga

Assim prossigo
Assim prossigo
Meu dado é viciado e meu
Destino quer acabar comigo”
Ele mal presta atenção à letra da música, pois os olhos dele não saem do discreto, porém convidativo, decote dela. Mas pelo bem do cavalheirismo ela começa a assobiar e bater palmas assim que ela acaba de tocar.

- Tem talento pra dar com pau, hem, ruiva?
- Gadinha... Ocê é aquele que ficou babando por mim no orelhão ontem, né não?
- Como? Reparou em mim?
- Claro, sô. Não faz idéia de quantos homens já me fizeram aquela mesma cara quando me viram pela primeira vez. Desde que eu era menina é a mesma coisa... Tem mulher bonita que acha que ser bonita é um saco, mas eu gosto de mim do jeito que sou.

Ele beija a palma da mão dela, deixando-a sacudida.

- Não os culpo. Até seu feto devia ser show de bola.
- Homens... Sempre com as mesmas cantadinhas fajutas...
- Por que mexer em time que sempre ganha?
- Meu nome é... Alexia.
- Ventania. Jakson Ventania. Jakson sem o ‘C’. Foi meu presente de 15 anos, omitir o ‘C’ no cartório. Ninguém pronuncia aquela letra mesmo...

Alexia ri e olha para ele com ternura.

- Aliás, que prima a tua, hem? A mão dela parece até um tijolo! Tem um cola-brinco de direita que é coisa de louco!
- É uma figura e tanto, a Barbie... Ela me falou da aventura que ocê e seu irmão caçula tiveram pra chegar aqui. Precisa ter muita coragem pra encarar uma estrada de chão naquela lata de goiabada, hem?
- Já dizia algum sábio, a linha que separa a coragem da estupidez é grossa como um fio de cabelo.

Eles riem.

- Gostei da sua camiseta. Krisiun... Ocê é metaleiro, pelo visto.
- Se sou! Adoro death metal, speed metal, thrash metal, doom metal, nu metal, power metal, HC, grindcore, ska-core...
- Também amo rock, mas sou mais da turma dos anos 60, 70 e do grunge, saca? Sou doida por Iggy Pop, Stooges, MC5, Music Machine, Sonics, Monks, Kinks, Slade, New York Dolls, Fuzztones, Soundgarden, Pumpkins, Pearl Jam, e é claro...

Ela mostra o enorme N de Nirvana tatuado no braço esquerdo.

- Só... Kurt Cobain, né?
- Meu Cristo, único e inimitável!
- A gente te ouviu tocando ontem de manhã. Tu é uma maestrina e tanto, hem?
- Valeu... Não é pra me gabar não, mas, além de minha prima, eu sou a melhor música que eu conheço. Dou aulas no conservatório da cidade.
- Sei...

Um sorri pro outro. Uli chega no Fleet, acompanhado de um reboque.

- Opa, a condução chegou. A gente vai levar nossa lata velha lá na oficina da cidade. Ou pro ferro velho, vai saber... Tchau, princesa do rock.
- Tchau, Jakson sem o C!- Ela volta para a pia e suspira- Tchau... Epa! Ah, não! Alexia, sua imbecil... Ficou lá, descascando o carinha com os olhos e deixou tudo queimar! Burra!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

PAZ E AMOR, BICHO!(PARTE 2)




O
 sol da manhã começa a invadir as janelas do posto Mato Seco. Os vaqueiros seguem tocando o gado pela estrada e tocando o berrante.

- Móóóóó! Móóóóó! Quem precisa de rádio-relógio aqui em São Modesto?- Comenta Alexia, bocejando com uma tremenda cara de sono e ainda com as roupas do dia anterior. Apanha um montinho de água mineral numa garrafinha perto do fim e esfrega no rosto diante do espelho, para tentar acordar e lavar a maquiagem borrada. Bárbara sai do banho, cabisbaixa e suspirando de desânimo.

- Ah, e aí, Lex? Chegou tarde da noite, hem?
- Sabe que nem me vi chegando, sô? Era que hora?
- Umas três da manhã, eu acordei lá na lanchonete e te achei apagada, largada no banco lá fora. - Bárbara conversa enquanto procura seu uniforme na cômoda antiga e devorada pelos cupins.
- Bom, pelo menos eles foram gentis e num tive que pedir carona na beira da estrada...
- “Eles”? A noite foi com quantos?
- Hum... Sabe que eu esqueci?
- Bom, pelo menos uma de nós duas se divertiu.

Bárbara senta-se à beira da cama, olhando para o boné verde nas mãos, tentando segurar as lágrimas.

- Qual é o problema, prima?- Pergunta Alexia- Já levantou com essa cara de quem matou a mãe por engano!
- O mesmo de sempre, Lex. O posto, o posto, o posto, o posto...  Ali, dormindo debruçada no balcão, tive aquele sonho de novo. O posto, a lanchonete, o hotel, tudo pegando fogo e desmoronando... E eu aqui fora, assistindo tudo em transe, com... Com o sorriso de satanás no rosto... Amando cada segundo, vibrando...

Alexia encosta no ombro da prima para reconfortá-la.

- Relaxa, Barbie... Sabe de uma coisa? Ocê andou passando raiva demais esses dias. Pode tirar o dia de folga hoje. Veste aquelas roupas de hippie, vai passar a manhã lá na pousada, meditando com tio Xamã e tia Ganesha, curtindo aquele som psicodélico... E talvez ‘algunas cositas más’, e volta pra trabalhar à tarde. Eu assumo a lanchonete até minha hora de trabalho.
- Faz isso por mim, prima?
- Claro, podexá! Mas vê se não exagera muito na ‘fadinha verde’ por lá. Além do que, ainda são oito da manhã...
- Valeu, prima!
As duas se abraçam.

- Agora, se me dá licença...- Vai correndo pro banheiro, carregando a guitarra e um bloquinho de papel- Apertada desde ontem. - Fecha a porta.

Bárbara põe na vitrola o disco A saucerful of secrets, do Pink Floyd e acende um incenso.

- Set the controls... Faixa 3.

Assim que o baixo de Roger Waters começa a moer as caixas de som, ela muda instantaneamente de humor e se arruma enquanto dança com a música cheia de ruídos agudos e dissonâncias. Veste um vestido florido bem folgado, colar indiano, óculos escuros, um velho alforje de couro desbotado, tamancos de madeira, faz uma trança gigante com seus longos cabelos negros e põe um chapéu cloche. No quarto ao lado, Manolo e Jakson tentam suportar a barulheira psicodélica.

- Detesto essas músicas...- Reclama Manolo - Nem tomando ácido dá pra aturar esses barulhinhos de teclado que eles enfiavam ao acaso...
- E eu achando que nem o rock progressivo tinha conseguido chegar aqui em São Modesto ainda...- Brinca Jakson, passando desodorante.

Mais tarde, Bárbara vai embora do posto e tenta conseguir uma carona na beira da estrada. Ninguém se habilita. Segue a pé mesmo. Anda uns dois quilômetros no acostamento e dobra à esquerda numa estrada de chão. Conversa com o vigia da divisa e ele abre o portão de madeira para ela passar. Anda mais alguns metros no chão de terra até avistar uma placa velha, parecida com coisa do velho Oeste.

POUSADA DA PAZ 500 m ->
Liberte-se de seu corpo.
Aulas de ioga, meditação, filosofia e sexo tântrico.

Ela logo chega a um enorme e velho casarão de madeira, de quatro andares e telhado de palha, no meio de uma humilde e colorida fazenda.

- Parece até que foi ontem...

Ela vai até a varanda e toca um pequeno gongo-campainha.

- Xamã? Ô, Xamãããããã!?

Lá dentro, em profundo transe num imenso tapete indiano, estão um senhor idoso, cabeludo e barbado, vestindo roxo dos pés à cabeça e uma senhora de cabelos grisalhos usando trajes típicos da Índia, sob luzes psicodélicas ao som de Aquarius, do musical Hair. Bárbara continua soando o gongo.

- Ô Xamãããããããã!?

Ele se levanta num salto, com olhos loucos.

- Horror! Sangue! Dor! Pandemônio! Por favor, levem meu corpo, mas deixem meu espírito em paz!?
- A guerra já acabou, meu amor...- A senhora tenta contê-lo.
- Reynaldooooooo!- Bárbara insiste- Ocê tá aí, tio?

Enfim atendem a porta.

- Bárbara! Que saudades!
- Barbie, minha filha! Vem dá um abraço na tia!

Eles se abraçam.

- Há quanto tempo não aparecia aqui, meu anjo?- Diz Xamã- Achei até que tinha virado fumaça!
- Ainda não, Xamã. Não antes docêis.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PAZ E AMOR, BICHO!(PARTE 1)



N
a Aterro FM, Manolo e Jakson organizam o estúdio e ajudam Josué a tentar consertar o maquinário.

- Eu conheci o Tião há uns doze anos em Juiz de Fora. - Conta Ulysses- Ele tava ali, bêbado, dormindo na sarjeta, e eu acabei atropelando a perna dele sem querer. Passei a financiar a rádio pirata dele desde então, pra aliviar a culpa. Acreditem se quiserem, mas ele era esquelético que nem o Manolo quando o conheci.
- Cacête! Sério isso?  
- Tu deprimiu o cara pra valer, hem?- Diz Jakson.
- Se tão achando isso triste, não sabem de nada ainda... Quer saber como faz pra deixar o gordão fulo da vida?

Chama os dois de lado e mostra um Xérox da carteira de identidade de Tião.

- SEBASTIÃO COLIMÉRIO MATIAS??- Os irmãos ficam atordoados.
- SHHHHHHH!- O caribenho tenta contê-los- Fala baixo, ô! Ele morre de ódio do Colimério. Toda vez que eu ameaço chamar ele assim, ele tenta me bater e rola no chão.

Risos.

- Ocêis vieram aqui pra sujar a mão de graxa ou curtir com a minha cara?- Tião, se arrastando para o estúdio sobre uma cadeira de rodinhas com um rodo, os provoca.- Vamo trabalhar logo, pôrra! A gente ainda tem até meia-noite pra tentar consertar as parada!
- Tá bom, já vamo...- Diz Uli, limpando as cinzas do cachimbo- Colimério!
- DE QUÊ OCÊ ME CHAMOU, ULYSSES?!?

Ele perde o equilíbrio e acaba capotando de barriga no chão com cadeira e tudo. Todo mundo desaba de rir.

- Seu viado! Assim que eu conseguir levantar, vou te enforcar nos seus dreads e te meter seu cachimbo no...

Tarde da noite eles voltam ao posto de gasolina, mais precisamente para o hotel.

- Valeu mesmo por deixar a gente ficar aqui, indiazinha.- Agradece Jakson, arrastando uma pilha de caixas de papelão amarradas ao skate escada acima.
- Eu não falei nada de deixar ocêis ficar aqui de graça, super-galã.- Retruca Bárbara- A casa é docêis, mas só até remendarem o teto da minha oficina, depois disso é 30 por dia, tá entendendo?
- Perfeitamente! Agora, quando é que tua prima ruiva vai...

Ela o agarra forte pelo queixo como se amassasse uma latinha de refrigerante e o encara nos olhos de maneira ameaçadora.

- O que dizia, Mister Mais de Cem Vagabundas?
- Uuuuuhhh.. Nnnnnnhada?
- Melhor assim.- O larga sobre as caixas.- Agora deixa eu ver se a fechadura ainda abre...

Ela enfia uma caneta no buraco da fechadura e tenta forçar a trava com ela. Com alguma habilidade a porta se abre e ela acende a luz, revelando um cenário de filme de terror. Teias de aranha e lixo por toda parte, o espelho quebrado, tacos soltos no piso, uma infiltração na parede, o colchão da cama de casal rasgado e uma antiga televisão Telefunken de madeira toda roída de cupins sobre uma geladeirinha de frigobar enferrujada até a alma.

- Reparem na bagunça não, forasteiros, mas é que a última vez que hospedou alguém aqui faz mais de ano. Fiquei com preguiça de limpar...
- Tô vendo...- Manolo abre espaço para arrastar seu baú para dentro do quarto- A gente já ficou a tarde toda limpando e consertando aquela rádia do Tião, limpar mais um quartinho de hotel nem vai fazer suar.
- Caraaaaca, maluco...- Jakson se espanta com o estado do quarto- O sujeito que ficou aqui por último era mais porco que tu, Manolo!
- Na verdade era um casal em lua-de-mel...- Diz Ulysses.
- QUÊ?
- Brincadeirinha, gente!
- Sei, sei... Essa TV pelo menos é a cores?
- Aí já tão querendo mordomia demais, né? Internet discada só chegou em São Modesto ano passado!
- A gente vai dormir que nem reis, né não, Jakson?
- Ô... Mas desde que tenha uma tomada pra gente ligar o som e as guitas, o resto é o de menos.
-... Guitas?- Bárbara se preocupa.

Os irmãos passam o resto da noite tentando ajeitar decentemente o quarto e batendo cabeça ao som de heavy metal no último furo... E incomodando a gerente do posto no andar de baixo.

- Nossa senhora, vagabundo!- Ela comenta- Dá pra acreditar que tem gente que ouve esse tipo de música numa boa? Parece que tão torcendo o pescoço do capeta!
- Ocê mora com Alexia, ela é fã de Nirvana...
- Ah, mas é diferente, né? Pelo menos dá pra entender mais ou menos o que o Cobain fala.
- É, bem mais ou menos... E ela vai voltar pra casa só de manhãzinha?
- Vai saber. Ela disse que ia caçar algum parceiro de cama lá em Juiz, não deu notícia até agora...
- Falando em parceiro de cama, Barbie... que ocê diz da gente lembrar os bons tempo ali no lavabo?
- Éééééé, bebé? Os bons tempos que ocê me encachaçou, traiu minha prima comigo e ela ficou quase um ano sem pisar na cidade com raiva da gente? Dispenso.
- Ainda lembra disso? 


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

UMA TARDE NA VIDA DO PREFEITO(PARTE 3)


J
 á são quase cinco da tarde, e o ambiente nos bastidores do programa Diário de Chicão é apocalíptico. A assistente ajuda a pendurar o microfone na cabeça dele e escovar a poeira de seu Armani verde- bandeira.

- O senhor tem certeza que quer voltar ao ar depois da confusão de ontem, Francisco?- Pergunta a produtora do programa, uma loira alta e magra, muito parecida com Vera Fischer- Isso não vai dar ibope nenhum! O povo quer mais é te ver pelas costas!
- Exatamente por isso nós temos de dar a eles alguma distração, Meibilene! Tentar tirar o foco do Estado de nossas trapalhadas pode fazer toda a diferença nesse momento. Ô, mocinha? Me dá meu gargarejo aí?
- Bom, o senhor quem sabe...

O prefeito termina de preparar sua garganta enquanto a assistente termina de ajeitar sua maquiagem à caminho da bancada do programa. O diretor dá o sinal para começar a gravação. O narrador inicia o programa.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos. Chicão saúda a audiência de braços abertos, com um sorriso mais falso que lesbianismo de filme pornô. Passam-se as horas...

- Para encerrar o programa dessa noite...- Ele continua, com um semblante intimidador- Vocês não vão acreditar no que aconteceu noite passada lá na capital! Um massacre, uma atrocidade da pior espécie...
- Pior que suas bombas?- Um gozador grita lá do backstage, provocando gargalhadas em toda a cidade. Chicão, irritado, aponta para trás e faz um sinal com o indicador contra o pescoço, mandando que a produção se livre do engraçadinho.
- Sim, muito pior, muito pior... Com a palavra, nosso repórter mais corajoso, Fabinho do Sufoco. Vai lá, Fábio!

Entra o VT da reportagem. O repórter, um cara sem a menor aparência de repórter, com seus 30 e poucos anos, enfiado numa camisa social listrada toda amarrotada com uma gravata estampada com patinhos voando, está diante de uma imensa parede tombada, com um carro virado de ponta-cabeça dentro do estabelecimento e o chão todo lavado com sangue.

- Tudo aconteceu ontem, por volta das dez da noite, Francisco. Um sujeito, completamente transtornado, desceu a Afonso Pena num Ford Galaxie desgovernado, bateu em dez carros estacionados, atropelou seis pedestres e invadiu aquela loja ali, olha lá! Pensam que acabou? Quando a polícia, os bombeiros e a ambulância chegaram, o motorista acordou, apanhou uma escopeta e simplesmente saiu atirando em todo mundo, sem mais nem menos, não é isso, sargento?
- Precisamente.- Responde o oficial da polícia.- Esse sujeito, de nome Jurandir Medeiros, escapou do hospital psiquiátrico noite passada. Um homem absolutamente descontrolado, dado a repentinos acessos de fúria. Nessa chacina ele matou seis atropelados, feriu cinco e matou mais oito a tiros, três das vítimas eram do nosso batalhão. Um verdadeiro massacre.
- Impressionante mesmo, sargento. Como foi que conseguiram deter o cara?
- A gente nem precisou fazer nada. Assim que acabaram as balas, Jurandir simplesmente desmaiou na frente dos policiais, espumando pela boca.
- Ele tava dopado?
- Positivo. Encontramos no porta-luvas do carro, roubado, inúmeras caixas e potes de psicotrópicos, todos vazios, e uma garrafa de vodca quase no fim. Os seguranças do hospital contaram que todos os remédios foram saqueados do almoxarifado da instituição. O meliante ingeriu quase um quilo de remédios de tarja preta antes de conseguir escapar.
- Muito obrigado, sargento. Viu só que absurdo, Francisco? A cidade certamente levará muitos dias para se recuperar desse massacre. Fabinho do Sufoco, o repórter que trabalha mais duro no Estado, para o Diário do Chicão.

Fecha o VT. Lá está Chicão, suando de medo da reportagem, de braços cruzados, quase em choque. A câmera dá um close dramático no rosto dele, esperando que diga alguma coisa. Mas passa-se quase um minuto sem que diga nada.

- Sr. Prefeito?- Diz o diretor do programa- Sr. Prefeito, tudo bem? CHICO?!? Mas que... Ficou catatônico diante da câmera de novo! Corta pro comercial e tira ele de cima da mesa, gente!